Entre o sofrimento que implica suportar um espartilho e as privações de uma dieta rigorosa, ou as dores e hematomas do pós-operatório de uma cirurgia estética, decorram muitos anos, mas reina ainda um mesmo mandato: a obrigação de estar desejável que pesa sobre todas as mulheres, em todas as épocas.

No modelo que a jornalista Silvia Itkin descreve como a mulher light, a aparência física adquire o grau de valor supremo “que deve praticar e respeitar as regras: se pode dizer que nestas se julga a existência das mulheres; se são mulheres ou não.”

Este modelo de mulher é uma espécie de criatura domada, de corpo e mente harmônicos, sem gorduras e sem conflitos.

Em seu livro La mujer light, Itkin define este modelo como “uma nova criatura que abjura de todo gesto libertador, vive em função da sua imagem e de seu corpo, e adere a um universo de crenças que promete o fim de todo o mal-estar graças ao amor e ao perdão, enquanto fortalece o poder de sua vontade olhando-se no espelho. Como se costuma dizer: o umbigo do mundo”. 

A mulher light é produto, segundo Itkin, do discurso neoconsevador dos anos 80. Nos Estados Unidos é filha da era Reagan. Esse modelo prega, além do culto ao corpo, um “regresso às fontes”, o lar, a feminilidade e a ausência de conflitos. O esquema se completa com um conjunto de condutas e convicções produto de um férreo autocontrole que se logra com técnicas que vão desde a autoajuda até workshops de meditação. A norte-americana Susan Faludi descreve este fenômeno em seu livro Reação de “a guerra não declarada contra a mulher moderna.”

Em uma pesquisa realizada pela agência McCann Erickson e Cicmas Consultores, seis de cada dez mulheres (de uma amostra de 600) sustentavam que os ganhos obtidos pelas mulheres no mundo do trabalho e da política se pagavam com algum tipo de infelicidade. Um outro trabalho realizado na França demonstra que o ideal feminino de 70% da amostra de mulheres entre 16 e 25 anos é o da mulher no lar. “O quadro de um mundo hostil onde havíamos entrado e onde não éramos bem-vindas imprimiu a pergunta-chave que começou a ser feita em meados dos anos oitenta: Ter avançado nos ajudou ou nos condenou? Responder a esta pergunta foi relativamente simples. A nova ordem necessitava de mulheres adaptadas. E fabricou os alicerces da mulher light.”

Este modelo feminino se observa nos estereótipos que propõem os meios de comunicação e também nas atitudes políticas das mulheres que estão no poder. “A vida pública das mulheres oferece somente um modelo: a aparição em determinados lugares muito concorridos como a moda e a política”, observa Itkin.

A jornalista nota que as lutas das mulheres por um lugar diferente na sociedade, pela igualdade, se recolocam pelo apelo da uniformidade: “Todas as mulheres se parecem umas com as outras cada vez mais. Temos somente um padrão de beleza ,um só molde que também inclui condutas, atitudes, uma visão de mundo; nos colocam a todas no mesmo lugar, apaga todas as desigualdades e as diferenças e o que aparece é um exército adaptado, moldado por uma feminilidade que do meu ponto de vista é bastante artificial. O que importa é pertencer a um grupo, sair na foto. Deve-se tentar de todas as maneiras possíveis não ser inarmônica.

A imagem física da mulher light é a de um corpo magro, esculpido e congelado na eterna juventude. Para consegui-lo conta com uma bateria de dietas e programas de exercícios num primeiro momento; cirurgias, silicones e lipoaspiração num segundo, e os inventos da cosmética e dos laboratórios (suplementos dietéticos, cápsulas de estrógenos) e novamente o bisturi: “Para a mulher light o que importa é estar bem. É o bem-estar que pode ser conseguido tanto através de uma técnica espiritual como do esforço da ginástica ou da precisão de um bisturi, mas que deve traduzir-se inevitavelmente em aparência.”

Só que o ideal de beleza proposto é cada vez mais inalcançável. Itkin cita um estudo que demonstra que desde 1950 até o fim dos anos 80 as modelos que aparecem nas páginas centrais da revista Playboy foram perdendo aproximadamente um quilo por ano. Uma mulher comum pesa dez quilos a mais do que uma modelo de sua mesma estatura.

Esta distância com o modelo faz com que nenhuma mulher se sinta satisfeita com seu corpo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, 60% das mulheres fazem dieta. Em 2014, a revista norte-americana Glamour demonstrou com uma pesquisa que 75% das mulheres se sentiam gordas, sendo que somente uma quarta parte das entrevistadas tinha sobrepeso, e que 85% das pessoas que pagam por tratamentos para emagrecer e 60% das que se submetem a algum tipo de cirurgia estética são mulheres. A necessidade de emagrecer a qualquer custo mantém um negócio que gera 50 bilhões de dólares por ano em todo o mundo. No Brasil 61% dos consumidores de produtos light são mulheres.

O ideal feminino de mulher light complementa a beleza exterior com um férreo autocontrole interno. Os livros de autoajuda são ferramentas efetivas com as quais as mulheres contam para apagar de suas vidas conflitos e tensões.

Na análise de Itkin, este tipo de terapia propõe um modelo oposto ao das mulheres que enfrentam desigualdades sociais e que lutam por seus direitos. “Se as técnicas de superação pessoal tiveram algum efeito foi o de condensar os problemas de gênero em um menu de comidas rápidas: a única razão do mal-estar sentido por uma mulher está nela mesma. O microtrabalho exaustivo, minucioso e obsessivo sobre si mesma a protege das tensões, das incertezas e dos conflitos. O cenário social desaparece sob esta pintura majestosa de felicidade voluntária, quando se reafirmam valores antigos sem o benefício da dúvida. A mulher light está blindada.” 

Para poder cumprir com o modelo, a mulher light deve recorrer a um tenaz controle do corpo e das emoções que acaba por convertê-la em uma verdadeira mulher heavy. Um exemplo disto são os muitos testemunhos incluídos no livro, como o de uma atriz: “Quando compreendi que estava fazendo coisas que não me agradavam, me dei conta de que algo em minha cabeça e em meu coração não estavam funcionando bem. Decidi mudar e dar o primeiro passo. E tudo foi luz, descobrimento e amor.” Em outro depoimento, uma jovem de 19 anos conta sobre sua cirurgia nos seios: “A cirurgia foi muito dolorosa porque não tomei anestesia. Perdi a sensibilidade nos seios, mas não importa.” 

Em última instância, para uma mulher light é mais importante a aparência que o próprio prazer.

la-mujer-light-silvia-itkin-845411-MLA20563870212_012016-F