Um lugar que há muito queria conhecer é Pirapora. Cidade mineira localizada às margens do Velho Chico, por onde chegavam os migrantes nordestinos que vinham para São Paulo. Sim, talvez muitos não saibam, mas a migração nordestina para São Paulo foi um projeto do governo paulista.

Nas primeiras décadas do século XX, com a dificuldade de trazer mão de obra europeia em função das duas grandes guerras, estimulou-se a vinda de migrantes do nordeste. O governo paulista instalou um ponto de captação às margens do rio São Francisco, em Pirapora, Minas Gerais.

Os migrantes saíam de suas áreas de origem em caminhões pau de arara e iam até Juazeiro, na Bahia. Lá tomavam os vapores que subiam o rio até Pirapora, numa viagem que levava em torno de 7 dias para ser concluída. Chegando lá, procuravam o posto de captação, registravam-se e vinham para São Paulo para trabalhar na indústria que florescia, na construção civil e alguns poucos em fazendas de café.

Um desses vapores, batizado de Benjamim Guimarães, sobreviveu ao tempo e está em Pirapora. Eu queria muito conhecer o vapor, testemunho de história de milhares de pessoas que subiram o rio a bordo para mudarem seus destinos e o da cidade de São Paulo, construída pela mão e o intelecto desses trabalhadores.

Aos domingos e feriados o vapor navega pelo rio levando pessoas: moradores da cidade, turistas e visitantes. Contudo, fiquei frustrado ao saber que o Benjamim não estava navegando, pois o rio está muito seco, em função das poucas chuvas e das barragens construídas em seu curso. A de Três Marias é a maior responsável pelo nível baixo das águas do rio.

Entretanto, conversei com Karen e disse que queria conhecer o vapor de toda forma. Disse a ela para irmos até onde estava ancorado e tentar entrar no barco, caso fosse permitido. Assim fomos.

Ao chegarmos ao local, vimos o barco atracado e descemos até o porto.

Vi três pessoas dentro do barco e pedi licença para entrar. Fui convidado prontamente. Eram Dênio, um barqueiro local, sr. Jason, que foi mestre de máquinas do Benjamim durante anos e anos, e Henrique, marinheiro.

Conversei com os três um bocado de tempo e então Jason nos mostrou como funcionava a maquinaria da embarcação, quase tudo original, exceção à caldeira que foi trocada por uma mais moderna.

Seu Henrique nos convidou para conhecer a embarcação toda e começou uma narrativa da época em que era criança. Falou sobre como era o porto e o trabalho de seu pai, mestre de máquina dos vapores, pois eram vários.

Os olhos de seu Henrique brilhavam. Contou histórias do pai com muito orgulho, algumas com um pequenino constrangimento – creio que pela presença de Karen -, pois ele dizia que era verdadeira a expressão segundo a qual os marinheiros tinham uma mulher – ou mais – em cada porto. Contou a primeira vez que viajou com seu pai, aos 8 anos de idade, quando entrou escondido na embarcação e só foi descoberto horas depois da partida. Teve de viajar 15 dias com apenas a roupa do corpo, uma camisa de meia e um calção.

Confessou-se apaixonado pelas embarcações e pela vida de marinheiro. Não perdeu o brilho nos olhos enquanto contava a história. Falou sobre o cotidiano a bordo, as histórias de passageiros e tripulantes. Histórias de mulheres e amores. Rimos e nos emocionamos com ele. Mostrou uma foto de seu pai vestindo a garbosa farda de mestre de máquinas.

Seu Henrique chegou a trabalhar na hidrovia Tietê-Paraná, mas quis voltar para sua terra e o Velho Chico. É um barranqueiro, como se denominam – são aqueles que vivem na barranca do rio.

Não vimos o tempo passar. Passamos a manhã toda no barco. Seu Henrique não queria deixar-nos sair e nem nós queríamos sair. Saímos de lá pesarosos por termos de ir embora, mas tínhamos de visitar os carranqueiros, artesãos locais que produzem as carrancas para enfeitar as proas das embarcações. As conversas com Jason, Dênio e, principalmente, com seu Henrique nos fascinaram.

Poder conhecer a história do Benjamim com quem tantos anos navegou nele foi uma experiência pra lá de inesquecível. O Benjamim ganhou ainda mais significado para mim. E reforçou um conceito meio óbvio que tenho do patrimônio, que ele só faz sentido quando conectado às pessoas e suas memórias.

São estes tipos de vivência que me trazem a certeza de que sou um viajante de alma e não só de profissão. Criei um carinho muito grande pelo seu Henrique e o trarei sempre em minha memória. Muito mais que viajar por lugares e paisagens, viajo por e pelas pessoas.

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Vapor Benjamin Guimarães, fundeado às margens do Velho Chico, em PIrapora, MG.