Sou um viajante. Sou um viajante de alma e de profissão. Dentre as muitas atribuições que tenho em meu trabalho, refletir sobre o ato de viajar é de grande relevância.

Sou também fotógrafo. Não um fotógrafo com pretensões profissionais, mas um apaixonado pela arte fotográfica. Sou daqueles que sempre que tem um tempo livre está com a câmera nas mãos em busca de “alvos”.

Penso que o ato de viajar e a arte fotográfica combinam como café com leite – apesar de só tomar café puro – ou arroz com feijão.  A fotografia permite ao viajante registrar suas memórias e, quando um dia mais tarde revir as imagens, reinterpretar os momentos vividos. É um movimento que o permite reelaborar sua viagem.

Acho até que a fotografia é ferramenta quase imprescindível ao viajante. Para fotografar é preciso, antes de tudo, o exercício da contemplação, é preciso fruição. O fotógrafo observa, contempla, frui, e então define o ângulo e a composição sobre o tema a ser fotografado.

No entanto, ao se observar o comportamento de parte dos turistas que viajam pelo mundo atualmente, nota-se um frenesi insano pela fotografia, especialmente as denominadas selfies. Morin escreveu que há turistas que fazem uso da fotografia para ostentar a estada em lugares. Viajam em busca de status.

São aqueles que se postam em frente aos atrativos, fazem a foto e seguem viagem, como se o mais importante fosse marcar uma cruz no mapa e não vivenciar as pessoas e o lugar – como o cãozinho em frenesi para fazer xixi nos postes e demarcar seu território: estive aqui, estive lá, e acolá também. Pergunto: esteve?

Faz um tempo, eu e Karen viajamos a Foz do Iguaçu. No dia em que visitamos o lado brasileiro das cataratas, chegamos no horário de abertura do parque para podermos fazer a trilha com mais tranquilidade. Mera ilusão! Às 9 horas já estava lotado. Hordas de turistas de todas as nacionalidades acotovelavam-se para entrar. Nas mãos, câmeras, celulares e paus de selfie.

Bem, entramos e seguimos em direção à trilha principal. A descemos e paramos em um mirante, que aos poucos lotou com a chegada da multidão de visitantes. Contemplávamos as cataratas. Uma garota encostou em mim de maneira abrupta, me acotovelou. Neste momento, Karen esticou o braço para apontar os andorinhões que nidificam sob as quedas d’água e chamou minha atenção para observá-los.

A garota estrilou! Disse que Karen havia estragado sua selfie, pois, ao apontar, seu dedo saiu na foto. Karen se desculpou, mas a garota continuou a lamuriar-se com cara de quem comeu jiló estragado no café da manhã – não gosto nem de jiló fresco. Ela protestou que estávamos lá havia um tempão, empatando o lugar,  e nem fotografias tínhamos tirado.

Karen – que é pouco paciente – apontou a placa onde se lia “Mirante”. Disse que estávamos lá para mirar, contemplar, fruir e que este era o principal sentido de um mirante. A garota repetiu a cara feia de antes, empertigou-se e saiu para fazer selfies em outras freguesias. Ela mal viu a paisagem. Aliás, o tema da fotografia era ela mesma, a paisagem era só um espécie de “cereja do bolo”. Registrou-se em seu celular e muito provavelmente compartilhou nas redes sociais com um possível enunciado: “Contemplando esta maravilha!  #AmoViajar” ou algo parecido.

Outro personagem emblemático do dia foi um turista chinês. Cruzamos com ele em vários pontos da trilha e, em  especial, nos mirantes. Carregava consigo um pau de selfie anabolizado com o Iphone na extremidade. Estampava um sorriso congelado, de alguém que escovou os dentes com Super Bonder, e andava de costas para as quedas d’água o tempo todo, pois estava filmando a si mesmo com a paisagem ao fundo. Pensei com meus botões que o pobre chinês só veria as cataratas quando voltasse a Shangai, ou Beijing ou qualquer outra cidade em que vivesse na China –  e ainda assim em vídeo.

Proponho uma reflexão: qual a qualidade deste tipo de experiência? Como escreveu Saramago, “Afinal, que viajar é esse?” O status de viajante é mais valioso do que a vivência? Há um forte componente de narcisismo neste comportamento, por vezes obsessivo, pela fotografia e selfies, característica destes tempos do mais profundo egocentrismo. Mas o ato de viajar não deveria ser oposto? Ou seja, um momento para se encontrar e se abrir para o outro? Não seria o momento para a prática do antinarcisismo?

Dia desses, estávamos eu e Karen em Cabo Frio e me impressionou o número de pessoas com celulares e paus de selfie dentro do mar. Não desfrutavam do banho, mas registravam suas imagens nas águas cristalinas da praia fazendo caras, bocas e poses sensuais (será mesmo?).

Recentemente, o governo russo lançou uma campanha para alertar sobre o perigo das selfies. Há aqueles que se colocam em situações de perigo para fazer seus registros, isto é, correm risco de morte para fazer xixi no poste.

Há pouco, uma fotografia circulou pelas redes sociais mostrando turistas em uma área de desova de tartarugas no litoral da Costa Rica – um dos destinos considerados modelo no ecoturismo. As pessoas invadiram as áreas de nidificação, pisoteando ninhos. Uma garota aparecia em meio aos animais fazendo um selfie.

Frenesi insano.  Há os que colocam a vida em risco, há os que causam impactos ambientais irreversíveis e há os que prezam o status da imagem em detrimento das experiências. Antes de tudo, é preciso que fique bastante claro que não sou contra as fotografias selfies, ao contrário, acho um tipo interessante de registro, apesar de eu raramente fazê-lo. Mas que viajar é esse?

Michel Serres escreveu sobre o ato de viajar: “Parte, deixa o ninho para se enriquecer com os costumes de outros lugares, aí ouvir palavras nunca antes proferidas. Expõe o corpo ao vento e à chuva, porque, para ser verdadeiramente educado, é preciso se expor ao outro, esposar a alteridade e renascer mestiço.”

Marcel Proust dizia que a verdadeira viagem não está em sair à procura de novas paisagens, mas em possuir novos olhos.

Saramago “lacrou” ao grafar: “Afinal, que viajar é este? Dar uma volta por esta cidade e, isto feito, marcar uma cruz no mapa, meter rodas à estrada, e dizer, como o barbeiro enquanto sacode a toalha: ‘O senhor que se segue’”. Viajar deveria ser outro concerto, estar mais e andar menos, talvez até se devesse instituir a profissão de viajante, só para gente de muita vocação, muito se engana quem julgar que seria trabalho de pequena responsabilidade, cada quilômetro não vale menos que uma ano de vida.”

Ora, que mentalidades são estas? Que tipo de experiência se privilegia? O que se busca, a vivência ou o status? O intuito  é propor reflexões sobre o ato de viajar e o comportamento recorrente de parte dos turistas.

Viaje. Fotografe. Faça selfies. Mas, antes de tudo, reflita sobre que tipo de experiência você quer.