Lembro-me de várias passagens de minha deliciosa infância; lembro-me das brincadeiras com meu irmão mais novo, lembro-me das roupas no varal a produzirem agradável sombra no meu rosto a contrastar com o ardido do sol, lembro-me dos intermináveis saraus dominicais de chorinho organizados pelos meus pais e lembro-me também, como se hoje fosse, de contar orgulhoso à minha mãe a conclusão de minha primeira leitura: “O Saci”, de Monteiro Lobato.

Com os elogios e estímulos que recebi dela senti-me com o mundo a meus pés; podia finalmente ler qualquer livro que eu quisesse!

Apressado dirigi-me então à grande biblioteca de meus pais na casa do bairro do Brooklin em São Paulo, a mesma das sombras do varal e dos chorinhos de domingo, para escolher a próxima obra a ser deflorada – com a voracidade de leitor exímio e experiente que já carrega em sua “bagagem” literária um tomo inteiro lido, mas como se mil fossem.

Sem saber da missa um terço, escolhi o livro pela capa, vistosa e colorida: “Critica da razão pura”, de Kant.

Afinal de contas, quem era esse tal de Immanuel Kant para quem já havia lido “O Saci” inteirinho?

E foi ao abrir aquele que eu gostaria que fosse meu segundo livro que guardei, para a vida toda, a sensação indescritível da ciência de minha mais absoluta ignorância; apenas o prefácio da obra havia sido suficiente para me forçar a recolher-me à minha insignificância intelectual. Recuperado do baque, achei mais prudente pedir à minha mãe que me indicasse outro livro, pois aquele… aquele realmente ainda não dava.

Hoje, alguns livros de Kant e quarenta anos depois dessas lembranças, volto a experimentar a mesma sensação de ignorância absoluta ao tentar compreender a lógica que norteia grande parte da classe média brasileira.

Pois quando o PT foi acusado de desviar alguns milhões de reais da Petrobras todas as gentes de bem vestiram-se de verde e amarelo e saíram às ruas a bater cascos e espumar indignados; “estão a acabar com nosso país”, “ladrões de nossos sonhos”, bradavam.

Agora que o PT se foi do poder e que Temer, o Pequeno, capa direitos sociais e trabalhistas, reduz a pó os investimentos em educação e saúde e se desfaz na calada da noite de dezenas de trilhões de reais em reservas de petróleo do pré-sal, todos os indignados de outrora ficam quietos em suas casas, como bonecos a assistir impávidos as novelas da TV Globo e a comemorar com os seus: “agora que o PT sumiu, tudo vai melhorar, chorem petralhas”.

Recorro a Kant e pergunto-me: será o problema dessa gente aprioristicamente cognitivo? Será o meu problema aprioristicamente cognitivo? Ou é mesmo tanto ódio de classe que até entregar as maiores conquistas e riquezas do país vale a pena quando a alma é pequena, só para ver na cadeia – ainda que sem provas – um nordestino e ex-metalúrgico que chegou á presidência e pensou nos pobres mais que todos seus antecessores?

De tanta tristeza penso em voltar, ainda que apenas em pensamentos e lembranças, à biblioteca da casa do Brooklin e aos livros de Monteiro Lobato, histórico defensor do petróleo brasileiro; lá, pelo menos, minha sensação de ignorância não custou o desfacelamento de um país nem a miséria de tanta gente que já não tem nada a perder – além de um breve laivo de dignidade e de um suspiro de consciência.

(a foto tirei em Mulungu/PB, em minhas andanças pelo meu estado brasileiro favorito, a maravilhosa Paraíba. E muito me orgulho que meu querido amigo e irmão Marcio Noal tenha se utilizado dela na capa de seu livro “Jangadas”)