Fiquei muito feliz com o convite para participar no Língua. Para mim é uma grande alegria poder trabalhar com gente tão interessante. Disse alegria e não honra, plagiando Barthes, afinal a honra, às vezes, pode não ser merecida.

Por questão de segurança própria e da do leitor, faço alguns alertas iniciais: eu não falo de nenhuma parte e em nome de ninguém; sou o único responsável pelas palavras que daqui pra frente serão lidas, ou não… Isto posto: não sou afiliado a nenhum partido, e não acredito na política partidária (a Política com P maiúsculo não passa nem perto dessa outra aí); igualmente, não há nenhuma conotação religiosa em minha escrita: evito os dogmas, eles inviabilizam as minhas tentativas de LivrePensar; percebam: disse ‘tentativas’, pois não sei se são tão livres assim meus pensamentos.

SMXLL

Minha luta é por uma vida digna para todos. Neste sentido, parece-me ser impossível eu levar uma vida digna, se o outro não leva. Essa é uma luta por emancipações de ignorâncias: minha arma? A Educação (com E maiúsculo). É desse lócus central que eu aponto, mas o deserto do conhecimento tem muitos oásis que podemos explorar.

Tenho alguma formação acadêmica, mas o que me agrada é afrontar o conformismo, essa espécie de rei no pequeno mundo intelectual; gosto muito das proposições impertinentes com que Maffesoli também simpatiza; aquelas que levam tempo para impor-se. O pensamento se fortalece no exercício de sua negação, no exercício de negar o anteriormente pensado; logo, o pensamento é movimento. Disto, gostaria de tecer algumas reflexões sobre nada em específico. O melhor jeito que achei são aforismos:

