A história, como ciência, deve se debruçar sobre o significado da vida individual e coletiva dos seres humanos no transcorrer do tempo. Para isto, é imprescindível a busca incessante da interpretação de fatos e contextos de modo lúcido e o menos parcial possível. Assim, a história formará cidadãos críticos, o que é para mim sua função vital.

No entanto, em boa parte da trajetória humana, as elites econômicas e políticas corromperam e distorceram a história, com o objetivo de alienar e manipular populações e garantir seus privilégios. Fascistas usaram e usam estes recursos em larga escala.

Recentemente, surgiu um grupelho em São Paulo, denominado São Paulo Livre, que usa de discurso sectário e de caráter fascista, reivindicando a separação de São Paulo do Brasil. Inspirados numa ideia separatista, oriunda de alguns poucos que participaram da Revolução Constitucionalista de 1932, os líderes do movimento trazem à tona uma memória distorcida e equivocada.

Antes de tudo, é importante que compreendamos o que foi a revolução, pois é incrível como a visão romantizada e parcial deste evento histórico é amplamente difundida em São Paulo. Tão difundida a ponto de ter se tornado feriado estadual. A visão de um movimento popular liderado pelos paulistas, que pretendia a reconstitucionalização do país. A visão de um movimento que clamava pela liberdade contra um governo autoritário e revanchista.

Autoritário porque, alçado ao poder por uma junta militar no Rio de Janeiro, Getúlio desdenhou da constituição e refez as leis ao seu bel-prazer. Revanchista porque nomeou interventores para todos os Estados e, no caso de São Paulo, eram não-paulistas e militares. As elites de São Paulo passaram a exigir um interventor paulista e civil

Foi durante a revolução liderada por Pedro de Toledo que surgiu a insígnia do Estado de São Paulo com a inscrição latina Pro Brasilia Fiant Eximia, ou seja, para o Brasil que se faça o melhor. Foi na revolução que um símbolo comercial – originalmente desenhado para ser o pavilhão nacional numa eventual proclamação da República do Brasil (em 1889),  depois deixado de lado – estampou as sacas de café produzidas em São Paulo e veio a se tornar a bandeira paulista, cantada nos versos de Guilherme de Almeida com a “Bandeira da minha terra; bandeira das treze listras; são treze lanças de guerra; cercando o chão dos paulistas”.

A revolução despertou as identidades regionalistas e colaborou para consolidar como heroica a figura do bandeirante, aquele que desbravando os sertões alicerçou o gigantismo do território nacional. Só não se contava que eles exterminavam e escravizavam indígenas e que esta era sua ocupação principal.Captura de Tela 2016-06-27 às 11.25.56

Contudo, o movimento foi essencialmente concebido e liderado pela oligarquia cafeeira paulista, altamente conservadora e que se agarrara com unhas e dentes ao poder em todo o período da República Velha, e se recusava perdê-lo. O controle dos meios de comunicação, como o jornal O Estado de São Paulo – Júlio Mesquita foi um dos líderes do movimento – e as rádios, permitiu uma larga propaganda política e de guerra, que alienou as camadas populares insuflando o sentimento de uma espécie  de “localismo” paulista exacerbado. A população saiu  às ruas em grandes manifestações.

No dia do aniversário de São Paulo, uma multidão se reuniu na Praça da Sé, empunhando bandeiras e cartazes exigindo a reconstitucionalização do país. A reconstitucionalização era o engodo das elites ao povo. Eles só queriam de fato retomar o poder.

No dia  23 de maio, ao tentarem tomar a sede do PPP (Partido Popular Paulista), liderado por Miguel Costa, cinco estudantes foram mortos ou feridos gravemente: Martins, Miragaia, Dráuzio, Camargo e Alvarenga, que morreu poucos meses depois.

Getúlio começou a se preocupar com as manifestações em São Paulo, tanto que nomeou um interventor paulista e civil, Pedro de Toledo, que foi pressionado pelas elites locais e em 9 de julho de 1932 declarou guerra ao Governo Federal. César Ladeira, da rádio Record, anunciou ao povo o início da guerra ao som da marcha Paris-Belfort e convocou os paulistas à luta.

O povo achou de fato que a luta era dele, que lutava pela liberdade e uma nova constituição. Morreram quase mil pessoas. Famílias doaram joias, alianças de noivados e casamento para a compra de armas e aviões e a sustentação da Guerra dos Paulistas, como chamou o brasilianista e cientista político Stanley Hilton.

Durante os conflitos, forjaram a ideia de separatismo, que foi logo descartada por Pedro de Toledo e outras lideranças.Captura de Tela 2016-06-27 às 11.26.24São Paulo perdeu. A oligarquia cafeeira recebeu seu golpe final e fatal. Despontou a partir daí uma nova elite econômica. Os quatrocentões perderam o poder e empobreceram, mas mantiveram a empáfia, que alguns carregam até os dias de hoje.

E o povo? O povo sentiu muito a derrota. Mas efetivamente quase nada mudou em sua vida. E as poucas mudanças  que vieram mais tarde foram para melhor, como a universalização do ensino concebida no Manifesto da Escola Nova, em 1932;  a Constituição de 1934 – resultado indireto da revolução – permitiu o direito do voto feminino; entre outros benefícios.

Portanto, quando um grupelho fascista reivindica o separatismo, 84 anos após o fim Revolução Constitucionalista – que durou de julho a setembro de 1932 -, demonstra completo anacronismo, além do pleno desconhecimento da própria história ou desonestidade intelectual ao distorcê-la e manipulá-la.

Entusiasmados com saída do Reino Unido da União Europeia, clamam por um plebiscito para que o povo paulista escolha seu destino. Ignoram ou esquecem nossas origens, diversidade e multiplicidade.

Debrucemo-nos sobre a história com olhar crítico, pois só assim aprenderemos com ela.