O sistema de cuidados em saúde de um país revela as principais intenções de seu projeto político, econômico e social- supondo que estas instâncias possam ser separadas.

Neste e noutros casos, os índices de direitos sociais de Cuba surpreendem. Qualquer olhar mais ou menos superficial lançado para Cuba revela que esta valente ilha, plena de ambiguidades, obteve conquistas importantes e inéditas.

Conquistas que muito têm a nos ensinar. Conquistas que devem ser invejadas, principalmente na área dos cuidados em saúde e de sua técnica-comandante: a Medicina.

Não raro nos deparamos com alguma importante “descoberta” empreendida pela medicina cubana. Recentemente, uma equipe de virologistas da pequena grandiosa ilha presenteou o mundo com uma bela notícia: foram capazes de eliminar a transmissão do complexo vírus HIV de mãe para filho. Meses antes, outra equipe havia detectado uma nova e perigosa cepa do mesmo vírus, ampliando o conhecimento sobre a doença. Ainda pouco antes, anunciaram uma grande esperança: resultados promissores sobre uma vacina -associada a imunomoduladores -para o câncer de pulmão, sem toxicidade. Uma vacina que, talvez, consolide um novo paradigma que permitirá muitas curas e o combate à covarde indústria – anticientífica e pró-lobbies- que comanda os protocolos de tratamentos contra o câncer.

É, caros leitores e leitoras:  esta lista, felizmente, é longa! E esperamos que a lista aumente na mesma proporção que o diálogo entre equipes de todo o mundo se intensifique.

Mas nada disso deveria ser comemorado não fosse o principal aspecto da Saúde cubana: o acesso universal e igualitário. Da formação em Medicina – e outras disciplinas- aos atendimentos, tudo é gratuito. Apesar dos recursos limitados, todos os(as) habitantes têm seu médico(a) de família e acesso ao que for necessário. Elucidativo o  assombro de uma das revistas médicas mais importantes do mundo, A New Ingland Journal of Medicine, que afirmou que este é um sistema que parece irreal.

Dada a doutrina conformista que nos rege, parece mesmo irreal.

Façamos um exercício comparativo: quando alguma inovação deste tipo chega ao Brasil, chega para quem? Para todos? Se não inclusa de imediato no SUS- ou mesmo na maior parte dos planos de saúde- é algo possível de ser pago particularmente?

Atentemos para um aspecto perverso de nosso sistema: há tratamentos que chegam aos milhões de reais, quantia absurda que deve ser disponibilizada de imediato ou então nada feito! Morre-se com uma possibilidade negada e se culpa ou se lamenta a falta de recursos do indivíduo.

Portanto, a resposta é não. A desigualdade de acesso aos tratamentos no Brasil beira a barbárie do neoeugenismo, que propunha- e propõe- negar aos mais vulneráveis economicamente aquilo que hoje chamamos de direitos civis.

No nosso sistema falta acesso e sobra cinismo.

Cuba, apesar dos pesares, nos ensina outro caminho.

Há de se considerar contrapontos. O principal é a repressão praticada nestas últimas décadas. Houve mortes físicas e mortes sociais com as prisões daqueles considerados inimigos do sistema. Mas o que dizer de um regime que se revela autoritário, mas não parou de sofrer constantes ameaças até “ontem”? O comando cubano pode ter errado com delírios autoritários, mas, infelizmente, estes não foram desproporcionais ao erros daqueles que arquitetaram sem cessar a destruição da economia da ilha; bem como desqualificaram seu sofrimento e sua cultura.

Finalizo este artigo enquanto acompanho as notícias e opiniões sobre a morte de Fidel pela imprensa internacional, já que a nossa imprensa hegemônica, de efeitos psiquicamente insalubres, deve ser tacitamente ignorada em prol, bem, em prol do nós mesmos. É nítido o quanto a história recente de Cuba não permite ser encarada com olhos apaixonados, daqueles incapazes de encarar contradições. Por sorte, parece que há muitos dispostos a enxergar.

Talvez o ensinamento cubano tenha tido maior alcance e poder transformador do que imaginamos.

Talvez tenhamos aprendido uma bela lição contra a subserviência, invejando a justiça social que, ao fim, opera a nosso favor.

Talvez estejamos percebendo que estamos carentes do humanitarismo expresso na medicina cubana.

Talvez o socialismo persista, acima de tudo, como um sentimento de indignação. Neste sentido, talvez esta morte seja, também, um renascimento.

Imagem: progresoweekly.us