  1. Creio que seja necessário um pensamento libertário no meio educacional. O que eu ainda não sei é se é possível um pensamento libertário, nos moldes do que vemos hoje em dia e em especial com a profunda capilaridade do capital nos assuntos da Educação em nossos tempos. Neste sentido, um pensamento que liberta é tudo, menos um pensamento que busque certezas, ou mesmo a verdade. Meu ponto de vista: a busca por certezas deve ser ironizada, afinal estou certo de que as certezas não subsistem por muito tempo.
  2. Aliás, viva os paradoxos. Acho extremamente gratificante quando alguém me aponta o dedo e me diz ‘você está sendo incoerente’. O pensamento deve procurar sacudir e incomodar o senso comum. Sair da borda (trans-bordar) deste conhecimento confortável que nos convida a viver a vida de hoje exatamente como ontem. Quando o senso comum se cristaliza em ‘verdades’, surgem os preconceitos e todas as formas de prejuízo que daí acarretam.
  3. Estamos a viver um verdadeiro terrorismo da coerência, e os terroristas são os primeiros (in)coerentes – as piores atrocidades da humanidade sempre foram feitas em nome dos mais altos valores, ou seja, das mais altas ‘verdades’: ‘deus’, ‘amor’, ‘bondade’, ‘justiça’, ‘pureza’, ‘castidade’, ‘higiene’… ‘coerência’.
  4. Do ponto de vista da educação formal, está muito chato e fácil fazer ‘escola’: praticamente toda a escola está voltada para o mercado e seus códigos de funcionamento. Mas penso que seja muito mais interessante agir para uma libertação do pensamento, olhar e do próprio agir.
  5. O pensamento libertário tem como alvo os pensamentos dogmáticos, tais como o religioso e o político-partidário. Estes devem ser postos em questão todo o tempo. O ‘dogma’ desrespeita a inteligência humana e exige de nós a aceitação de verdades inquestionáveis: é um puta exercício de poder o sujeito ser detentor das chaves que abrem as obscuras portas dos dogmas: muitos padres, pastores, políticos, professores, patrões, todos pensam que têm essas chaves. (Curiosidade: o Word indica um problema gramatical em ‘um puta’, mas, solicitando sua ajuda de correção gramatical, ele não tem sugestões: um indício…)
  6. Os dogmas devem ser postos abaixo, assim como os ídolos da Bíblia, eles têm pés de barro. Assim como a falsa ideia da ‘homogeneidade’, seja ela sexual, de etnias, ou de qualquer coisa: à heterogeneidade do mundo deve corresponder uma compreensão ampla e sistêmica de seus espectros.
  7. A subjetividade tem sido historicamente aprisionada. Seus carcereiros? A filosofia; a ciência; a religião e seus dogmas desencarnados; a tecnologia e seu poderio; para onde pode fugir a subjetividade rebelde?
  8. Assim, entendo que precisamos procurar investigar o conhecimento, mas sempre como conhecimento plural. Ninguém é ignorante em tudo, e ninguém sabe tudo de tudo. Toda forma de conhecimento é sempre circunstancial, e de perspectiva.
  9. A verdade é sempre momentânea, sempre histórica, cultural… datada, enfim!
  10. A vida é plural, a compreensão da vida deve ser, igualmente, plural. Portanto, quanto mais perspectivas tivermos para procurar compreender a vida, mais plural será nossa visão dela. Parece-me que não há mais como confiar nos grandes sistemas explicativos (teorias que procuram explicar toda a realidade: Marxismos, Freudismos, Estruturalismos já não dão conta de explicar a complexidade do real e suas múltiplas linhas de fuga – servem ainda, como perspectivas).
  11. Fazer pensar diferentemente para agir diferentemente: novas formas alternativas de conhecimento que contribuam com novas práticas sociais. Assim como: novas formas de participação e prática social que gerem novos conhecimentos.
  12. Nesse processo é necessária a busca incessante de novas formas de valorização da vida. Isso se depreende em dois pontos: A luta contra tudo o que dificulta o pleno realizar da vida – E – o favorecimento de tudo o que é possibilidade desse realizar vital: os valores desse movimento são SOLIDARIEDADE, RESPEITO, EDUCAÇÃO.
  13. Perspectivas: não há nenhuma Realidade Única (como quer o dogma), mas maneiras diferenciais de a conceber. A questão das perspectivas: quanto mais as tivermos, mais chances de compreendermos as diversas nuances dos objetos que estudamos, ou das pessoas com as quais convivemos.
  14. Para muito além da ‘tolerância’, acredito que a SOLIDARIEDADE, no sentido de uma reciprocidade de responsabilidades (sou responsável para com aquele que é responsável comigo), seja mais bem-vinda para nossos turbulentos tempos.
  15. Um exemplo – Desconstruções – o dado social é sempre incoerente, lábil e polissêmico: toquemos no assunto das sexualidades. Se há sete bilhões de seres humanos, então digo que há sete bilhões de sexualidades pulsando, e sendo reprimidas a partir de categorias que nada podem dizer a respeito dessa energia incontrolável. Diria eu: parem de botar letra no meu sexo e vão cuidar de ter tesão. Sonho viver num mundo no qual não haja essa curiosidade mórbida de se fulano é ou não é aquilo que eu não sou… (Curiosidade 2: eu escrevi ‘tesão’ e o corretor do Word me sugeriu “excitação” – vá à puta que o pariu! É repressão em cima de repressão: tesão, tesão, tesão… não vão conseguir me corrigir.)
  16. Eu sou um educador e penso que nossa ação como educadores deve ser profundamente iconoclasta (desconfiar das imagens em geral – sendo mais sincero, destruir as imagens é um ótimo hobby); essa ação iconoclasta deve ser necessariamente seguida de uma condição de afirmação do novo. O novo está sempre a surgir: temos essas evidências o tempo todo.
  17. É necessária a radical denúncia e crítica aos sistemas e mecanismos de opressão que nós, pessoas, sofremos no quadro da civilização: uma atividade que se dedique incansavelmente a questionar os cenários, as estruturas, as categorias e os pressupostos que são aceitos sem exame detido. É necessário formarmos um caráter destrutivo e inconfortável para nossa forma de pensar e agir.
  18. A linguagem a ser usada na crítica do-que-aí-está deve ser declaradamente iconoclasta, irônica, herege e subversiva. Daí porque gostei tanto dessa revista.
  19. A atenção à linguagem é fundamental. A atenção às relações da linguagem com o mundo é fundamental: pensar e agir no mundo, sobre o mundo, com o mundo; educar com o educando, não ‘sobre’ ele ou ‘para’ ele ou, pior, como tenho visto frequentemente, ‘apesar’ dele – eu adoro as preposições, elas mudam tudo.
  20. Produzir novas formas de sensibilidade e explorar ao máximo o potencial para o redimensionamento do existir. Trabalhar em função da produção de territórios de identidade não-padronizados, na linha de Felix Guattari e companheiros franceses.
  21. Questionar a ciência, a religião e as demais formas de conhecimento. A ciência, especialmente, se transformou de combatente do dogma em produtora de um metadogma: ela questiona incessantemente a verdade (questionou e destronou a religião), mas ela se considera a única forma de chegar à verdade: novo dogma.
  22. Por fim, compreender a incrível tática contemporânea dos centros de poder: dar a palavra a todos ao mesmo tempo; no meio dessa gritaria, não conseguimos ouvir uns aos outros. Durma-se com esse barulho!

Sim, plagiei um monte de gente nesse texto, mas estou de saco cheio de citar. Meus agradecimentos a Bauman, Barthes, Nietzsche, Boaventura Santos, Maffesoli, Freire, Debord, Fernando Pessoa, Legião Urbana, Pink Floyd e, principalmente, aos leitores que chegaram até aqui (Curiosidade 3: o Word implicou com o meu ‘saco’ na última frase).