É fora de hora e de contexto a atual motivação para “sair do quadrado”. Há uma pressão para pensar diferente e provocar mudanças internas. Mas não é a figura geométrica mais apropriada para o atual momento brasileiro, a não ser que a saída do quadrado ou da caixa seja por vias indiretas.

Primeiramente (Fora Temer), o país vive um retrocesso de valores e direitos. Menos espaçoso do que um quadrado é o triângulo, que foi resgatado por meio do conceito da Pirâmide de Maslow. Milhões de brasileiros estão sendo obrigados a entrar nessa pirâmide. Muitos já despencam dos degraus do topo e caem na base.

Necessidades anteriormente supridas na hierarquia de Maslow, como a realização e a autoestima, estão sendo violadas pela redução de direitos constitucionais. Muitos retornaram ou passam a conhecer a opressora necessidade de segurança. A regra é apenas sobreviver e economizar a vida o máximo possível. Talvez com aposentadoria depois dos 70.  Já a maior agressão está no enfrentamento diário das necessidades fisiológicas básicas: comida, casa, saúde. Começa um holocausto silencioso.

Na escala de prioridades de Maslow, em terceiro lugar estão as necessidades sociais, que passam pelos relacionamentos. Surgiu no Brasil um ódio social até então nunca vivenciado. Diferentes visões politicas, radicalismo religioso, questão de gêneros, voz das minorias e diversidades gerais dividem e rotulam pessoas. É como se houvesse apenas duas opções. Querem saber quem é coxinha e pão com mortadela. Até os vegetarianos têm que optar e comer uma dessas duas opções.

Em tese, as minorias não devem ter vez e voz. Por contradição, mais da metade da população do mundo é de orientais, mas é o Ocidente quem dita regras. No Brasil, mulheres e negros são maioria, mas a maioria deles está em desvantagem social. Aliás, negros não sabem se perderam ou ganharam com uma pesquisa de pouca valia. Quase 2% da população mundial, e somente pessoas brancas, tem olhos verdes. Agora está explicado. Parte da crise ambiental vem de poucos olhares verdes.

Voltando às figuras geométricas, simbolicamente os homens preferem retângulo horizontal, que lembram campos de futebol, quadras esportivas. Se for acrescentada uma sexta hierarquia na Pirâmide de Maslow, a necessidade de autonomia, o triângulo pode ser transformado em uma mesa sinuca, com uma necessidade em cada caçapa. Sem hierarquia, em um mesmo dia e horário, o brasileiro poderá sentir necessidade de segurança, fome, autoestima e realização. Característica de povo colonizado e alegre.

Bola lembra círculo, que é a figura mais apropriada para representar algumas lutas por direitos e igualdades que não têm a pretensão de reinventar a roda. O círculo é o símbolo da espiritualidade, da perfeição, remete à lua, ao sol, ao planeta terra. Alguns movimentos circulares, como o LGBT, se tornaram sólidos e maiores como uma bola de neve. Outros são frágeis como bolha de sabão.

Entrar no círculo e num hexágono são formas indiretas de sair do quadrado. Porém, esta figura exige pensar e agir coletivamente. Um hexágono unido a vários outros forma uma colmeia. Pode crescer para cima e para os lados. É também a representação do cooperativismo, um dos maiores geradores de trabalho e renda do mundo.

Outra figura em evidência sugere e também condena que homens e mulheres saiam do armário (retângulo vertical). Pelo prisma de um pastor, certas uniões e felicidade são crimes. Por isso mesmo, ele defende a figura geométrica do trapézio, com seus lados opostos, comprimentos distintos e coisas assim. Casais com muita necessidade de segurança e sociabilidade se apegam nesse medo e levam a vida “na desordem do armário embutido. Meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato inda pisa no teu.” É melhor do que ser pisado pela sociedade.

Sair do armário também é sair do quadrado. Pode ser libertador, mas sem garantias de felicidade. Cazuza conclui: “Você me ama ao cubo, eu te amo ao quadrado. Não posso dar menos do que você merece!” O Brasil de hoje dá aos  brasileiros muito menos do que eles merecem.