Rosa nasceu como outros milhões de brasileiros: negra e pobre.

Cresceu e viveu em uma enorme favela de uma grande metrópole brasileira, sem pai, com a mãe trabalhando o dia todo de doméstica para garantir o mínimo no barraco da família e com mais três irmãos novinhos.

Apesar de não saber o que é um eufemismo, Rosa sempre achou “frescura” essa história de chamar favela de “comunidade”; “de comum aqui só tem a pobreza”, pensava.

Rosa cresceu escutando que mesmo tendo nascido sem nada, dependia apenas de seu esforço pessoal para vencer na vida; o apresentador branco e rico da TV dizia isso todos os sábados, a patroa de sua mãe dizia isso também.

E Rosa se esforçou.

Não pôde estudar desde cedo, pois tinha que ajudar a mãe cuidando dos irmãos mais novos.

Quando eles cresceram um pouco, Rosa conseguiu se dividir entre o emprego arranjado pela patroa da mãe na casa de uma amiga, as tarefas com os irmãos em casa e os estudos.

Assim, com muita luta, Rosa completou o ensino fundamental.

Mas não havia nada a comemorar; as palavras do apresentador da TV batiam como um bumbo na cabeça de Rosa: “depende só de mim crescer na vida”.

Na mesma toada difícil, Rosa começou a fazer o ensino médio.

Sonhava em virar doutora e assim tirar toda a família da miséria.

Com a igreja, o emprego, o trabalho de casa e os estudos, sobrava tempo era para nada.

Mas Rosa sabia que só dependia de seu esforço subir na vida.

Foi quando Rosa, voltando da escola à noite, foi estuprada em um beco bem perto de sua casa.

Conhecia seu estuprador, mas a lei do silêncio que imperava na favela a impedia de abrir a boca.

Rosa era virgem.

E engravidou no estupro.

Nove meses depois nascia Jorge, seu menino.

Rosa teve que abandonar a escola para trabalhar e cuidar de seu filho, mas nunca saiu de sua cabeça que se tornar uma vencedora era somente questão de dedicação pessoal.

Em mais alguns anos de dureza, com Jorge mais crescido e com a ajuda dos irmãos, Rosa voltou a estudar – com a graça de Deus.

Perto de concluir o ensino médio, Rosa se desdobrava novamente entre a igreja, o filho, os irmãos e a casa, o emprego e os estudos.

Mas era muito para uma Rosa só; por diversas vezes tinha que estudar em casa depois da escola e somente após Jorge dormir, já de madrugada.

Como não havia mais dinheiro para pagarem a milícia que fazia os “gatos” de luz, não havia mais energia elétrica em seu barraco; porém a essa altura da vida Rosa já estava convicta que dependia exclusivamente de seu esforço vencer na vida.

Deus fazia sua parte.

O resto era com ela.

Estudar madrugada adentro e à luz de velas “queimava a vista”, mas Rosa não desistia – desistir era para vagabundos acomodados.

Todavia a rotina árdua e as investidas nos estudos até altas horas começaram a provocar alguns atrasos no trabalho.

A patroa logo avisou que não iria aceitar “gente folgada” e que havia “uma fila de pessoas precisando de emprego”.

Rosa tinha que se empenhar mais.

O problema é que houve uma greve dos motoristas de ônibus causando alguns novos atrasos – e foi assim que Rosa perdeu o emprego.

No entanto, ciente que dependia apenas de seu empenho vencer na vida, Rosa abandonou novamente os estudos até conseguir outro trabalho.

Era provisório, pensava.

Só que sem o ensino médio concluído era difícil arrumar um emprego bom; Rosa não havia se esforçado o suficiente e assim não conseguia nada decente para fazer.

Desesperada, Rosa foi pedir socorro para a antiga patroa; essa lhe disse que “apesar de considerá-la da família”, não podia fazer “muita coisa” pois “a vida estava difícil para todo mundo”.

O azar de Rosa foi ter batido na casa da ex-patroa justamente no dia em que furtaram as joias da casa; talvez a empregada atual, talvez o motorista da família, ninguém nunca soube quem é que tinha cometido realmente o crime.

Entretanto isso não importava; a polícia bateu no barraco de Rosa à noite e a levou para a delegacia.

Lá teve que confessar o que não fez.

E foi presa como ladra, por nove anos.

Quando saiu da prisão, Rosa não tinha nada mais a perder na vida; Jorge já não morava em seu barraco e sua mãe disse que “o menino andava em más companhias”.

Os irmãos também tinham cada qual tomado seu rumo.

Foi desta maneira que Rosa se transformou em uma irmã de merda, em uma mãe de merda, em uma profissional de merda, em uma estudante de merda e. em suma, em uma derrotada de merda – claramente por não ter se esforçado o quanto deveria, já que teve todas as oportunidades possíveis na vida e a ajuda onipresente de Deus.

A história do fracasso de Rosa é também a história de como a maioria dos brasileiros pobres não passa de uma horda de vagabundos acomodados que só não vencem na vida por mero comodismo.

Porque os ricos dão oportunidade a todos, através de empregos e bons salários.

E Deus ajeita todas as coisas.

O problema de Rosa e de todo brasileiro nascido pobre que não consegue ficar rico é, indubitavelmente, de índole e de falta de caráter.