“Saindo do armário” numa comédia adolescente ou das problematizações possíveis em filmes “Sessão da Tarde/Cinema em Casa” para o público LGBT.

Não é incomum nos referirmos a determinados filmes que consideramos menos importantes, menos “sérios” que outros qualificando-os como filmes de “Sessão da Tarde”, o horário vespertino de filmes da Rede Globo, ou do “Cinema em Casa”, a antiga faixa cinematográfica das tardes no SBT. Esses espaços são reservados para certo tipo de filmes que não primam por despertar grandes reflexões entre os telespectadores do horário, que não necessariamente sintonizam as emissoras em busca de alguma história específica. São um público transitório, “infiel”, que muda constantemente de canal e, quando não deixa a televisão ligada ao acaso, procura histórias que não requeiram máxima atenção para serem compreendidas, ou pelo menos assim são vistos pelas emissoras.

 Os filmes desses horários são tidos como “passatempo”, “água com açúcar” e não angariam números vultosos de audiência por alguns motivos: a) às donas de casa são destinados certos tipos de programas de variedades que não competem com esses filmes; b) há, de acordo com os próprios institutos de aferição de audiência, um menor número de televisores ligados; c) o menor número de televisores ligados está cada vez mais ligado ao uso do computador; d) crianças e adolescentes costumeiramente se envolvem em outras atividades que as afastam da frente da televisão; e) os homens adultos economicamente ativos não são tidos como público-alvo por supostamente estarem fora de casa trabalhando; f) idosos são tidos como público residual, ou seja, podem até assistir a esses filmes, mas tais filmes não se destinam a eles. O exato oposto se daria com aqueles filmes veiculados à noite, no que se chama de “horário nobre”, reservado aos blockbusters.

Daí que os gêneros escolhidos para a tarde quase sempre sejam as comédias, em todas as suas possíveis subdivisões, ou antigos blockbusters que já não têm a mesma atratividade de outrora. Filmes como “Porkys” (1982), “Rambo” (1982), “Benji” (1974), “Beethoven” (1992) e suas continuações, “Cartas para Julieta” [Letters to Juliet] (2010) e inúmeros outros eram e ainda são repetidos à exaustão, do mesmo modo como o humorístico “Chaves/Chapolim” e não é crível supor que alguma criança com acesso à televisão tenha crescido sem ter qualquer contato com tais filmes ou outros desse repertório “clássico”. Por conta do que se disse, é bem possível que esses filmes tenham desempenhado um papel na formação do gosto para a sétima arte desses telespectadores maior do que aqueles filmes compreendidos como “sérios”, cujo enredo trate de questões pungentes para a sociedade e nos levem a refletir sobre nossas atitudes e mesmo ensejar mudanças mais profundas em nosso modo de pensar e agir perante os outros. Tais filmes exigiriam uma vivência maior e uma noção mais apurada do nosso lugar no mundo, sendo, portanto, restritos a um público mais “qualificado”.

Esse filão cinematográfico é produzido, obviamente, para passar em salas de cinema, com classificação etária própria a crianças ou adolescentes. Tempos depois serão lançados em DVD, Blu-Ray ou, mais recentemente, em alguma plataforma de streaming. Quando falamos, então, em filmes do tipo “sessão da tarde/cinema em casa” estamos cientes de não se tratar de filmes produzidos para a TV, ainda que estes possam ser incluídos nessa “classificação”.

Se a nossa percepção encontrar algum amparo na realidade, os filmes vespertinos, por não terem como objetivo principal uma reflexão mais requintada do estado das coisas no mundo, atingiriam um público mais aberto e desprevenido acerca dos valores neles embutidos. Assim, ainda que deem menos audiência do que os filmes noturnos, por visarem um público mais despreparado para problematizar as questões levantadas por tais obras (haja vista ser o público-alvo composto basicamente de crianças e adolescentes), seu conteúdo seria mais facilmente absorvido e difundido. Tendo isto em mente, mereceriam maior atenção por parte dos responsáveis por essas crianças e adolescentes do que os filmes propriamente para adultos.

Para se inteirar mais a respeito de como tais valores são disseminados através da arte, sobretudo do cinema, recomendam-se as leituras realizadas pelos pensadores da Escola de Frankfurt, que, entre outros assuntos, se dedicaram a estudar o que chamaram de “indústria cultural” e o fenômeno da “cultura de massas”.

