O conceito de liquidez vem sendo discutido há bastante tempo. Marx e Engels o fizeram no Manifesto do partido comunista, publicado em 1948. Mashall Berman, valendo-se de uma frase do livro citado anteriormente, também o fez em seu Tudo que é sólido desmancha no ar, publicado em 1986.

No entanto, a expressão liquidez foi consolidada e amplificada por Bauman. A sentença serviu para definir uma sociedade frágil, que tem dificuldades em firmar laços sólidos e, em razão da falta destes, estabelecer relações concretas com o conjunto de situações definidas por uma estrutura social, como regras, lutas e sistemas simbólicos, políticos e econômicos.

Sempre existiu uma carência intelectual na humanidade independentemente do tempo e da sociedade. As pessoas, de modo geral, sempre transferiram a capacidade – e o privilégio – de pensar para os outros. Ora para pessoas comuns, ora para reis, papas, dogmas e até mesmo para deuses.

Francis Bacon, ainda no início do século XVII, criticou esse sistema em que os mais diversos ídolos serviam, em primeira e última instância, para impedir a reflexão. Sempre foi muito mais cômodo – e seguro, diga-se de passagem – substituir a responsabilidade dos pensamentos para outrem.

O engraçado é que na pós-modernidade, ou atualidade, para fugir de rótulos, houve uma inversão do uso desses ídolos. Se antes eles eram usados para evitar o raciocínio e suas consequências morais, no tempo de diluição de fronteiras em que vivemos, eles passaram a ser usados para corroborar nossa mais rasa opinião. Tudo serve para absolutamente qualquer coisa.

Num passado não tão distante, quando as pessoas queriam saber como deveriam pensar, comportar ou agir, bastava perguntar para o seu ídolo de esquina ou de porta de boteco. Bastava virar sua face mais sequiosa de respostas na direção de gurus, rabinos, pastores, jesuses, alás, budas, entre tantos outros, que estes lhe diriam que caminho seguir.

Hoje, diante da individualização de uma sociedade líquida, primeiro as pessoas decidem o que é melhor para elas, o que atende com mais segurança a seus mais egoísticos interesses, depois escolhem aquele, ou aquilo, que lhes dará amparo. Não é necessário nem inteligência nem criatividade para fazê-lo.

Os demasiados homens variam citações que vão de Einstein a Jim Carrey; de Vitor Hugo a Valesca Popozuda. Muitas vezes, elas estão completamente erradas e colocadas fora de contexto. Outras são apenas creditadas a autores diferentes. Mas quem se importa, não é mesmo?

De todas as fontes escolhidas a de que mais gosto é a bíblia. Tanto suas antigas fábulas quanto as passagens que se referem a um de seus profetas preferidos, o comunista jesus, oferecem suporte para todos os gostos – e necessidades. Na era da volatilidade de conceitos, o cliente tem sempre a preferência – e o direito da customização.

Bateu na mulher e está arrependido? “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete.” (Mt 18: 21 – 22)

A vizinha falou mal de sua mãe e você está puto? “Então assim os trata­rei: eu trarei sobre vocês pavor repentino, doenças e febre que tirarão a sua visão e definharão a sua vida. Vocês semearão inutilmente, porque os seus inimigos comerão as suas sementes.” (Lv 26, 16)

Botou chifre na namorada e os colegas da faculdade estão o criticando? “Não julgueis para não ser julgados.” (Mt 7: 1)

Perdeu o emprego porque chegou atrasado e está aflito? “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo.” (Sl 22: 4)

No mundo líquido em que vivemos, o que menos importa é o conhecimento. A opinião pessoal é o berço e o túmulo de qualquer discussão. Em último caso, quando a minha opinião não mais se sustentar – e ela nunca se sustenta –, até gesuis pode me salvar.

“Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido.” (Lc19:10)