A recente história política do Brasil é marcada por imposições traumáticas: em 1930, um grupo insatisfeito toma o poder e concretiza sua Revolução. Este mesmo grupo, poucos anos mais tarde, instaura o chamado Estado Novo, outorgando, no mesmo dia, a Constituição de 1937, autorizada pelo então presidente Getúlio Vargas. Em 1945, o mesmo presidente é levado à deposição. Persistente, retorna poucos anos mais tarde, em 1954, mesmo ano em que, sob forte pressão, comete suicídio, deixando a vida para entrar para a História. Seus sucessores pouca tranquilidade tiveram. Um pouco mais de uma década depois, em 1964, é consumado o Golpe Militar, sepultando temporariamente a nascente e contraditória democracia brasileira.

Desde então, muitas águas rolaram. Entre permanências e rupturas, tempos conturbados exigem reflexões históricas. Não à toa.

Feita de vestígios, memórias, métodos e teorias, a História- aqui opto por grafar com maiúscula- é grande potencializadora da visão sobre o presente. E sobre nós mesmos.

Como método, o olhar para o passado apresenta possibilidades infinitas. Um labirinto, diria. Para melhor caminhar por este labirinto, lançamos mão de iluminados pensadores teóricos, guias que nos fornecem instrumentos que permitem a expansão do olhar.

Mas não, não me deterei aqui em aspectos teóricos da disciplina, antes que perca precipitadamente tua atenção. Apenas me detenho aqui em um aspecto da História para o qual atenta o brilhante intelectual Carlo Ginzburg: as singularidades.

Constituindo um estudo cientificamente orientado do individual, a História exige esforço detetivesco, um mergulho nas nuances em busca de esclarecimentos para que aquilo que emana dela não se torne, em última instância, um delírio.

Não me leve a mal: também sofro com eles e não os considero de todo ruim.           

Mas há circunstâncias nas quais a sobriedade urge.        

Em busca da sobriedade proponho refletirmos, no calor da situação, sobre um tema que atualmente tem nos levado aos labirintos da História: a chamada Operação Lava-Jato e a livre associação dos seus métodos com os métodos utilizados pelos golpes políticos.           

Shows midiáticos à parte, estaria o estado democrático sob ameaça? Estariam os responsáveis pelas investigações dos crimes denunciados a serviço de um partido e suas coligações?         

As múltiplas respostas afloram em debates e acusações variadas, reflexo dos ímpetos que as produzem. Nem todos, diga-se, verossímeis ou coerentes. Entre o proto-fascismo e absurdos lógicos da autodenominada extrema direita e as paixões dos que se consideram à esquerda, há um espetáculo mal feito, covarde e oportunista produzido por parte da mídia, ávida pela conquista irracional.

Para sanar algumas dúvidas e suspeitas de atitudes arbitrárias e antidemocráticas, recorremos ao experiente procurador da República Alexandre Camanho de Assis. Camanho considera salutar a divergência de opiniões quanto aos métodos da Operação, que seriam indicadoras de um regime de liberdade de opinião. Assim, gentilmente nos concedeu algumas respostas para melhor compreendermos estas singularidades do tempo presente.

Vamos lá.

Suspeita 1: Há contradição entre os princípios democráticos e a metodologia escolhida pela Operação Lava-Jato? Alexandre Camanho: Democracia é um conceito que não se lê, hoje em dia, senão conjugado ao de Estado de Direito. Um regime de liberdades civis precisa conviver com a obediência à lei; as ilicitudes, então, devem ser prevenidas e reprimidas. Não há, portanto, contradição alguma – pelo contrário, são coisas que se validam, porque um correto regime de liberdades precisa prestigiar a vida civil escrupulosa e desautorizar a negação desta que é o crime.

Suspeita 2: Dentre as instituições envolvidas, é possível que um poder subjugue os demais, fazendo com que todo o esforço se perverta em satisfação de meros interesses individuais ou partidários?

Alexandre Camanho: Num autêntico Estado de Direito isso é impossível, embora isso ocorra em países onde a democracia e o respeito ao Direito são uma farsa bem encenada. E, claro, nas tiranias declaradas.

Suspeita 3: A condução coercitiva do ex-presidente Lula foi considerada abusiva por setores da população, incluindo juristas. Tal método se justifica? Alexandre Camanho: Essa é uma avaliação estritamente judicial. Parece claro que se uma medida tem previsão legal, ela pode,  a  princípio, ser utilizada, dependendo das circunstâncias; sempre haverá defensores e críticos da medida e isso é normal e mesmo salutar num regime de liberdade de opinião. Parece-me no entanto sempre equivocado fazer uma leitura política – seja para aplaudir, seja para vaiar – de um ato cuja tomada de decisão penda de uma análise exclusivamente técnica.

A partir dos esclarecimentos sugeridos por Camanho tomo a licença de concluir que desta aparente chanchada que vivemos emergem conflitos mais profundos, até então anestesiados por ensaios – ou encenações- de democracia. Nossas feridas, até então tratadas com maquiagens, estão sendo expostas e o tratamento ainda é incerto, mas concretiza-se, lentamente. Diferimos das vésperas do Golpe de 64 por contarmos com estes princípios – conquistados, inclusive, por movimentos sociais que surgiram tão logo o Golpe foi consumado- que nos protegem de tentativas tirânicas, por mais que elas ainda existam. Resta manter a atenção e a capacidade analítica para que aqueles que se alimentam de rompantes não conquistem facilmente os nossos

Novos ventos assopram. Vale reconhece-los.