Brasília, Eixo Monumental, em uma quarta-feira, às 19h, um pouco mais cedo, ou um pouco mais tarde. No ponto, em frente à entrada do Anexo II da Câmara dos Deputados, jocosamente cognominada “Casa do Povo”, algumas pessoas esperavam o ônibus.

O transporte público em Brasília, para quem ainda não teve o prazer de conhecê-lo de perto, é uma espécie de piada de mau gosto, um escárnio. Natural, portanto, que quase todos os presentes na parada de ônibus ostentassem uma impenetrável carranca, eu inclusive. Quase todos. Um grupinho de três trabalhadores terceirizados usando uniformes ocres fumavam, conversavam e riam a uma certa distância do abrigo.

Podiam-se ouvir palavras de ordem vindas de um trio elétrico da turma verde-amarela que, naquela época, há cerca de duas semanas, marcava presença em frente ao gramado do Congresso todos os dias. “O povo quer mais saúde e menos boquinha”, “ninguém aguenta mais corrupção”, “mais educação, menos corrupção”, “fora Lula, fora Dilma, fora PT”. Alguns automóveis passavam buzinando em sinal de apoio. Além do carro de som, umas duas dezenas de pessoas com camisetas da seleção brasileira se reuniam embaixo do trio.

Ninguém parecia se incomodar com aquilo, até que surgiram três viaturas policiais, cercaram o trecho onde iríamos embarcar nos ônibus e todos nós tivemos que nos deslocar dali até antes do desvio. Caminhei ao lado de uma moça bem vestida, que soltava impropérios para si mesma contra o fechamento da via, os olhos tingidos de raiva, os dentes cerrados. Não manifestou preferência partidária, estava apenas brava. Muito brava.

Saí de perto, apertando o passo.  Mais à frente, os três trabalhadores riam, um deles abanava a cabeça. “É foda, lá tem uns vinte caras! Pra quê isso?’, disse um.

O outro, então, respondeu. “Que porra, essa mulher podia ir embora daí logo pra eu poder ir pra casa em paz”. Essa mulher, creio, era a presidente Dilma.

Se eu tivesse olhado para trás, seria possível ver as duas imponentes torres do Congresso Nacional.

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Mesmo ponto de ônibus, mesmo horário, alguns dias depois. O carro de som da turma pró-impeachment já havia desaparecido, sendo substituído por turminha mais acústica, que, com cartazes e faixas contra o governo, postava-se, agora, alguns metros adiante. Em frente ao STF. De onde estávamos, o barulho deles não nos alcançava claramente, embora pudéssemos ouvir as buzinas de apoio.

No abrigo, sentados, uma senhora de cerca de sessenta anos, negra, muito bem vestida, conversava com um cara de uns cinquenta, branco, grandalhão, desleixado, de camisa polo surrada. Pareciam se conhecer, talvez trabalhassem juntos, provavelmente na própria Câmara.

“Sabe, seu Zé”, começou a senhora, “essa confusão podia acabar rápido. Tanto faz se Dilma cai, se Dilma fica. Se ela for embora, entra outro ladrão, igual a ela.”

“É mesmo”, respondeu o homem, “tinha que acabar é com os partidos, o problema são os partidos. As pessoas deviam votar em pessoas que trabalham pelo povo. Partido só trabalha pra partido”, sentenciou, solenemente.

“Eu não voto tem uns dez anos”, disse a mulher, orgulhosa. “Tudo ladrão, todos eles. Não salva um. Votar pra quê? Pra votar em ladrão? Eu não, eu não sou boba!”

“É… O voto nem devia ser obrigatório. Voto obrigatório é coisa da ditadura. Devia votar quem quer.”

“Não é? Mas essa confusão tem que acabar. Você liga a televisão e só vê isso. Aqui na Câmara tá essa zona, todo mundo só fala disso. Ah, chega!”

“Concordo. Se a Dilma renunciasse, acabava, mas ela é teimosa, aquela mulher”.

“Ah… Mas se ela renunciar entra aquele outro lá, que é pior.”

O homem deu, então, uma risadinha nervosa. “É mesmo, né. Aquele cara parece um capeta, cruz credo!”

“Não é verdade, seu Zé? A gente tá no sal.”

Veio um ônibus, os dois subiram, não deu para ouvir o resto.

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Sim, eu sei que conversas entreouvidas e situações presenciadas em um ponto de ônibus bem específico não são elementos suficientes para uma análise de conjuntura sólida, mas confesso que esses diálogos ouvidos graças à minha natural bisbilhotice e ao tédio da espera no ponto de ônibus (que aprendi a chamar de “meu” depois que fui trabalhar na Câmara) contrastam de forma tão aberrante com as opiniões e artigos inflamados que leio no Facebook, que, penso eu, a minha percepção sobre a crise política deve estar, de alguma forma, embaçada.

Nas redes sociais, vivemos em uma espécie de bolha onde somos rodeados, basicamente, por pessoas que interagem conosco por guardarem com a gente algum tipo de afinidade. No caso de quem escreve muito sobre política, essa afinidade é, normalmente, de natureza ideológica. Sendo eu um sujeito de esquerda e estando a maior parte das esquerdas brasileiras engajadas na defesa da manutenção do mandato de Dilma, em nome ou da afinidade partidária, ou da manutenção da ordem constitucional vigente, é natural que a maior parte das opiniões que eu leio seja mais compatível com a minha: contra o impeachment, ainda que dentro deste cesto, um tanto espaçoso, caibam discursos bastante díspares entre si. Tomando eu as opiniões que me rodeiam pelo todo, serei levado a crer, dada a quantidade de simpatizantes do Partido dos Trabalhadores com quem interajo diuturnamente, que há um novo capítulo da luta de classes em voga no Brasil e que a defesa dos mais pobres passa, necessariamente, pela conservação do mandato de Dilma a qualquer custo.

