Comecei este artigo discorrendo de forma linear, sintética, até superficial, sobre os ciclos de vida envolvidos na produção de um único fonfom. Durante as buscas, tomei um susto… Os números são sufocantes. A insanidade de nossa teimosia no consumismo salta. Resquícios de autoestima gritam. Não há como assimilar sem espanto as ordens de grandeza envolvidas, muito menos dimensionar a extensão dos prejuízos deste modo de vida motorizado em que pessoas são até prescindíveis, mas não seus quadrúpedes de metal sobre rodas…

Deletei parte do texto quando compreendi que, se quisesse ir a fundo, teria que reinventar as enciclopédias e entulhar nossas cabeças de tantos números que o artigo faria o efeito contrário ao que sonhei…Não quero números. Quero compreensões… Simples assim, por amor, gotejo alguns dados sem a intenção de afogar ninguém. É só para dar sentido mesmo… Confesso, penso que nossa genética já incorporou a infelicidade árida dos modelos estatísticos e somos, a cada dia, mais insensíveis à compreensão dos “quantos”. Comos e porquês precisam ser relevados com urgência!

Seria maldade mostrar aqui cada uma das árvores genealógicas envolvidas na produção dos caixotes de metal sobre rodas que circulam pelo mundo. Minimizo o impacto a partir de um número importante para compreendermos que nossas escolhas individuais também têm seus componentes, ao passo que as coisas que consideramos inócuas como únicas são únicas para muita gente, mas podem ser somadas.

Cada um de nossos bibis é feito de até quinze mil peças produzidas em metais de diversas origens — fundidos, estampados, forjados, envolvendo diferentes minérios, ligas e têmperas –, inúmeros polímeros plásticos, borrachas naturais e sintéticas, fibras, tecidos, adesivos, vidros diversos, e outros materiais. Muita coisa, não?

Dá pra começar a entender aonde quero chegar?

Cada uma das quinze mil peças que põem um fonfom para andar é fabricada de forma independente e com ciclo de vida próprio, dispêndios energéticos, custos e passivos próprios, linha industrial e logística próprias. Portanto, têm uma “pegada” própria…

Não some tudo, não. Nosso coração de motoristas não suportaria.

E não é apenas isto. Ainda temos parênteses abertos a cada item: revestimentos, lubrificantes, itens de desgaste, combustíveis… Outros parênteses para a óbvia e intrincada estrutura viária necessária a este modelo de transporte. Isso, fora a degradação urbana necessária à circulação de cada bibi, estacionamento do bibi, abastecimento do bibi, lavagem do bibi e mais uns tantos etecéteras e pormenores…

Ah… Ponha na conta a sua garagem e as garagens necessárias para outro número impressionante: entre mortos de fome e desesperados continentais, o mundo está ultrapassando a marca de cem milhões de fonfons produzidos ao ano. Considerar variáveis de marca e modelo, a esta altura do caos global, será inócuo… Mas se couber uma pergunta: – Como poderemos coexistir com o que aprendemos a chamar de “vida” neste ritmo de produção e imposição de demandas em que todos os anos — sob novo design e uns poucos avanços tecnológicos — essa frota de cem milhões de bibis e fonfons produzidos, com seus quinze mil componentes individuais, deixa de pertencer à atualidade?

Respire, porque vamos além… Respiro também. Fundo. Sou escritor, odeio cálculos. Mas sou obrigado a concluir que temos muito mais de cento e cinquenta bilhões de componentes automotivos e ciclos de vida automotivos em circulação pelo planeta — a mais, por ano – considerando apenas veículos leves.

