Sérgio Buarque de Holanda, em 1936, no seu “Raízes do Brasil”, afirmava que somos “uns desterrados em nossa terra” e que “todo fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.” A lembrança destas frases me veio por conta da notícia divulgada esta semana sobre mudanças no calendário e na  forma de disputa da Taça Libertadores da América, já para a o ano de 2017.

Dentre as várias transformações pelas quais o torneio continental deve passar, a que chama mais atenção é o fato de a final passar a ser disputada em um jogo único e em campo neutro, a exemplo do acontece com os torneios europeus, como a Champions League e a Liga Europa.

A justificativa para esta mudança seria que assim estaríamos nos adequando a um sistema mais justo de disputa e mais próximo dos europeus e, por consequência, melhor.

Sinceramente não sei o que é pior, a justificativa ou a ideia da final única em si. Na dúvida, vou pelo empate técnico.

A ideia de se acabar com a final de dois jogos, no sistema de mata-mata, é no mínimo um ato de profunda alienação por parte dos dirigentes da Conmebol. Como fazer uma final em jogo único em um campeonato disputado por equipes de todos os países da América do Sul e do México? As distâncias aqui são muito maiores que as da Europa, isso sem falar que os meios de transporte por aqui são bem mais escassos (e caros) e o poder aquisitivo de um torcedor médio europeu é muito maior do que o do torcedor médio desta parte do mundo.

Outra coisa, imaginem o quão atrativas seriam para os públicos locais as finais disputadas em campo neutro. Dá para imaginar o “sucesso” de público e renda que teria sido a final de 2016 entre Independiente del Valle, do Equador, contra o Atlético Nacional, da Colômbia, caso ela tivesse sido disputada, por exemplo, em Brasília? Ou a de 2013, entre Atlético Mineiro e Olímpia, do Paraguai, sendo jogada em Medellín? Ridículo.

Isto sem falar na justificativa bisonha utilizada pelos dirigentes, que como bons membros de uma elite de mentalidade colonizada, concluem: se é bom na Europa, deve ser obrigatoriamente bom aqui.

Mas foi por conta desta justificativa que me lembrei de Sérgio Buarque. A elite brasileira, e toda a latino-americana por tabela, nunca se viu muito à vontade por estas bandas. Sempre com um ar de desterro, enfiando ideias fora do lugar na goela do pessoal da parte de baixo da tabela da sociedade. Ou seja, a cabeça na Europa e alhures, o corpo, e todo resto, para o nosso azar, aqui.

Não quero, contudo, ao criticar esta mudança de formato da Libertadores, dizer que o  torneio sul-americano está perfeito do jeito que está e que nada precisa ser modificado. Ou que a organização da Champions não deva servir de exemplo. De modo nenhum. Urgem mudanças no campeonato, tais como as questões da violência entre torcidas, os recorrentes problemas de arbitragem e as baixíssimas premiações pagas pela Conmebol aos clubes.

O que quero mostrar aqui é o fato de que esta final com jogo único em campo neutro evidencia um certo pensamento alienado, recorrente em nossas classes dirigentes, e que pode levar à ruína um dos campeonatos mais moralizadores e tradicionais do futebol mundial, além de torná-lo muito chato. Sempre tentando copiar o que vem de fora, principalmente se for ruim, e ignorando o que se tem por aqui, a elite latino-americana, sentindo-se desterrada em sua própria terra, mais uma vez quer criar algo que é de outro clima e de outra paisagem, passando por cima de quem for.  Mas não dá, aqui é “Liberta”! A Bombonera não é o Emirates (é muito melhor).