Fosse eu um ultraliberal e militasse para o MBL de Kim Kataguiri (Deus me livre), as opiniões que leria nas redes sociais me levariam a crer que a queda de Dilma é não só certa como necessária, já que vivemos atualmente em uma ditadura comunista e bolivariana e que o povo oprimido pelo comunismo deseja ver a cabeça de Dilma e de Lula pendurada em uma estaca firmada em campo santo em nome do livre mercado.

Longe de dizer que estou indiferente à atual tormenta, ou como querem sugerir alguns, que estou “em cima do muro”, venho apenas lhes dizer que existem muito mais matizes de percepção da crise entre um tipo de bolha e outro do que supõe a nossa vã polarização. Embora a maior parte das pessoas seja instada a adotar um lado quando perguntada a esse respeito, existe uma parcela gigantesca da população que simplesmente não se importa tanto assim. Suponho que muitas dessas pessoas tenham votado em Dilma em 2010 ou 2014 e estejam justamente decepcionadas. Não querem exatamente que ela caia, nem que ela fique, mas, se perguntadas, vão responder, com um certo enfado, que desejam sua saída ou permanência. O que lhes importa é pegar o ônibus sem maiores aborrecimentos, por exemplo. Muitas delas devem achar que “todos os políticos são iguais” e que, Dilma caindo ou não, pouca diferença faria.  Não devemos culpá-los por isso.

A triste constatação de que, em tempos de crise, o governo encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores guarda imensos pontos de semelhança com os governos do PSDB não pode levar a outra conclusão.  O neoliberalismo se tornou, qual um triste feijão com arroz, a base do prato servido por petistas e tucanos. O tempero diferente é imperceptível para a maior parte dos paladares.

Acrescente-se a isso a imensa fragilidade da inclusão social promovida pelo lulismo, com sua tentativa de conciliação de classes, com programas sociais de um lado e isenções fiscais de outro, pra que se procedesse a um incremento do consumo.  O modelo entrou em colapso com o advento de um cenário de crise, restando a um governo fraco e pouco ousado como o de Dilma a opção pelo neoliberalismo mais clássico, com suas bem-conhecidas e melancólicas estratégias que massacram a população.

Não estranhem, portanto, se a maior parte do povo estiver, no momento, herculeamente indiferente ao resultado da crise. A Constituição, tão arduamente defendida por tantos, e com tanta justiça, diga-se, passa ao largo da vida, dos anseios e da realidade da maior parte da população. Para os excluídos, a Constituição não passa de um conjunto de palavras e frases incompreensíveis, porém potencialmente bonitas, impressas e encadernadas para uso e abuso dos rábulas de nossa república. Nada pode resultar disso além de um imenso abismo entre a política institucional e o povo, a quem ela diz representar. Nada pode resultar disso, além de uma crise de representatividade. Não, essa não é a crise que insufla a direita, mas a crise de fundo com que qualquer das partes da disputa de turno que sagrar-se vencedora terá que lidar em algum momento.

Vivemos em um país em que o povo, essa esfinge, é sempre convocado de tempos em tempos para se manifestar apenas nos estreitos limites das urnas ou no contexto de crises que parecem não lhes dizer respeito. Oposição à direita e governo falam do povo com tal desenvoltura retórica que nos parece, nos momentos de distração, que o povo, de fato, foi ouvido ou levado em consideração para além das urnas, que, na realidade, dizem pouco.

Nunca deixaram, em nossa história, que o povo protagonizasse o surgimento de uma efeméride vitoriosa: todas as insurreições populares da história brasileira foram sumariamente massacradas ou instrumentalizadas e, em seguida, contidas. Há as efemérides vitoriosas produzidas sem povo, por exemplo, a independência do Brasil e a proclamação da República.  Sobre a segunda, em artigo de obrigatória leitura, relata o jornalista Aristides Lobo, sobre o desfile de Deodoro e seus sequazes que derrubou o Império, que o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.

Eu diria que, nas atuais circunstâncias, a ausência do povo como ente participante e efetivo nas discussões sobre a saída da crise nos deixa a todos bestializados quanto ao que realmente importa para a maioria.

Para tanto, faz-se necessário dar voz ao povo, com ele dialogar, para que ele se sinta efetivamente incluído nas discussões, até porque não haverá saída para crise sem um aceno que seja para a população. Não se cuida de gestar aqui uma revolução, ou a eleição de meus candidatos de preferência. Cuida-se, em um momento gravoso, de pararmos, por um minuto, de dialogarmos apenas com quem reforça os nossos pontos de vista para, radicalizando a democracia, ouvir aqueles que, nessa festa desvairada, ainda não tiveram voz.

Para tanto, um passo importante seria tirar das mãos de um Congresso, que de casa do povo só tem a alcunha, a solução da crise e entregar à maioria silenciosa o direito à voz. Para tanto, sou pelo referendo revogatório e, se for o caso, novas Eleições Gerais, para executivo e legislativo, se o povo assim o desejar. Se o governo encaminhar a proposta, há de estabelecer pontes que foram rompidas e, talvez, sair do pântano onde se encontra atualmente. Se ele não desejar fazê-lo, terá que mergulhar na lama dos acordos com uma direita ainda mais inconstante e ávida do que o próprio PMDB para continuar no poder.

Isso, meus caros, não é muro. É uma proposição. Até quando falaremos pelo povo sem lhe dar ouvidos?