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Uma busca não muito apurada pela nossa memória nos faria afirmar que nenhum desses filmes exibidos à tarde e que podemos alcunhar de “clássicos da ‘sessão da tarde’ (ou do ‘cinema em casa’)” aborda a diversidade sexual como entendida hoje em dia. Isso não significa a total inexistência de personagens que fujam do espectro da heternormatividade, senão que esses não sejam os protagonistas. Tais personagens, quando aparecem nessas obras, são, no mais das vezes, “amigos” dos protagonistas ou mesmo personagens terciários cuja função é, através da sua ridicularização, provocar o riso. São personagens que não têm vida própria ou outra função narrativa que não a de “escada”. Não se trata, obviamente, de fazer aqui um inventário dos filmes em que personagens LGBT apareçam e em quais circunstâncias, mas sim de, por meio de um filme específico cujo um dos protagonistas pertence à chamada “comunidade LGBT”, discutir alguns aspectos de sua inserção em uma obra do tipo brevemente descrito acima, exemplificando o poder de difusão de valores sobre essa parcela da população.

Antes disso, é preciso fazer um recorte temporal para contextualizar minimamente o filme escolhido. Na safra de filmes LGBT dos anos 1990 em diante, sobretudo a partir dos anos 2000, o mote principal é maciçamente o da descoberta e aceitação da própria “orientação sexual” durante a adolescência ou primeiros anos da vida adulta (os filmes que se dedicam a discutir “identidade de gênero” constituem um filão muito menor e não me recordo de qualquer um que discuta a questão nos moldes aludidos como “sessão da tarde/cinema em casa”). São filmes como “Delicada Atração” [Beautiful Thing] (1996), “Saindo do Armário” [Get Real] (1998), “Apenas uma questão de amor” [Juste une question d’amour] (2000), “De repente, Califórnia” [Shelter] (2007), “Amigas de Colégio” [Fucking Åmål] (1998), “Nunca Fui Santa” [But I’m a Cheerleader] (1999), “Lírios D’Água” [Naissance des Pieuvres] (2007), “Azul é a Cor Mais Quente” [La Vie d’Adèle] (2013), entre outros.

O filme escolhido para esses apontamentos, todavia, será o estadunidense “Saindo do Armário” [Date and Switch], de 2014, que conta a história de Michael (Nicholas Braun) e Matty (Hunter Cope), dois adolescentes, amigos desde no mínimo a terceira série (equivalente hoje à quarta série do nosso Ensino Fundamental), agora no último ano do Ensino Médio, às vésperas da formatura e, mais do que isso, do baile de formatura. Ressalta-se que essa temática de filmes para adolescentes e principalmente sobre os preparativos para o baile de formatura é recorrente na cinematografia estadunidense, muito mais do que na de outros países, levando-nos a selecioná-lo justamente por se inserir nessa tradição e, ao mesmo tempo, inovar ao inserir entre seus protagonistas um personagem que se revelará gay.

O baile de formatura quase sempre mantém estreita relação com o aguardado momento da perda da virgindade e, se em filmes voltados ao público heterossexual esse momento constitui um rito de passagem, para a vida adulta aqui não é diferente. Michael e Matty querem deixar de ser virgens antes de começarem o Ensino Superior. A vida adulta, nessa visão, não começa apenas com a ida para a Faculdade – o que, nos Estados Unidos, não significa apenas uma mudança no nível de ensino como também sair da casa dos pais para estudar –, senão com o início da vida sexual.

Michael namora Ava (Sarah Hyland), mas o namoro não progride da forma esperada por ele porque não houve relação sexual até o momento. O mesmo ocorre com Matty e Em (Dakota Johnson). Os amigos decidem então terminar os namoros na esperança de encontrar outras pessoas para finalmente perderem a virgindade. Michael termina o namoro com Ava deixando claro que o motivo é a falta de sexo, o que a leva a questionar se para ele ela não passaria “de um buraco para você entrar e sair” e a obter como resposta “eu valorizo a pessoa construída em torno desse buraco”. Matty, por sua vez, termina o namoro de forma diversa: apontando os seus próprios defeitos na tentativa de mostrar que não é maduro o suficiente para levar um relacionamento adiante, ainda mais com a perspectiva de estudar longe da casa dos pais, o que é prontamente entendido por Em.

Ava, como era de esperar, ofende-se com o motivo e a maneira de Michael terminar o relacionamento. Independente do modo como se dá o término, é importante frisar que o motivo é facilitar a perda da virgindade. Michael não a vê como pessoa e sim como uma possibilidade para deixar de ser virgem. Além disso, o caráter de Ava será discutido em outros momentos do filme em circunstâncias nunca elogiosas. As namoradas são tidas, portanto, como um entrave.

Cabe aqui ressaltar que tanto Michael como Matty não são os típicos garotos populares do colégio. Ao contrário, são os garotos mais comuns e que, a não ser por um momento ou outro, passam despercebidos. Essa característica pode parecer desimportante, mas ajuda a construir a noção de que poderiam ser qualquer garoto, procurando causar uma maior empatia com o público.

