Ronywesley é um psicanalista cearense formado pelo Instituto Universal Brasileiro. Ele fez sua especialização em Passo Fundo, com o Analista de Bagé. No entanto, brigou com ele por discordar de sua técnica do joelhaço, ou Thérapie du genou aux boules, como é conhecida no meio acadêmico.

Após o incidente, Ronywesley retornou para o Crato, sua terra natal, e dedicou-se ao estudo lacaniano. Devido ao brilhante “Teoria Analítica da Prega Rainha”, artigo fortemente influenciado por William Reich, publicado pela Le Magazine Psychanalytiques de Vienna, Ronywesley alcançou reconhecimento na comunidade científica.

Posteriormente, seu artigo virou roteiro de um filme pornô dirigido por Rocco Siffredi. Fato que o fez notavelmente famoso, passando a atender gente do mundo inteiro. Inclusive pessoas já falecidas. Para tanto, conta com a ajuda de Adinaldo, um ex-pai de santo mineiro.

Ronywesley, como vários moradores de sua cidade, apesar de muito religioso, é um sério crítico de Padre Cícero. Fato que lhe causou muitos problemas durante a vida.

– E aí, macho. Em que posso te ajudar?

– Obrigado por me atender, doutor Ronywesley. Meu nome é Josué. Eu não sabia mais o que fazer… Eu… Eu… Ai, Nossa Senhora da Repatriação… É que… É que…

– Oxe, Barão. Que avexame é esse? Se acalme, por favor. Aceita uma dose de Jurubeba?

– Cachaça? Mas… Mas, aqui não é um consultório médico?

– E qual o problema? Além do mais, eu não confio em gente que não bebe. Vô butá uma dose pra tu e outra pra mim.

– Hum. Tudo bem. Nesse caso, coloque uma dupla. Acho que estou precisando.

– Agora râmo lá. O que é que tá te aperreando?

– Bom… Farei um resumo pra história não ficar muito comprida. Fugi de casa cedo. Sem dinheiro, tive que morar um tempo pelas ruas de Madureira, lá no Rio. Ganhava a vida vendendo bala no sinal. Mas queria uma coisa melhor pra mim. Então, aceitei um emprego de vigia no Orkut.

– O que é, rapaz? Vigia no Orkut?

– Noturno, ainda por cima. Você não imagina cada coisa horrorosa que tive que presenciar. Ainda hoje tenho calafrio quando lembro.

– E como era esse mungango? Me conta.

 – Eu tinha que ficar vigiando o que as pessoas escreviam. Os scraps. Lembra disso? No começo era engraçado, depois virou uma baixaria só. Fora ter que ler todas aquelas mentiras que as pessoas colocavam nos perfis. Lista de livro, lista de filme… Comecei a me sentir burro. Todo mundo que eu lia adorava jazz, conhecia tudo que era ópera, era especialista em poesia, fã do Dostoievski… Você acredita que nunca encontrei alguém que lesse o Merval? Mas no caso dele acho que é porque ninguém lê mesmo…

– E como é que isso atacô teu juízo, seu Josué?

– É Carlos. Meu nome é Carlos. Como eu disse, começou abalando minha estima. Aí pensei em fazer a mesma coisa, ainda que não fosse verdade. Alterei todo o meu perfil. Passei a ler Aretha Franklin, Mozart… a escutar Felini, Godard. Conheço todos os discos daquele cantor russo, o tal do Marcel Proust. Você conhece?

– Sou muito amigo da família. Mas e aí?

– Depois de um tempo, já não sabia mais quem eu era. Uma vez inventei de tomar umas cachaças na frente do computador. Quando acordei no outro dia, vi que tinha virado astronauta. Havia acabado de chegar de uma missão em Plutão.

– Eh, Plutão é meio longe, meu rapaz. Não dá pra ir de Itapemirim não. Devia ter inventado um lugar mais perto.

