“Oi, gente, boa noite!”

“Oi, doutora, boa noite!” “Oi, Júlia, tudo joia?!” “Fala Júlia, beleza?” “Tudo tranquilo, mineira?!”

“Tudo beleza comigo. E com vocês?”

“Tudo certo.” “Eu vou bem.” Tranquilo, mineira!”

“Então… hoje eu trouxe uma ideia meio maluquinha pra gente fazer o nosso dia D de junho. Espero que vocês curtam aí. Seguinte: olhem esse desenho aqui no quadro. Vocês estão vendo esse monte de quadradinho, de bolinha, de traços? Pois é, fui eu que fiz. Essa é a minha família.”

“Que galera, hein!” risos

“Ah, é, uai! Lá em Minas é assim. Meus avós não tinham televisão. Aqui, eu acho que o pessoal tem TV no quarto. Aí tem pouco filho.” muitos risos

“Televisão não empata, não!” Falou sorrindo a Dona Clarice, de 72 anos <3. E foi seguida de muitos risos.

“Então, voltando a minha família. Essa bolinha aqui sou eu. Esses aqui são meus irmãos. Rogério, Tunico e Naná. Minhas cunhadas estão aqui. Aqui, minha mãe Vanda, meu pai Antônio. Meus tios aqui em cima: tio Edson, Tio Neném, Tia Tidinha, Tia Sonia, Tia Maria Inês, Tio João. Lá em cima, meu avô José Simão e minha avó Dorcília. Do lado de cá, meus tios por parte de pai. Tia Márcia, Tia Lela, Tia Celesta, Tia Maria, Tia Dora, Tio Benjamin, Tio Detute, Tio Otaviano…. Lá em cima, minha vó Tininha e meu vô, José Rocha.”

“Se fizer um churrasco, vai ter que vender a casa pra comprar a carne.” Muitos risos

“Exatamente! Então, Minha proposta hoje é que cada um de vocês construa a sua família desta forma. Com esse genograma. Vocês topam?”

“Ai, doutora Júlia, eu não sei escrever.”

“Eu te ajudo.”

“E o que são esses quadradinhos e bolinhas coloridos?” Perguntou o Leandro.

“Essa é a segunda parte da minha proposta. Eu queria que cada um de vocês pensasse e escolhece um problema seu que te incomoda. Pode ser na aparência, pode ser um sentimento, pode ser uma mania, pode ser qualquer coisa. Esta folha, vocês não precisam mostrar pra ninguém. Se vocês quiserem escrever o problema no cantinho, pode. Se não quiserem, fica com ele só no pensamento, ok? Então eu gostaria que vocês colorissem todas as pessoas da família que sofrem com esse mesmo problema. Certo? Podemos começar?”

Respirem fundo e venham comigo. Mergulhem aqui nessas almas.

Falando baixinho num canto da sala com a Dona Clarice.

“Meu amor, quer que eu te ajude com a parte do lápis?”

“Quero.”

Ela não sabia segurá-lo. Desengonçada, apertou com a mão inteira. No centro da folha fez uma bolinha.

“Essa sou eu.”

Fui com o meu lápis e escrevi: Cla-ri-ce.

“Meu marido….. 9 filhos….. 6 netos….. Noras, genros.”

“Seus pais, Dona Clarice?”

Silêncio. Ela olhou fixamente para o papel por cerca de 8 ou 10 segundos.

“Morreu no parto. Não conheci”

Desenhou a mãe morta, o pai. Parou…. Voltou a desenhar. Ao final, todos no papel.

“A senhora já escolheu um problema pra marcar?” murmurei

“Bebida” respondeu sussurrando.

Um a um foi colorindo: o marido, 4 filhos, 2 genros, o próprio pai.

“Quais filhos se separaram e quais estão casados?”

E lá foi ela, desajeitada com seu lápis, descasando cada casamento. Olhos marejados:

“É muita dor para as mulheres, né? No sertão de onde eu vim, não tinha escolha. Passei com meu pai, passei com meu marido e olha aqui minhas fia passando com os homi delas.”

Imóvel, fitei o papel. Peças de um quebra-cabeça que vinham me trazer luz. Eu começava a entender as dores crônicas, a dificuldade em controlar a pressão, o choro ao falar da filha grávida…

“E a senhora, Dona Ivone? Tá terminando?”

“Quase.”

“Posso ver? Qual bolinha é você?”

“Nossa! (sorriu) Esqueci de me desenhar.”

Por 5 segundos vagou com o lápis sobre o papel, procurando se encontrar. Não achou lugar pra si. Chorou. Olhou pra mim.

“Onde?”

“Não sei.”

“Ajuda.”

“Quem são seus pais?”

“Não sei. Fui adotada. Você quer que eu fale de sangue ou de crianção?”

“Qual você prefere?”

“De sangue, só conheci minha mãe. Essa bolinha.”

“Tá. Esse é o pai, né?”

“O adotivo.”

“Casado com a sua mãe?”

“Não. Espera.”

Levantou-se chorando, foi ao banheiro. Voltou com um lenço de papel e um copo d’água.

“Vou fazer sozinha. Acho que já entendi. Espera 10 minutos e eu vou te mostrar.”

A atividade continuou. não vou contar sobre as outras peças do quebra-cabeça que eles me entregaram hoje. Foram muitas. Não há como não me apaixonar. Vou deixar só a última frase da Dona Ivone aqui no final, por que é exatamente o que gostaria de falar pra vocês sobre mim.

“Achei, doutora. Eu me encontrei.”

Bem-vindos a Medicina de Família e Comunidade