Michael então tem a ideia de preparar um brownie com maconha para servir como uma espécie de troféu para quem conseguir deixar de ser virgem até o baile. Na verdade, a intenção não é haver competição entre ele e Matty e sim estimular os dois: a iguaria não é o objetivo e sim o símbolo desse objetivo. Ao ver o empenho de Michael para ambos perderem a virgindade, Matty entende precisar se assumir para Michael.

A “saída do armário” de Matty é seguida por um “você não pode ser gay/você está fora de forma” de Michael. Se por um lado a ideia é provocar riso, por outro reforça o estereótipo de que ser gay está ligado a certo padrão físico e, valendo-se de um silogismo, se Matty não se enquadra nesse padrão, não pode ser gay, ou ao menos não totalmente: há um descompasso, algo que não se encaixa como deveria.

A resposta de Matty levanta outras questões. Diz ele não ser decorador, não assistir aos Tony Awards (premiação teatral anual em que se destacam os musicais) e não usar camiseta babylook e que isso não o torna menos gay. Matty rebate o estereótipo de Michael com outros estereótipos. E não apenas outros, mas aqueles ligados à afeminação. O que Matty quer dizer é que ele entende qual é o estereótipo do gay e que, mesmo não se enquadrando nesse estereótipo, ele não é menos gay. No entanto, a sua afirmação como gay passa irremediavelmente pela negação do que é tido como feminino: ele é gay apesar de não ser feminino. Ao mesmo tempo que está expondo haver outros modos de ser gay que não o do estereótipo, o que é positivo ao abrir uma gama de possibilidades outras, está mostrando tais possibilidades outras através da inferiorização de uma. É a tentativa de normalização da homossexualidade: ele é mais parecido com Michael do que com outros gays, aqueles que são decoradores, ou assistem aos Tony Awards, ou usam camiseta babylook, quando não são decoradores que assistem aos Tony Awards e usam camiseta babylook.

Michael pergunta há quanto tempo Matty é gay e este diz saber desde os 7 anos de idade. Michael se mostra incrédulo porque Matty teria namorado mais mulheres do que ele. Segue-se a pergunta “clássica”: tem certeza [que é gay]? Aqui é possível vislumbrar alguns pontos passíveis de discussão. Em primeiro lugar, o fato de aqueles que fogem da heteronormatividade se perceberem diferentes desde tenra idade, ainda que não saibam nominar essa diferença: sabem ser diferentes, mas não sabem verbalizar, não sabem exatamente em que medida são diferentes. Em segundo lugar, a possibilidade de a homossexualidade não ser uma orientação sexual autônoma, uma realidade possível. O padrão tido como única possibilidade é claramente o da heterossexualidade: não é a heterossexualidade que é posta em dúvida e sim a homossexualidade. A homossexualidade seria algo passível de confirmação, ao passo que a heterossexualidade se valida por si só. Em terceiro lugar, padrões rígidos de sexualidade e expressão dela: homens heterossexuais namoram mulheres heterossexuais, homens homossexuais namoram homens homossexuais e ninguém ultrapassa as fronteiras bem delimitadas. Em quarto lugar, a negação da existência da bissexualidade. Matty não se diz bissexual nem aventa a possibilidade, o que também não é feito por Michael. Note-se que não se está dizendo que, por Matty ter namorado mulheres e se sentir atraído por homens, ele tenha necessariamente que se identificar como bissexual. O ponto é que a bissexualidade não é sequer citada como possibilidade, sendo, portanto, invisibilizada. Essa negação da bissexualidade aparecerá em outras duas outras oportunidades.

Michael arrepende-se de ter terminado o namoro com Ava porque, como Matty é gay, não faria mais sentido buscarem os dois perder a virgindade antes do baile. É como se Matty fosse desclassificado do páreo para deixar de ser virgem porque isso só seria possível com uma menina e agora só Michael se qualifica para a tarefa. O rito de passagem para a vida adulta só faria sentido se fosse possível aos dois da mesma forma. Matty pede, então, que Michael mantenha segredo quanto a sua orientação sexual, porque ele não está pronto para se assumir publicamente. Vê-se que o “assumir-se” é composto de etapas: primeiro está a percepção de si e a aceitação; segue-se o “assumir-se” a um outro, alguém de confiança; essa rede de segurança se alarga e passa a incluir outras pessoas; eventualmente a rede se expande para outras esferas da vida social: a escola, os colegas/amigos do clube, da rua, algum parente, os colegas de trabalho e daí por diante. Matty preocupa-se também em saber se a amizade continuará igual a antes e Michael afirma que sim. Mas não é bem assim…

Ao voltar para casa, Michael soca o brownie, estraga a cobertura onde se podiam ver desenhos de seios e a frase “Congratulations on fucking” (algo como “Parabéns por fuderem”) e não atende ao telefonema de Matty, que deixa recado de voz reforçando esperar não haver mudança na amizade. Michael claramente sente-se incomodado com o fato de Matty ser gay, ainda que não saiba exatamente o motivo. No dia seguinte, apesar do incômodo inicial, Michael procura entender o que é ser gay pesquisando na internet.

