Na segunda passada, falei sobre algumas transformações na sociedade e como isso “repercutiu” na moda. Essa semana, vagando pelo facebook, vi uma postagem de uma mãe sobre um questionamento do filho a respeito da escolha das cores para meninos e meninas, azul e rosa, respectivamente. Embora, possa parecer que essa seja uma convenção social existente há tempos, ela é, na verdade, bem recente (consolidada apenas nos anos 80).

Aliás, o vestuário infantil foi durante muito tempo deixado de lado. Os recém-nascidos, até o século XIX, eram enrolados em faixas de tecido de linho ou cânhamo para aquecer e imobilizar (dar sustentação). As crianças, de um ano a cinco anos, usavam túnicas (unissex) nas cores preto, vermelho ou marrom, até aproximadamente o ano de 1500, quando ganhou bordados e o branco também foi incorporado. Aquelas acima dos cinco anos eram vestidas com roupas “miniaturas” dos adultos.

No século XVIII, a ideia de a criança ser destino do adulto, com vestuários para controle e disciplina, é combatida por Jean Jacques Rousseau, que acredita numa maior liberdade para as crianças, principalmente, nas roupas. Com apoio de professores, médicos e filósofos, os tecidos se tornam mais leves, as cores mais claras e as amarrações são eliminadas.

Até então, a separação entre meninas e meninos é praticamente inexistente. Na Era Vitoriana (século XIX) e com o embalo das ideias românticas, os bebês⁄crianças são valorizados como seres puros e ingênuos. Nessa época, com a expansão do Império Britânico e a consolidação da Revolução Industrial, as roupas refletiam a prosperidade da classe média. E, também, é nesse momento que há a democratização do ensino e popularização das escolas e internatos, quando o uniforme é inserido no vestuário infantil.

No início do século XX, vemos, de fato, a primeira distinção de roupas para meninos e meninas através das cores (quando as técnicas de tingimento se aprimoram). Eles usam rosa e elas, azul. O rosa era considerado uma variação do vermelho e, portanto, vibrante, quente e másculo. O azul remetia ao manto da Virgem Maria e reino dos céus.

Essa situação se mantém até a Segunda Guerra. Os nazistas usavam a cor rosa para identificar homens homossexuais, com o fim da guerra, os soldados passaram a associar o rosa ao feminino. Nos anos 60 e 70, tivemos um estímulo para voltar à igualdade nas roupas, mas, na década de 80, com o exame do pré-natal, o mercado investiu no uso das cores para comemorar a notícia de se saber o sexo do bebê e, desde então, se tornou uma convenção em nossa sociedade.

Mas, será que faz mesmo sentido manter essa convenção instituída pelo mercado? Ela nos representa? Em um momento em que estamos discutindo parto normal, cesárea e identidade de gênero (inclusive na infância), essa associação de cor teria algum sentido? E se temos crianças (como o filho do post) questionando as cores, por que as mantemos usando algo que não faz sentido a elas?