Um bilhão já é um número global ultrapassado de fonfons. Cada um com quinze mil componentes… É um contingente espantoso, desovado de uma imensa rede industrial, sob a qual pende a teia logística dos veículos novos, lojas de peças, serviços, consertos, manutenção, abastecimento… Mais o mercado de veículos usados… Mais os acessórios e opcionais… Mais o mercado dos compromissos legais dos proprietários. Licenciamentos, fiscalizações, impostos, seguros, habilitações… Mais as praças obrigatórias de pedágio, áreas de estacionamento, itens de segurança e vigilância, ritos e desperdícios de água com higiene… Mais os requintes de conforto individuais… Mais as tragédias psíquicas inerentes, o estresse, a ansiedade, o endividamento, os acidentes… Mais os custos que ficam para a sociedade…

Mais, mais, mais. Mais, porque neste mercado do lucro a partir da destruição da vida, menos é morte… Os caras que pensaram em tudo isso como modelo elitizado de prosperidade não tinham a menor ideia do que era o efeito estufa e do tamanho que este mercado em que todos somos reféns atingiria… Mas parece que está difícil repensar… Todos querem o privilégio de dirigir seu bibi.

Criar consciência, buscar informações e elencar ponto a ponto a tragédia sobre quatro rodas tem sido tão inócuo quanto redundar nas mazelas de um cartório, nos bolores de um casamento desfeito. Bobagem. Completa bobagem… Quem quer saber de novo paradigma? Quem quer entender o que é sustentabilidade? Quem quer sair da zona de conforto? Quem quer viver mais simples? Quem quer caminhar de casa ao trabalho? Quem enxerga através das mandrakarias de obsolência do design e da tecnologia? Quem abre mão do status, do imaginário machista, do ideário industrialista? Quem abre mão de sonhos tão duros de conquistar? Quem troca sua cabine climatizada privativa pelo chão sem privilégios do transporte público? Quem quer pensar nos males que seus confortos causam ao planeta, se tantos outros não pensam e não pensarão?

A maioria dos usuários de bibis não quer saber ou não tem interesse algum em compreender o peso dos brinquedões individuais no Aquecimento Global e sua influência política determinante no insustentável paradigma vigente… As pessoas mal fazem a conexão entre o que compram e sua responsabilidade pela produção do que compram. Óbvio que não se incomodam em financiar as corporações. Se fossem realmente avessas, não comprariam.

Então, de que adianta sabermos que nossos bibis e fonfons são responsáveis por até noventa por cento das emissões de gases do efeito estufa se não conseguimos olhar para o próprio cano de escapamento?

De que adianta sabermos que além de toda a poluição atmosférica causada pelos caixotes de lata, há uma infinidade de passivos escamoteados nas entrelinhas de todo o processo de produção?

Além de tudo, nossos bibis são grandes perdulários em consumo de água, matéria essencial da vida e base conceitual de qualquer noção de sustentabilidade…

Será mesmo que amamos o meio ambiente? Vejamos, por exemplo, que cada bibi fabricado consome o absurdo de quatrocentos mil litros de água limpa. Temos mais de um bilhão de bibis rodando por aí. Cada um com quinze mil pecinhas… O que isto significa para a maioria das pessoas além de simples números?

Se as pessoas lavassem seus bibis e fonfons muito economicamente, uma única vez ao mês, gastando apenas cinquenta litros de água, estaríamos falando em cinquenta bilhões de litros de água… Uma única lavagem mensal é nossa suposição… É claro que deixar de lavar este bilhão de carros não seria garantiria de mitigar a sede do bilhão de gentes sem água potável planeta afora. Então, já que mudar o nosso hábito não resolve, continuamos comprando, usando e lavando bibis. Certo?

Gente, esta é uma incômoda realidade que, decerto, deve ser considerada em suas escolhas, antes de maldizer o capEtalismo… Não estou aqui para puxar orelhas nem para dar lição de moral, nem para colonizar cabeças. São informações disponíveis a qualquer pessoa que tenha acesso à web… Temos um problema ambiental, mas se apontarmos o dedo alhures, sem perceber que somos parte solidária e voluntária do problema, que tipo de consciência alegaremos?