Numa manifestação de que a rede de segurança de Matty já se alargou um pouco, Michael conversa com Em na escola, que demonstra estar a par da orientação sexual do ex-namorado, e lhe pergunta se deve dar um presente para Matty. Michael demonstra que, mesmo ainda confuso com a revelação do amigo, quer mostrar a ele que o aceita, ou que está procurando aceitá-lo: o presente seria o gesto pelo qual exprimiria esse sentimento de aceitação. Todavia, Michael diz a Em sentir estar “perdendo” Matty para o “lado gay” ([da força], numa alusão à franquia cinematográfica de “Guerra das Estrelas” [Star Wars]): a piada tem como pano de fundo a interpretação de que, à medida que Matty se torne cada vez mais gay, ele deixe de ser o mesmo Matty que Michael conhecera até então. A piada não é inofensiva: o “lado negro da força” (ou o “lado gay” como colocado aqui) é algo a ser evitado; Matty pode ser “salvo”. Michael está claramente confuso sobre como lidar com Matty.

Em outro momento, Michael confessa a Matty ter socado o brownie e ter estragado a cobertura, mas que já havia consertado e acrescentado “pintos e bundas” para Matty. O combinado não foi alterado: o brownie será a recompensa por perderem a virgindade até o baile de formatura. Mais do que isso, Michael está disposto a ajudar Matty a perder a virgindade e para isso o fará conhecer outros gays. O alvo serão os meninos do grupo de teatro e, ao mostrar um gay afeminado do grupo, Matty não gosta da ideia.

Decidido a ajudar o amigo Michael, leva-o a um bar gay onde conhecem Jared (Adam DiMarco), um gay hiperafeminado. Jared é o estereótipo não apenas do gay, mas do gay afeminado: branco, magro, jovem, com piercing na sobrancelha, roupa justa, camiseta regata rosa, andar rebolativo e saltitante. Matty, mais do que se mostrar não atraído por Jared, o olha com susto e com certo desagrado. Que fique claro, não se está dizendo não existirem gays afeminados como Jared, muito menos que sejam inferiores. Porém, é muito nítido que o personagem tem a função de servir como alívio cômico e mostrar o quanto Matty não se encaixa no “mundo gay”, ou seja, o quão “hétero” o gay Matty é. Jared aparecerá em outros momentos do filme, sempre surgindo de onde menos se espera, como se não devesse estar onde está e sempre assustando Matty e Michael.

Chama atenção o desenrolar da dispensa de Jared por Matty. A Michael Matty diz que não ficaria com Jared por causa do piercing e da camiseta rosa (“muito gay”), e Michael diz que isso é homofobia de Matty. Esse ponto não é desenvolvido e logo em seguida Michael pergunta a Matty qual o tipo que o atrai. Responde não saber ainda, mas todas as suas reações frente ao feminino em outros homens gays evidenciam querer se afastar de qualquer resquício de feminilidade.

Em momento algum do filme, Matty verbalizará palavras de ódio contra Jared ou outros gays afeminados; contudo, é nítido querer se colocar como um gay que não apenas não é afeminado, como não gosta de afeminados. Esse é um dos pontos mais interessantes do filme, porque acreditamos ensejar uma discussão maior do que heterossexualidade versus homossexualidade: o que está em jogo são padrões de homossexualidade dentro da própria “comunidade LGBT”. Quando esse assunto vem à baila, é mais do que comum se ouvir que ninguém tem a obrigação de se sentir atraído por um gay afeminado (ou uma lésbica masculinizada). Não se trata de “ser obrigado” e sim de como a não atração é exposta. Por exemplo, outros personagens gays poderiam ser apresentados a Matty a fim de que pudesse ele definir melhor o “seu tipo”. Ele reagiria a todos da mesma forma que com Jared? A afeminação poderia ser mostrada sem estar relacionada à comicidade (mesmo que o filme seja apresentado como uma comédia)? Matty não poderia recusar a investida de Jared sem fazer caretas?

Jared, além do que se disse, oferece “e” (numa alusão à “êxtase”) a Michael e Matty e pergunta a Matty, sem rodeios, se ele quer transar. Pode-se argumentar que a reação de Matty não é especificamente à afeminação de Jared, mas sim à oferta de drogas e de sexo. Matty não é tão puritano quanto às drogas, como já se viu e como se verá até o fim do filme. Quanto ao sexo, não vamos adiantar tanto o filme… Entretanto, podemos completar o quadro da caracterização de Jared: gays afeminados estão sempre disponíveis para sexo? Matty não apenas dispensa Jared como diz a Michael querer apenas tomar cerveja e não transar naquele momento.

