O Estoicismo, filosofia nascida na Grécia de Zenão de Cítio (335-264 a.C.), inaugurou no mundo ocidental a ética da imperturbabilidade e da extirpação das paixões: das vanidades fugazes como busca da felicidade. Entretanto, o príncipe Gautama, ou Shakyamuni (sábio dos Shakyas), no berço nepalês já havia “namorado” essa ideia pelo menos 150 anos antes.

Quase 2500 anos se passaram e a pergunta a respeito do que seria a tal felicidade ainda é um mote constrangedor no seio das adiáfanas, inócuas e soporíferas arguições humanas.

Infelizmente, a felicidade está relacionada, pelo menos no vórtice de uma sociedade pós-moderna guiada pelo consumismo apático, à ideia de sucesso, e, este, por conseguinte, está ligado a realizações, principalmente de ordem material.

Existe um processo dialético muito claro nas pulsões humanas que movem o espírito em direção à saciação dos desejos. São pulsões que se traduzem em aspirações, que se traduzem que mitigações, que se traduzem em desabitações, que se traduzem novamente em ânsias.

Schopenhauer, o homem que reintroduziu o corpo como agente condutor de toda e qualquer experiência válida, o que, em tese, teria sido negado no “aufklärung” da revolução kantiana que o antecedera, classificou genuinamente essa dialogia.

Jacques Lacan, psicanalista francês do início do século XX, discípulo de Freud e contemporâneo de Reich, desenhou essa síntese schopenhauriana/nietzschiana: amamos apenas o desejo, nunca o desejado. É a dialética da atualização da cupidez: da avidez.

Entretanto, um fato interessante nesse processo é que todas as medidas de sucesso, e, por conseguinte, de fracasso, que avaliam e des-avaliam o grau de felicidade, não são impostas tão somente por nosso corpo ou nossa consciência, e sim, pelo corpo e pela consciência alheia: é bem verdade que o inferno são os outros – disse Sartre.

A nossa paz, constantemente, é quebrada por iniquidades alheias, por imposições de uma sociedade doente que mal consegue enxergar o grau de ignorância na qual está inserida. Mal consegue respirar no lamaçal de mentiras que reconta a si mesma todos os dias para que, com essa criação, se viva menos desconfortavelmente.

No fim das contas, o silogismo melancólico de Eclesiastes (XII, 8) “vaidade, tudo é vaidade”, sobre a pequenez das coisas do mundo, ainda é a linguagem mais lúcida que podemos contrapor a essa falta de lógica que flana nas veias da maioria.

Ainda é válido dizer que, sendo a burrice para perceber tais flagelações do espirito, assintomática, estes sobrevivem num diálogo constante com a ausência de dor provocada pela estupidez: escravos da Síndrome de Estocolmo (apaixonados por aquilo que lhes aprisiona).

A felicidade, principalmente quando é consequência da infelicidade dos outros, é uma projeção perfunctória; frugal; fleumática. A felicidade, ainda que seja apenas uma pausa momentânea do processo de infelicidade que vivemos, tende a ser mais duradoura quando ela é construída a partir de nós mesmos; de nossa própria paz.

Marco Aurélio, imperador romano influenciado pela lógica estoica citada no começo do texto, nos pergunta: e a quem pertence a nossa paz? A uma sociedade empalada que valora, por melindre, as definições rasas de aparente sucesso? O que é o sucesso para toda essa gente estranha que não estranha nem a própria insipidez?

Muitos desejam voar, mas tem medo da altura e do vazio. Entretanto, não se voa sem ter a destreza necessária para conhecer a altura e o vazio. É exatamente nos lugares mais altos, mais solitários, mais vazios, onde o ar é rarefeito, que se encontra a si mesmo.

Podem até dizer que é sinal de falta de coragem viver constantemente na imprudência; mas é sinal de uma imbecilidade asfixiante viver na covardia da prudência de verdades perfeitas e estéreis.

“Conhece a ti mesmo.” (Odaspíticas, II, 73) – Píndaro.