Não sou filiado a nenhum partido político. Em 2014, não votei em Dilma no primeiro turno. Por que não?

Porque, nos últimos tempos, o PT se afastou um tanto dos ideais genuinamente de esquerda, nos quais eu acredito. Evidente que é preciso saber “jogar” na política. Evidente que, num sistema de coalizão, é preciso fazer alianças pela tal “governabilidade”. Mas eu pergunto: a qualquer custo? O PMDB é um partido fisiológico por excelência: agrega-se com quem está mais forte num determinado contexto. O PT acreditou que só se unindo ao PMDB poderia governar. Equivocou-se. Aliás, este não foi o único erro do PT. Longe disso. Baluarte da moral nos anos 90, O PT, de certa forma, corrompeu-se. Equivocou-se em algumas medidas econômicas. Equivocou-se em pautar suas políticas no poder de consumo e transformar as pessoas em consumidores em vez de cidadãos críticos. Equivocou-se em inúmeros pontos.

Por outro lado, é inegável que o PT transformou radicalmente o Brasil: tirou da fome milhões de pessoas, deu a possibilidade de os mais pobres adquirirem bens básicos e moradia, levou saneamento e eletricidade para os sertões e favelas, baixou significativamente a mortalidade infantil. E deu passos fundamentais na educação. Dois dados: a taxa de analfabetismo funcional, que em 2001 era de 28%, baixou para 18% em 2015. O número de matrículas no ensino básico cresceu 32% de 2002 a 2014.

Se há coisas “negativas” e “positivas” no governo petista, por que ele foi derrubado? Não é tão simples de responder: há várias camadas interpretativas que se cruzam num emaranhado de perspectivas. Então, aqui, entra a minha visão: Dilma não conseguiu aprovar medidas importantes porque, em seu segundo mandato, de certa forma, houve um boicote do Legislativo. Se não há aprovação legislativa, não há implementação. Se não há implementação, não há mudanças efetivas.

O Impeachment vem sendo costurado desde o final de 2014, quando os derrotados não aceitaram o resultado das eleições. E, agora, encontraram pretextos para o Golpe. Mas tudo não foi feito nos rigores da lei? Sim, mas lei não é sinônimo de justiça. A escravidão, por muitos anos, foi legal. Hitler subiu ao poder de modo legal. Houve um golpe. Um golpe parlamentar, travestido de legalidade. É simples de entender: a presidente estava sendo julgada única e exclusivamente por Crime de Responsabilidade, o que foi chamado de “pedaladas fiscais”. Contudo, o alicerce jurídico desta tese é muito frágil. Primeiro: se ela cometeu crime, seus antecessores também o fizeram e, nem por isso, foram destituídos de seus cargos. Segundo: o próprio Ministério Público Federal conclui que não houve Crime de Responsabilidade. Terceiro: um dos senadores, que votou a favor do Impeachment, numa entrevista concedida minutos depois da votação, confessou que Dilma não cometeu crime algum, mas que ele votou a favor de sua saída porque ela não teria a mínima “governabilidade”. E ele tem razão. Mas a questão é: se Dilma é inocente, houve um golpe. No sistema presidencialista, descontentamento com o governo ou discordância quanto a medidas econômicas não são fatores suficientes para derrubar um presidente.

Óbvio que não podemos cair num maniqueísmo barato: a continuação de Dilma não seria a solução para o Brasil; tampouco seria sua derrocada. O que é preciso analisar é que a população foi “inflamada” a pedir a saída do representante máximo do executivo federal, sendo que grande parte dos políticos que julgaram a presidente está atolada em ilegalidades. Só com esse dado, podemos deduzir que o problema não está exclusivamente no partido A ou B, mas na estrutura política do Brasil.

Agora, não é lícito também cairmos num relativismo que nivela os agentes políticos ou os ideais políticos. Quem votou em Dilma em 2014, votou num plano de governo. E, se analisarmos como Temer compôs sua equipe e o que tem sido feito em seu governo, chegamos a uma conclusão simples: houve uma guinada de 180 graus. Uma mudança abrupta. Uma ruptura. E não foi essa a agenda escolhida nas urnas pela maioria dos brasileiros, com 54 milhões de votos. Não foi essa a agenda que a Democracia preferiu. Portanto, sim, foi golpe.