Matty tem todo o direito de não querer transar com ninguém naquele ou em qualquer outro momento. Pode-se alegar que Matty está se descobrindo ainda e não quer tomar decisões apressadas, o que é válido. Acontece que a forma como essa descoberta paulatina é mostrada é sempre como reação contrária à afeminação. Ora, ele não poderia ter verbalizado querer ir com calma antes de conhecer Jared?

Antes que se diga estar “procurando pelo em ovo”, vendo problemas que não existem e tentando “reescrever” o roteiro, é preciso ter em mente que os apontamentos feitos aqui têm a intenção de mostrar como, num filme que não se propõe abertamente a levantar grandes questionamentos, se podem problematizar questões que, ao mesmo tempo que constroem e estruturam o filme, são relegadas a segundo plano ou mesmo desconsideradas. O intuito é gerar discussão e não ditar o roteiro “correto”. Esse é o motivo pelo qual este texto contém tantos spoilers, e questões técnicas, como enquadramento e fotografia, por exemplo, não sejam discutidas: não é uma crítica cinematográfica e sim uma visão sociológica, militante, sobre temas caros à “comunidade LGBT”, o meio escolhido para serem abordados é o da produção cinematográfica.

Assim, a reação de Matty pode ser entendida como “homofobia internalizada”, isto é, pertencer a certo grupo minoritário não exclui a possibilidade de ver esse grupo ou parcelas dele como inferiores. Não é apenas não se aceitar, mas entender que a existência do outro é menos digna do que a própria, que a sua é mais normal que a outra. O incômodo que Matty sente quando confrontado com a figura do gay afeminado é uma manifestação de “homofobia internalizada”. Mais uma vez, não é apenas um “não sentir-se atraído”, é uma indisposição, um mal-estar. É interessante a abordagem, mesmo que breve, da homofobia: é um alerta feito pelo amigo heterossexual e direcionado ao amigo homossexual. Não obstante, não há discussão alguma sobre o assunto.

Ainda no bar, Michael diz que Matty é sortudo, porque os gays podem transar a qualquer momento sem envolvimento emocional, o que acaba por revelar alguns estereótipos: homens (gays ou não) procuram sexo sem envolvimento, ao passo que mulheres procuram relacionamento; além disso, homens gays seriam mais sexualizados do que homens hétero. A resposta de Matty é sempre mais reveladora do que os questionamentos sugeridos por Michael: ele não vai “transar com qualquer um” apenas por ser gay, porque ele não é uma prostituta. Esse ponto requer um maior cuidado com a análise.

Primeiramente, o “qualquer um” refere-se a Jared, um gay afeminado, não a “qualquer um” “inocente”. Depois, a palavra utilizada por Matty: “whore” [prostituta(o)] não é dita à toa: comum de dois gêneros, é largamente mais utilizada ao se referir às mulheres e, mais do que se reportar às trabalhadoras sexuais, tem o sentido de “vagabunda”, “desqualificada”. Por sabermos que alcunhar um homem de “vagabundo” não tem o mesmo sentido quando a adjetivada é uma mulher, entendemos que Matty relaciona o “ser vagabunda/prostituta” aos gays afeminados. Não são os gays em geral que podem ser tidos como “whore”, senão os gays afeminados. “Whore” aqui equivale ao feminino.

Outro dia, outro bar gay. Ao contrário do anterior, este está mais cheio e é frequentado por um público diferente: basicamente homens brancos, magros/musculosos, sem camisa. Matty se pergunta se eles não sabem ser um clichê. Matty não se enquadra nesse perfil e talvez por isso veja os outros como “clichê”. O personagem se constrói por oposição aos vários estereótipos, mas sempre de modo a inferiorizá-los. Ele não apenas não se ajusta aos estereótipos, como precisa mostrar o seu desajustamento com palavras e atitudes que mostrem desconforto, aborrecimento por poder ser confundido com os indivíduos que se encontram dentro desses estereótipos.

Todavia, este bar possui uma área reservada em que só se pode entrar de cueca: é a sala da espuma. Após fazerem uso de uma “substância entorpecente”, oferecida por outro gay afeminado, Michael e Matty entram nus na sala da espuma, onde encontram Jared. Ora, se num primeiro momento Matty se mostra um tanto quanto puritano, noutro não hesita em ficar nu. Seria apenas o uso do “entorpecente”? Isso só teria ocorrido por não terem visto Jared antes de entrar na sala?

