Se tem algo que marcou profundamente a história no mundo ibérico, do século XVI, mais precisamente de 1580 para cá, foi a ideia do Sebastianismo. Esta crença de que o rei de Portugal, D. Sebastião, desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir, um dia ressurgiria e construiria o Quinto Império. Uma nova era na história da humanidade de paz e prosperidade, liderada obviamente pelos portugueses, ou, conforme a interpretação, pelos brasileiros.

O fato é que toda esta promessa de um futuro melhor está necessariamente ligada à chegada de um messias, um salvador. Em outras palavras, não precisamos fazer nada, basta esperarmos a chegada de D. Sebastião, ou de alguém que seja a sua “reencarnação” e tudo vai se resolver naturalmente.

Nos últimos quatrocentos e poucos anos, foram muitos os casos daqueles que alegaram perceber a chegada ou a volta iminente do “encoberto”, de D. Sebastião. Padre Antônio Vieira escreveu sermões e mais sermões sobre o assunto, Antônio Conselheiro e seus seguidores de Canudos acreditavam que a qualquer momento o rei desaparecido reapareceria no sertão.

Esta crença ficou tão arraigada na mentalidade luso-brasileira, que muitos foram os líderes políticos que se aproveitaram disso, se autodefinindo como os salvadores, portadores de uma nova era, com discursos mais ou menos messiânicos, mas ainda sim com traços do sebastianismo ancestral. D. Pedro II e Getúlio Vargas no Brasil e Salazar em Portugal são alguns dos nomes mais emblemáticos desta prática, mas não são os únicos. No caso brasileiro especificamente, ainda  existem aqueles que, de tempos em tempos, se pintam de D. Sebastião, resultando em uma prática política extremamente personalista em que a população é incapaz de seguir correntes ideológicas consistentes, restando apenas um culto à figura de um líder político popular. Mesmo em pleno século XXI, seja à esquerda ou à direita, esta prática permanece, as discussões políticas se baseiam muito mais em nomes e nas imagens construídas dos candidatos, em suas auras redentoras, do que em seus projetos propriamente ditos. É o caso de praticamente todos os nomes cotados nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2018 e do modus operandi das pré-campanhas eleitorais ensaiadas nas redes sociais. Todos candidatos se apresentam como os “escolhidos”, os “messias”, os únicos capazes por força de suas capacidades de nos tirar do atoleiro em que nos encontramos.

Tamanha a herança do sebastianismo em nossa cultura, que até mesmo no futebol ele aparece. A seleção brasileira, humilhada pelo 7 x 1, com campanha pífia nas eliminatórias, ressurge das cinzas com uma sequência fantástica de vitórias e garante a vaga antecipada para a Copa. Para a maioria da torcida e da imprensa especializada, essa recuperação foi fruto do trabalho de um grande redentor, o técnico da seleção, Tite.

Tite ganha ares de D. Sebastião, e a certeza de que ele possui dons superiores é tão certa para muitos, que em pesquisa realizada na última semana, o técnico da seleção brasileira aparece com 15% das intenções de voto, caso ele se candidatasse à presidência da república em 2018. Ou seja, surge então a estranha ideia, estranha mas coerente dentro de uma linha de pensamento messiânico, de que, se Tite salvou a seleção, a pátria em chuteiras, ele será fatalmente capaz de salvar a pátria propriamente dita.

Mas as coisas não são tão simples assim e o cenário negativo em nosso país persiste.   Cruzamos os braços, fingimos não ver ou entender o que está acontecendo, e usando um termo tristemente da moda, continuamos a terceirizar os nossos problemas, esperando eternamente que um D. Sebastião qualquer retorne e nos salve magicamente desta enrascada, assim como Tite fez com a seleção.