Durante muito tempo, o ato reflexo à raiva moveu muitas das minhas práticas. Ainda não rejeito que a raiva, ao menos em algumas de suas formas (como a da indignação diante do abominável: penso aqui no pária de que fala Hannah Arendt ou no estudante que se revolta mencionado por Paulo Freire na “Pedagogia da Autonomia”) ou como índice de que não somos indiferentes ao mal, seja capaz de mover em nós as energias que nós evitamos utilizar, ou então, para não cair na hipótese do recalque, que a raiva possa produzir um nós disposições de ação e pensamento muito poderosas e que talvez outros afetos não consigam produzir.

Mas a vida reativa também adoece. Adoece pois nos lança em público expondo nossas maiores fragilidades, como se os olhares externos fossem ácido se derramando diretamente sobre nossa carne.

Creio que existe uma alegria na raiva, no gesto reativo de raiva que não deixa de ser autoafirmação. Não vem ao caso aqui classificá-la, mas é sempre útil lembrar a entrevista que Deleuze concedeu e que se converteu depois n’O Abecedário, em que ele dizia que existem alegrias tristes. Não sei se a raiva é triste enquanto alegre, ou triste porque alegre. Mas também — e vivi isso inúmeras vezes ao longo dos últimos 15 anos — não tenho medo de dizer que a raiva é capaz de nos dominar e subjugar, e nisso consiste talvez uma das cenas mais arriscadas e vulneráveis em que podemos nos colocar.

Digo tudo isso porque o que cada vez mais tenho aprendido é que não podemos viver na raiva, mas também não podemos viver de modo que ela nunca se apresente como afeto em estado de iminência que nos espreita em potencial. Mas também porque um dos aprendizados mais difíceis e necessários para mim (e já presenciei isso para outras pessoas também) é de aprender a formular, perlaborar, estetizar, aproveitar estrategicamente a raiva que todos temos, e que em muitas situações devemos ter se algo em nós, um fagulha que seja, ainda almeja o estatuto de humanidade. Não sei se dominar ou domar a raiva, mas adiar às vezes o ímpeto de liberá-la, trabalhá-lo de forma a aliá-lo com outros ímpetos e forças. Tirar a raiva do domínio exclusivo da fúria e da tirania, ao menos.

Não afirmo que exista algo como uma bela raiva (mesmo seduzido pela ideia), mas pode haver bons e belos usos do que a raiva produz em nós. E isso talvez tenha sido subestimado nos últimos tempos na condenação de “vandalismo” e “direitismo” que imputamos àqueles que têm encontrado na raiva um ponto de inflexão e de rearticulação das próprias existências como seres políticos.