Na saída do bar, Matty se pergunta se ser gay é apenas frequentar bares gay e, mais uma vez, mostra que não cabe nessa moldura estereotipada do que é ser gay. É como se a todo o momento os estereótipos aparecessem como armadilhas para capturá-lo enquanto Matty se esquiva.

Voltando para casa, já sem a companhia de Michael, Matty vai à casa de Em, onde acabam transando. Na manhã seguinte, Matty diz a ela que, se ele tinha que transar com uma mulher, não poderia ser com outra que não ela, o que ela não recebe exatamente como um elogio.

Na saída do primeiro bar gay, Michael e Matty se envolvem em um pequeno acidente de trânsito com um motorista que estava chegando ao bar. Dias depois, Matty encontra o motorista, Greg (Zach Cregger), numa lanchonete e começa um flerte entre eles, que leva a um encontro posterior. O encontro se dá na plateia de um evento amador de luta livre/telecatch mexicano. Conforme Greg se mostra fã desse estilo de luta, Matty pergunta como Greg pode ser gay. Outra vez, mais um estereótipo em discussão: um gay que gosta de algo do chamado “universo masculino”. Matty entende não estar só no mundo: mais alguém é gay e não é afeminado. A reação de felicidade de Matty não é apenas por encontrar alguém parecido com ele, mas porque parecer com ele é o oposto de ser afeminado. Greg, um pouco mais velho que Matty, não demonstra a mesma necessidade de fuga do feminino. Outra prova de que Greg é mais parecido com Matty é quando este diz estar gostando do encontro, e Greg responde que arranjar alguém para transar é fácil, enquanto fazer amigos é mais difícil. De acordo com a construção dos personagens, podemos inquirir qual o motivo de Greg não procurar sexo fácil: maturidade (sexo é uma preocupação menor com o passar dos anos?; são outros sentimentos que tomam a frente da libido com o amadurecimento?), masculinidade (em oposição à afetação dos demais personagens que se ofereceram sexualmente a Matty), ou apenas uma disposição outra que não tenha relação com a maturidade e a suposta maior masculinidade? Por certo não é possível uma resposta definitiva quanto a Greg senão conjecturar.

Em outro momento, quando Michael e Matty já não se veem com a mesma frequência de outrora, Michael sai com Em e encontram Matty e Greg. Michael, ao ver Matty não apenas com outra pessoa, mas com o motorista que danificou o seu carro, discute com o amigo a ponto de confessar sentir falta dele quando este era heterossexual. Matty retruca nunca ter sido hétero. Revela ainda, estar se sentindo de certa forma sufocado com a insistência de Michael e não querer transar até o baile. Pouco tempo depois, os dois fazem as pazes, e Michael pergunta se Greg será aquele que fará Matty comer o brownie. Durante a conversa, Matty percebe o interesse de Michael por Em.

Michael descobre que Matty e Em transaram, fica bravo e pergunta a ela como isso pode ter acontecido se Matty é gay. Em retruca que não é apenas ele quem está se sentindo confuso e ouve como tréplica que ele não transaria com um homem gay. Novamente, a possibilidade de discussão da existência da bissexualidade como orientação sexual não é efetivada.

É quando Michael destrói o brownie e, bêbado e bravo, resolve entregar o doce para Matty na casa dele. Com a família do amigo reunida, Michael acaba revelando o que Matty lhe pedira segredo. Além disso, também conta que Matty transou com uma menina. Michael chama Matty de gay na frente da família e ouve que “gay” não é xingamento. Dwayne (Gary Cole), pai de Matty, diz que isso é “discutível”. Quando confrontado pelo pai se de fato é gay, Matty nega. A construção de Dwayne enquanto personagem é relevante: ainda no começo do filme, quando os amigos eram crianças e participavam de um musical na escola, Dwayne faz uma alusão rápida entre gays e musicais. Já com Matty adolescente, o pai presenteia a mãe, Patricia (Megan Mullally), com um eletrodoméstico e diz que, por mais que se diga o contrário hoje em dia, homens gostam de caminhões e mulheres de “coisas de cozinha”. Patricia, ao receber o presente se mostra entusiasmada e procura por receitas para estrear o presente. O pai é o típico homem machista conservador, o que não é mostrado com leveza, da mesma forma como a mãe é retratada como a típica dona de casa. Não seria de estranhar, dessarte, os padrões um tanto quanto rígidos de Matty quanto à masculinidade e feminilidade, podendo explicar a sua aversão aos gays afeminados e aos estereótipos que lhe são jogados ao longo do filme. Não se está justificando a sua homofobia internalizada, senão procurando mostrar que a construção desse personagem estaria alicerçada na dos pais. Sem obstáculos, esse é outro ponto que poderia gerar uma boa discussão sobre esses padrões conservadores e suas implicações, e o que não acontece.