Gerações inteiras raciocinando em cento e quarenta toques não encontrarão elasticidade mental para conectar raciocínios até compreenderem do que cada coisa é feita, sob que interesses, com que implicações e em que modelo de normalidade…

É fato, estamos exaustos da sisudez lógica e racional dos detalhes. A embriaguez das justificativas é muito mais acolhedora… Portanto, naturalizemos o mal e deixemos a compreensão do problema para as gerações vindouras que entenderão o desastre que herdaram, em talvez cinquenta toques, mas não terão nossas referências de qualidade de vida ou da integridade de ambientes preservados.

Fiquemos tranquilos. Herdar o mundo nu e cru que deixaremos, revestido de cada uma de nossas justificativas, incoerências e falsas noções de liberdade, conforto e prioridades, parecerá natural… Fica bom assim?

Você aí que vem lacrimejando esperanças, acreditando que o capEtalismo verde vai salvar o mundo com motorezinhos elétricos… Acredita mesmo que basta mudar o modal de propulsão e, simplesmente, todas as cadeias produtivas, todos os ciclos de vida de cada uma das pecinhas complicadas de nossos fonfons deixarão de produzir passivos ambientais, deixarão de consumir água e poluir e somar gases no processo de Aquecimento Global?

Ain…quanta ilusão!!

Quando vamos olhar para nossas prioridades maiores e compreender que este mercado, em detrimento de tantas lacunas em necessidades básicas, demanda uma negligência social extraordinária, uma estrutura demasiado complexa, exageradamente cara, energeticamente tão dispendiosa que não erraríamos ao dizer que mercado é sinônimo de insustentabilidade?

Pessoas… Esses porta-egos móveis, símbolos maiores do mundo-macho, do narcisismo capEtalista, da sociedade irrespirável do petróleo, constituem uma incrível mandala de insanidades socioambientais… Nossos bibis são retratos fiéis da linearidade tosca que contagia toda a indústria – sem permissão para sentido algum além do lucro.

São tamanhas as implicações, sob uma insensibilidade tão necessária, uma presença geopolítica tão densa desta indústria, e estamos tão atrasados para mitigar os passivos gerados por este mercado; que as pessoas, automaticamente, atestam impotência absoluta! E parece que basta a impotência…

Diante da impossibilidade de abrirem mão do uso banal dos fonfons, até parece mais sensato ficarem quietas atrás dos valores aprendidos, de seus volantes texturizados, escondidas de qualquer suspeita de consciência sob o escudo da normalidade. Aconteça o que acontecer, a sociedade garante as justificativas.

E parece suficiente justificarmos usos e necessidades apontando nossa própria cumplicidade financeira com o mercado para, depois de feito, depois do irreversível, deixarmos o problema para a molecada que vem aí, para que assimilem o futuro intragável que estamos cozinhando.

Habituados à vigilância social e ao controle da mídia, a maioria de nós sucumbe à narcose do grande símbolo fálico e aguarda comportada que o próprio mercado anuncie a necessidade de uma compreensão mais ampla sobre a questão ambiental.

Sente-se aí e espere. Como se algum dia a mídia dependente da publicidade deste mesmo mercado dissesse: – Era uma vez o tempo dos bibis!

Mal somos donos de nossas vidas, como ousaríamos conceber e assumir responsabilidades contra esta indústria? Quem somos nós para deixarmos de utilizar as carruagens de metal sobre rodas se lutamos dia e noite para não sermos nem parecermos pedestres? Quem somos nós para tomar qualquer atitude além de propor e aplaudir a reciclagem parcial desses materiais, ignorando a destruição já produzida?

Não há como justificar muito mais, gentes… As corporações estão aí se fazendo de tontas, mas há informação transbordando por todos os furos do sistema…

Enquanto jovens em todo o mundo preferem não ter bibis próprios, enquanto cidades ampliam áreas livres da circulação de fonfons e tanta gente abre mão dos falsos confortos e da cumplicidade a esta economia de destruição; a mão invisível do mercado diz que o motor a combustão morreu… Decreta a própria obsolência para trocar de pele… Mas não se arrisca a questionar o automóvel em toda a influência de sua concepção e manutenção como privilégio, hábito ou necessidade – ainda carburada pela indústria do século XIX… Não se atreve a abandonar o fordismo, a linearidade alheia ao meio ambiente, o pensamento binário e equivocado do lucro acima da vida.