– Pois é, mas eu havia perdido o controle, doutor. Já não sabia mais quem era eu. Eu… Eu… Ai, meu Deus… Ai, minha Nossa Senhora dos Carteiros… É que… É que…

– Se acalme, se acalme que eu não gosto de faniquito aqui no meu consultório não. Sou neto do Coronel Atibaia, sobrinho de quinto grau de Lampião, e vizinho do cumpadi Germosino. Tu sabe quem é o cumpadi Germosino?

– Sei não. Quem é?

– É um pedreiro que mora do lado da minha casa. Todo dia, depois que chegava do trabalho, corria 20 léguas e ainda dava 6 na mulher. As duas primeiras em pé, pra não perder o embalo. Aquilo é bicho arretado da peste. Só se vendo mesmo. Agora tome outra dose.

– Obrigado. É que a história ainda não acabou. Tem mais…

– Pois arrocha, meu filho. Tem alguém segurando sua boca, por acaso?

– Tem não.

– Então dê prosseguimento, seu Carlos.

– É Rodrigo. Meu nome é seu Rodrigo. Bom, é que depois de um tempo o Orkut faliu. Então fiquei sem emprego de novo. Me mudei pra São Paulo e fui morar lá na praça do Glicério. Em frente do INSS. Ficava ajudando os velhinhos a entrar no prédio em troca de umas gorjetas. Aí me candidatei a uma vaga de vigia do Facebook. Por causa da experiência, fui chamado logo de cara.

– Afff… Vigia do Facebook?

– Pior, noturno mais uma vez.

– Eita, macho véi. Tu é azarado, hein? E aí?

– Assim como o emprego anterior, foi legal no começo. Então comecei a me interessar por assuntos que normalmente não pensava. Tive que criar uns perfis falsos pra fazer ativismo político. Porque, se soubessem disso no trabalho, teriam me despedido. Fiz alguns só pra causas de minoria, como defender o direito das mulheres, dos negros e dos homossexuais.

– E isso já vinha se agravando desde o último emprego… Certo, seu Rodrigo?

– É Natan. Meu nome é Natan.

– Rapaz, seu menino. Eu podia jurar que era Rodrigo…

– Engano seu. Deve ser porque tenho cara de Rodrigo. Sempre dizem isso. Mas, continuando… O problema maior é que agora não sei mais o que existe e o que não existe. Não sei se o homem foi à lua ou se os EUA inventaram tudo. Acho que Hitler é de direita, apesar de não ter certeza. Pra finalizar, tenho medo até de sair na rua, porque acho que o Putin vai invadir o Brasil.

– Hum. Seu caso é grave. Mas vou lhe acalmar. Você não é o único que tem problema em distinguir a realidade. Não se atarante. Tem solução pra tudo. Até pra morte.

– Pra morte, como assim?

– É só virar espírita. Meu assistente trabalha num centro aqui do lado. Se quiser, posso lhe indicar.

– Por favor.

– Bom, seu Natan…

– É Paulo…

– Bom, seu Paulo. Vou lhe receitar um exame de próstata, “aéssi” infantil três vezes ao dia, e pedir que você retorne daqui a 15 dias.

– Ai minha Nossa Senhora do Bangu I… Por que exame de próstata? Você acha que é algum tipo de…

– Não, não. É só pra ter certeza que não tem nada relacionado com o fiofó. Faz parte de um estudo que publiquei. Agora pode ir, Barão. Não esqueça de tomar o “aéssi” direitinho. Esses remédios pra cabeça são fortes.

– Doutor, vou precisar mudar de emprego?

– Vai não, seu Paulo. Estou feliz que pelo menos o senhor não foi trabalhar no Twitter. O caso seria bem mais grave.

– Obrigado, doutor Ronywesley. Mas meu nome é… é… Vixe. Deu um branco agora. De qualquer maneira, muito obrigado. Vejo você em quinze dias.

– Queima, meu filho. Queima o raparigal todim.