Já na escola, Michael é confrontado por Em por ter “tirado Matty do armário” para a família sem saber o que isso de fato significa para Matty. Ao perceber o erro que cometeu, parece ficar claro que o filme é mais sobre como Michael lida com a revelação do amigo ser gay do que sobre a descoberta de Matty ou da amizade entre os dois. A chave para essa compreensão é o clichê de focar o personagem parado e assustado com a situação no meio do corredor da escola enquanto os demais alunos passam.

Sozinho, Michael volta ao primeiro bar gay, onde encontra Greg. Matty se afastou de Greg desde que Michael o expôs para a família. Greg conta para Michael como foi se assumir e como perdeu o melhor amigo por isso. Jared, de surpresa, também conta sua história. Michael se dá conta de que a situação é menos sobre ele e mais sobre Matty.

Já é época do baile de formatura. Matty está se preparando para ir acompanhado de Em, e Michael resolve ir com Greg na tentativa de fazer as pazes com Matty. Ao chegar com Greg, Michael recebe olhares de curiosidade e reprovação e tem mais noção do receio do amigo de se assumir. Todos se encontram e Matty não gosta de ver Michael e Greg. Michael resolve cantar uma música durante o baile, a mesma que cantou com Matty na peça de teatro da terceira série. Ouve-se ao fundo alguém gritar “gay”. Michael pergunta se o xingamento se refere à música ou a ele, e a mesma voz diz que a ele. É quando faz um discurso de que, apesar de ser hétero, não se ofende por ser chamado de gay e que não entende a palavra como xingamento, porque gays são pessoas que fazem sexo um pouco “diferente” das outras. Ele ter ido ao baile com outro homem não deve ter importância, porque não há relação entre ir acompanhado com alguém e a orientação sexual.

Ao longo do filme, o baile está umbilicalmente ligado à possibilidade de sexo: o pós-baile é o momento comumente chamado de “close the deal”, isto é, quando deve acontecer o sexo (quase sempre a perda da virgindade). Michael ter “percebido” que o baile não necessariamente tem a ver com sexo é o clichê da redenção, do aprendizado do(s) personagem(ns) principal(ais). Além do mais, dizer que gays apenas fazem sexo de forma “diferente” é uma clara tentativa de normalização de uma sexualidade diversa da heteronormativa. O ponto nevrálgico não versa sobre como é a relação sexual entre dois homens ou quaisquer indivíduos que fujam da heteronormatividade, mesmo porque não há regras fixas a não ser aquelas acordadas entre os indivíduos envolvidos no ato sexual. Ou seja, não importa como de fato seja, senão dizer que não há o que temer, porque seria muito parecido com o “sexo heterossexual”, seja lá o que isso signifique. É a norma heterossexual que serve para explicar o “sexo homossexual”, ainda que não o consiga inteiramente.

Já caminhando para o fim do filme, Ava, a ex-namorada de Michael, avista o novo namorado beijando outra menina. Ela os separa, beija o namorado e beija a garota. Outro personagem vê a cena e a qualifica de bizarra. Agora, mais do que a negação da possibilidade de existência da bissexualidade, é a inferiorização dela.

Os momentos finais são reservados, obviamente, para o “felizes para sempre”: Michael e Em fazem as pazes e se beijam; Matty e Greg fazem o mesmo; Michael e Matty se acertam e retomam a amizade: todos acabam comendo o brownie e festejam na sala da espuma do bar gay.

Alguns pontos merecem atenção: quando pela primeira vez Michael e Em encontram Matty e Greg, o encontro ocorre num local da cidade em que costumeiramente os adolescentes vão para se beijar e “ficar”. No momento em que Michael está se aproximando de Em para beijá-la pela primeira vez e vê Matty e Greg, estes estão “ficando” também. Porém, a câmera não foca em momento algum qualquer troca de carinho entre o casal gay. A câmera se aproxima do carro em que os meninos estão, de forma a focar apenas as costas de Matty, que sai do carro logo depois, seguido por Greg do outro lado. Sabe-se o que estava acontecendo por toda a contextualização da cena, mas os corpos não são mostrados próximos.

Se, ao longo do filme, outros casais heterossexuais e mesmo Matty e Em momentos antes de transarem são mostrados se beijando sem qualquer restrição, o único beijo entre um casal gay só é mostrado a poucos minutos do final e timidamente, com um “selinho”. O beijo de Ava na menina no baile é mostrado possivelmente porque é um beijo entre mulheres, o que no imaginário masculino heterossexual estereotipado é motivo de excitação, e porque ajuda a construir a imagem de Ava como volúvel. Isto porque Michael acreditava que eles não transavam porque ela seria recatada, o que é paulatinamente negado durante o desenrolar da história: primeiro por Em, que lhe conta que Ava não só o traia com outros meninos, como transava com os outros; depois, com Michael a flagrando em diferentes momentos na escola beijando outros meninos. Daí que o beijo no baile seja o ápice da pichação de Ava.

