Dois homens estão conversando no apartamento de uma amiga em Sheridan Square, New York:

” -Sabe, o amor é um lugar curioso para se ir em busca de segurança.

  -Um lugar muito engraçado para se estar à salvo.

  -Qual é o preço de amor? T.S Eliot diz, ‘Não custa menos do que tudo mais’. Assim começamos a enxergar é que o que é sacrificado no amor, é o amor.”

  -A gente acha que está fazendo uma porção de sacrifícios em seu nome, mas o sacrifício exigido, o sacrifício supremo, é o sacrifício do próprio amor. O sacrifício de todas as nossas noções sobre o amor- é disso que se abre mão. Abrimos mão de tudo, de nossa ideia de amor, do que nos ensinaram sobre o amor, do que esperamos do amor, daquilo ao que nos agarramos como sendo o amor. Nesse sentido, os verdadeiros amantes, penso eu, são aqueles que se consomem de amor

   -O amor é uma loucura, mas o que busca esta loucura? A pergunta não é, por que esta mulher, ou por que este homem? Mas o que esta loucura está buscando? O que quer a loucura?”

Esta série de diálogos furiosos, mordazes e audaciosos e as cartas a elas relacionadas, olham zombeteiramente não só para o legado da psicoterapia, mas praticamente para todos os aspectos da vida contemporânea – da sexualidade à política, dos meios de comunicação ao meio ambiente e à vida na cidade.  O psicólogo James Hillman, o homem que Robert Bly chamou “o mais vivo e original psicólogo que já tivemos nos Estados Unidos desde William James”- se junta a Michel Ventura – colunista do Los Angeles Weekly – para estraçalhar muitas de nossas opiniões correntes sobre nossas vidas, a psique e a sociedade. Sem reservas, de improviso e de maneira brilhante, esses dois intelectuais se arriscam, quebram regras e atravessam sinais vermelhos para atingir o âmago de nossas senhas e nossas percepções.

Do ponto de vista de Hillman, a psicologia deve concernir a profundidade, não o crescimento, pois “depois de uma certa idade não se cresce mais. Se se começa a crescer depois dessa idade é câncer”. Hillman se dedicou durante décadas, por meio de sua obra escrita, palestras e práticas, a destronar nossa fé cultural no ego, para fazer murchar nossa idolatria pela ação heroica e depreciar nossa certeza no conceito de self. Hillman deseja que a sociedade dê as costas à sua obsessão com atitudes sem base do espírito e retorne à terra, à alma. Ele também nos convida a abandonar os julgamentos mentais do monoteísmo e voltarmos nossas psiques para o politeísmo como exemplificados pelos gregos antigos. Os livros de Hillman são acessos intoxicantes de iluminação, mas também são densos, alusivos, complexos.

 Ele nunca tenta fixar as coisas por isso nunca oferece receitas, mas sempre uma psicologia profunda. Afirma que desperdiçamos muita energia em defesas maníacas, distrações contra e negações da depressão e que quando permanecemos no ciclo de esperança versus desespero, cada um gerador do outro não penetraremos as profundezas. E é nas profundezas que encontraremos a alma. A depressão para ele, é essencial para o sentido trágico da vida, ela nos lembra da morte. Assim, a verdadeira revolução começa no indivíduo que pode ser verdadeiro para com sua depressão.

Hillman salta da política para preces pessoais aos deuses, para uma análise psicológica de filmes atuais, para elaborações etimológicas. Discorre sobre a escrita e sobre a fala, sobre a nossa interação na cidade e sobre o amor em conversas ou cartas trocadas com um interlocutor à altura de sua jovial erudição. O que deseja fazer é nos provocar, nos induzir a pensarmos, a vermos velhas coisas de maneira nova.

Hillman acredita, e dança um rondó com Ventura ao som dessa melodia, que muitas das ideias psicológicas atuais se tornaram dogmas, dogmas danosos, tais como a obsessão com os eventos de nossa infância que, segundo eles, nos mantém num estado infantil, mais preocupados em reviver nosso passado do que em nos preocuparmos com os assuntos do mundo.

Uma ideia antiga que Hillman, neste e em outros textos, e Ventura querem revitalizar é a crença no animismo, isto é, que o mundo inteiro está vivo, que todas as coisas, dos minerais às estrelas, têm alma. Esta maneira de ver desafia nossa visão de mundo como conhecível e mecanicamente redutível às partes que o compõe. Devido a essa visão só recuperamos o mundo vivo “através da toxicologia, poluição, radiações e a ansiedade que delas emanam.”

Hillman observa, em Entre-vistas (também editado pela Summus) que ao invés de se ver como fundador de uma escola de pensamento, ele se vê como membro de uma comunidade de pessoas de vários campos que estão trabalhando na re-visão das coisas. Hillman acredita que para fazer uma re-visão da psicologia é preciso também uma re-visão da maneira de se escrever sobre a psicologia. Ele retira a psicanálise do contexto da medicina e saúde ao rejeitar o modelo médico e de maneira mais sutil, ao nos solicitar fantasias sobre a cura, crescimento, compreensão, tristeza ou depressão como motivos principais do trabalho psicológico. Um artista da psicologia, portanto ele escreve sugerindo, insinuando, argumentando, exagerando, redefinindo. Desafiando o leitor o tempo todo a repensar, re-ver e re-imaginar.

Numa excelente tradução feita pela Professora Doutora Norma Telles, especialista na obra deste autor, ler este livro é como pegar uma grande onda no mar pois quando pensamos ter captado o ritmo, somos atirados à praia.

 1. James Hillman e Michel Ventura.Cem anos de psicoterapia…  e o mundo está cada vez pior.Trad. Norma Telles. São Paulo,  Ed. Summus, 1995