Ah, mas o motor será elétrico… Caramba! Como o capEtalismo é bonzinho!!

E você, está programando sua vida para deixar de ter seu bibi ou já está sonhando com sua imagem no facebook dirigindo um fonfom elétrico?

Não me desculpem pelo sarcasmo… Temos feito de conta que os problemas socioambientais trazidos do século passado não são nossos. Que as corporações e governos pensam por nós. Que tudo são decisões verticais exteriores. Continuamos consumindo linearmente supondo que as soluções virão lá na frente, diante de uma urgência maior, como se fabricássemos, numa linha de produção, alguma evolução miraculosa, uma tecnologia financiada pelo próprio consumo que desfaça todos os erros acumulados pela insistência no erro do consumismo…

Sei como é difícil assimilar… Mas, sim, cada um de nós é parte do problema… Mesmo se tomarmos como exemplo uma irrisória arruela ou lambida de graxa, não demorará para encontrarmos implicações de nossos hábitos no desmatamento, na poluição industrial, no dispêndio de água limpa e efluentes absurdos, no consumo gigantesco de energia e, claro, na parte maquiada da indústria automobilística – sua relação direta com as guerras, os flagelos humanos, os golpes de Estado e outras etapas tão necessárias à existência de nossos brinquedos prediletos…

Este é um mercado dentro do mercado maior. Um dos mais perniciosos… Suas mãos invisíveis, mas nada delicadas, socializam a responsabilidade pelos estragos globais – e a cumplicidade pela necessidade de infinito crescimento — com seus consumidores narcotizados de rotina, sócios silentes engasgados com dívidas, entusiastas alienados e especialistas em justificativas… Por trás dos privilégios de classes, do design alegórico, do uso doméstico e confortável, das lendas e álbuns de família — pela praticidade, pela rapidez, pela agilidade, em nome da alma dos “nossos” negócios — tremem os passos surdos da indústria pesada, das corporações mineradoras, dos grandes bancos, do mundo sangrento do petróleo.

Como de hábito, ninguém em especial é responsável pela incitação ao suicídio que acomete nossa sociedade através do consumo. Solidários ao moto-perpétuo de destruição, sustentam-se todos os reféns deste emaranhado de ciclos de vida complexos que, sem trocadilhos, atropelam a história da vida no planeta Terra, sem que a mais poderosa das tecnologias seja capaz de dimensionar de fato a extensão dos passivos gerados, e tocar minimamente o coração de quem consome.

Redundo e redundo… Não partirá do mercado o bom senso de elucidar que a utilidade é sempre justificável. Ninguém lhe dirá que justificar é confortável… O conforto é o mestre das justificativas quando se fala em Mudança de Hábitos. Por trás de equações por vezes complexas, costumamos justificar como direito o que não passa de luta por um privilégio. Conforto é privilégio. E quem não está disposto a abrir mão de privilégios, necessariamente, escolheu o olhar privado em detrimento do coletivo.

Não se ofenda. Sei quanto você batalhou e batalha para ter seu fonfom. Não sou nem um pouco meritocrata, mas compreendo a equação quase religiosa que dissimula sacrifícios em méritos. Sei quanto custa ser sócio dessa indústria e usufruir dos confortos e prazeres do poder de lata sobre rodas. Bem sei, despido do traje de machinho alfa de outrora, dos predicados que ainda dividem a ralé pedestre dos cidadãos que têm um bibi…

Guarde a sensibilidade de seu ego. Isto não é julgamento, não. Como disse, transborda informação pelos furos do sistema. Vê e lê quem quer… Se pareço contundente demais é porque estou compartilhando de coração aberto um questionamento sobre as escolhas que estamos garantindo para nossos filhos.