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Muitos, senão todos, os momentos questionados aqui podem entrar na conta de o período da adolescência ser aquele em que as descobertas são feitas e que os erros cometidos são perfeitamente passíveis de correção na vida adulta. Não negamos. Todos cometemos erros e, ao olharmos para o nosso tempo de adolescência/juventude, podemos enxergar atitudes deixadas no passado. Mas não estamos falando exatamente disso.

Devemos lembrar que o foco é o filme, algo que leva tempo para ser produzido e passa por revisões, edições constantes. Há um público-alvo a ser atingido e uma mensagem pensada a ser transmitida. Resumidamente, a mensagem é a de dois amigos que têm que aprender a conviver quando um deles se assume gay. Os dois estão tentando entender, cada um a seu modo, o que é ser gay e o quanto isso pode abalar a amizade. Os outros personagens existem na medida em que os ajudam a perceber isso. Como se disse mais no começo, filmes cuja temática seja a da perda da virgindade/peripécias sexuais na passagem do Ensino Médio pro Ensino Superior não são incomuns na filmografia estadunidense. É possível mesmo dizer que sejam um filão à parte e que contem até com alguns “clássicos” do gênero. “Saindo do Armário” é dos poucos (senão o único até agora) em que um dos personagens principais é gay, o que traz novos contornos a uma fórmula já consagrada.

Há mais personagens gays neste filme do que naqueles em que os protagonistas são marcadamente heterossexuais. No entanto, o binômio masculino/feminino continua evidente e não há qualquer problematização a respeito. Masculino e feminino são apresentados como categorias a priori e, por isso, imutáveis. O que foge à norma – no caso qualquer resquício de feminilidade dos vários personagens gay – é rechaçado. Matty é um personagem que, por acaso, é gay. Os gays afeminados, até mesmo por não serem protagonistas, não têm nuances: carregam todo o pacote da afetação. Matty é a negação da afetação.

As mulheres não são seres humanos autônomos: são o meio pelo qual Michael acredita que ele e Matty perderão a virgindade. Quando em determinado momento Michael se arrepende de ter terminado o namoro com Ava, o arrependimento se dá não porque ele nutre sentimentos por ela, mas porque ela é, em suas palavras, “gostosa”. Não há qualquer “valorização da pessoa construída ao redor daquele buraco”, como ele se refere a ela no início. Em é uma mulher entre dois homens. Ex-namorada de um e interesse do outro, transa com o ex quando ele já se entende gay e antes de se envolver com o amigo do ex. É ela quem vai puxar Michael pra realidade que Matty está enfrentando. É ela quem vai ao baile com o ex ajudando-o a se passar por hétero para a família. A sua existência serve para fazer os protagonistas, homens, crescerem e se entenderem.

Se é verdade que filmes em geral, ainda mais os voltados a adolescentes, se apoiem em estereótipos, é verdade também que esses estereótipos podem e devem ser problematizados, porque não são ideologicamente neutros. Todos eles são eivados de significados e é perfeitamente cabível que procuremos por eles, por mais escondidos que possam estar. O discurso segundo o qual esse estilo de filme inicialmente classificado de “sessão da tarde/cinema em casa” serve apenas para distrair e não para inculcar valores não é um discurso neutro. A fórmula é mais simples do que parece e muito eficiente: ao dizer que não se quer discutir valores, o espectador baixa a guarda e é soterrado por eles. Muitas vezes até mesmo aqueles envolvidos na sua produção o são. Esses valores não são criados pela equipe de produção e não são exclusivos dessa ou daquela história. São valores correntes na sociedade e de que alguns se utilizam, até sem se dar conta do que de fato significam, para gerar não apenas um produto, mas lucro.

Por fim, apesar do que possa parecer, a intenção desse texto não é enxovalhar o filme. Ao contrário, é importante que se utilizem fórmulas já conhecidas e se as modifiquem, por pouco que seja, introduzindo, por exemplo, um pouco da temática LGBT. Em momento algum,[1]  o filme se propõe a discutir todas as identidades abarcadas na sigla. Sigla essa que, diga-se de passagem, está sempre se expandindo, o que pode ser assunto para textos futuros. O filme é bem modesto no que pretende inovar: a homossexualidade abordada é a masculina e dentro de um espectro bem delimitado. Pode ser um passo importante para a feitura de outros filmes dessa temática, de forma a abordar a diversidade sexual de uma maneira mais propositiva.