Extirpado de sua terra

Atirado ao porão do negreiro

Quis o destino perverso

Torná-lo mais um brasileiro

De muitas privações a viagem

Em porto desconhecido

Acorrentado, fraco, humilhado

Foi como mercadoria vendido

Levado às terras distantes

Trabalhou no cultivo da cana

Saudades da família e amigos

Saudade da Mãe Africana

Bravo, lutou contra a sorte

Imposta pelo Senhor usineiro

Ao tronco preso e torturado

Sobreviveu por ser grande guerreiro

Levado às terras sertanejas

Labutou como nas  demais

Garimpou pedras e ouro

Enriqueceu os sertões das Gerais

Obrigado à crença do branco

Com agudeza de alma, sagaz

Ajoelhava-se em frente ao Santo

E rezava aos seus Orixás

Na umidade e escuridão da senzala

Plantou a semente brasileira

Dos batuques à umbigada

O samba, o jongo, a capoeira

Levado às terras mais férteis

Lavrou, plantou e colheu

À custa de seu suor, de seu sangue

O altivo Barão enriqueceu

Vida de grilhões e chibatas

Não desvaneceu a esperança

O sonho de conquistar liberdade

Vivido desde criança

Liberto, enfim liberto!

Deixou para trás a fazenda

Rumou para o centro urbano

Em busca de nova vivenda

Frustrou o sonho antigo

Quando em cidade tão bela

Sem trabalho nem onde morar

Multiplicou o cortiço, a favela

À margem da sociedade

Sofrendo discriminação

Culpado por todos os crimes

Vivendo em eterna prisão

Designado por muitos nomes

De cunho pejorativo

Preto, nêgo, negrinho

Criados pelo branco altivo

Brasil! País de todas as raças

Brasil! Onde não há racismo

Embuste da elite que é branca

Hipocrisia e cinismo