Ultrassom feito. Papai orgulhoso: meu meninão… Vai arrasar com as gatinhas. Nasceu. Lindo, forte e sacudo. Mal começou a falar e já faz o maior sucesso. Que pirocão enorme. É o terror do colégio, as meninas piram. Mãe, ele tentou agarrar a Joana à força hoje, quando viu que ela não gostou a empurrou longe. Mãe, ele vive brigando e fingindo que vai bater nas meninas. Só nas meninas? Só nas meninas. Não chora não, moleque, larga de ser mariquinha. Medo é coisa de menininha ingênua, filhão, você vai virar um homem, não tem que ficar com medinho dessas bobeiras. Ele é só um menino, qualquer garoto faz essas palhaçadas. Esse não, escolhe outro, você não é mulherzinha pra gostar de rosa. Primeira balada, hein, rapaz, curte lá e pega geral, essa fase passa rápido. Meu filho é o maior pegador. Você estava bêbado, ela vai ser obrigada a te entender. Olha aquela gostosa, filho. Quer que eu descole ela pra você? A gente paga. Não deixa a sua irmã saber. Agarrei mesmo, ela estava provocando. Mulher minha não sai pra curtir com os amigos machos sem mim, não. Bêbada e dançando com geral, que vagabunda. Isso não é mulher pra casar. Como e vazo mermo, parceiro, tô nem aí. A mulherada gama em homem que não dá moral. Dá ou desce? Insiste que isso é charme. Fiu-fiu. Olha aquela sainha, essa tá pedindo, hein. Mereceu. Quem manda não se dar o valor? Foi o instinto, mano, sabe como é, não dá pra conter. Abre o whats aí, amigão, vou te mandar os nudes da gostosa de ontem, dá que parece uma máquina. A gente é meio violento por natureza mesmo. Se dê ao respeito. Mentirosa, quer acabar com a reputação dele, que é um homem bom. Uns agarrões não é nada. Não, Beatriz, o seu irmão pode porque ele é homem, você não. Defendendo vagabunda. Feminazi. Mal-amada. Só podia ser mulher! Vai lavar uma louça. Tá precisando de uma rola. Isso é mimimi de mal-comida. Não existe cultura do estupro.

paula 13a

O Rapto de Europa (1559 – 1562) de Tiziano Vecellio (Titan), pintor italiano do século XVI e um dos principais nomes do Renascimento.

Júpiter é o deus dos deuses e dos homens, o mais poderoso dentre todos eles. É a versão romana de Zeus, o grego. Júpiter apaixona-se por Europa (princesa, filha do rei da Fenícia) e vive determinado a possuí-la. Conhecido por jamais aparecer diante de suas eleitas em sua forma natural, Júpiter metamorfoseia-se num belo touro branco e desce a Terra. Por ser belo, dócil e se destacar do rebanho, Europa fica encantada com o animal. Enquanto as amigas banham-se no mar, a princesa diverte-se com o animal na areia e monta nele, que passeia com ela a trotes mansos. Ao perceber a aproximação das amigas da moça, Júpiter se enfurece e galopa ferozmente com Europa mar adentro, deixando as suas amigas na areia e distanciando-se cada vez mais. A princesa se desespera, clama por socorro e invoca a proteção de Netuno. Júpiter foge com ela para a ilha de Creta, onde, retomando sua forma original, a estupra e engravida.

O estupro de mulheres humanas por deuses e semideuses é costumeiro, uma constante na mitologia e na história das religiões, sendo visto como uma honra para a mulher ser possuída por um ente divino sem seu consentimento. Os gregos Zeus (Deus dos deuses e dos homens) e Pã (o Deus dos bosques), o romano Marte (Deus da guerra), o hindu Shiva (“O Destruidor” amável e benevolente), entre muitos outros deuses e semideuses (seja no oriente ou no ocidente, seja em religiões cristãs ou pagãs), copularam com mulheres sem seu consentimento. Adequando a linguagem para os dias atuais, não há outro termo senão esse: estupro.

É o que esclarece a psicóloga americana Valerie Tarico, em seu artigo “Why rape is so intrinsic to religion” (“Porque o estupro é tão intrínseco à religião), no qual afirma ser tal cultura tão institucionalizada que tem raízes na pré-história, mas se firma a partir da Idade do Ferro, no segundo milênio antes de Cristo. Valerie explica como, desde sempre, o valor da mulher foi pautado por sua capacidade de dar continuidade às linhagens sanguíneas estimadas pelos homens. O que chegava, segundo a autora, a ser uma obsessão na tradição hebreia. Os homens na História sempre detiveram o poder sobre crianças, escravos, gados e mulheres, considerados seus bens pessoais. Em uma sociedade que trata a sexualidade feminina como posse masculina, afirma a psicóloga, “o único consentimento que não pode ser violado é o consentimento do proprietário da mulher, o homem que detém os direitos sobre sua capacidade reprodutiva – tradicionalmente seu pai, noivo ou esposo”. Ela ressalta casos em que homens influentes desconsideram a vontade feminina por estarem convencidos de suas características divinas, logo, seu objeto de desejo tem a obrigação de desejá-lo. E se não desejar, tudo bem, porque “quando um deus quer uma mulher, o consentimento realmente não faz parte da história”.

Em outro artigo, denominado “What the Bible says about rape and rape babies” (“O que a bíblia diz sobre estupro e estupro de bebês”) Valerie esclarece que não há na Bíblia menção alguma que mostre ser desejável ou necessário por parte do homem obter o consentimento da mulher para se ter sexo com ela, tampouco algo que dê à mulher o direito de escolha sobre ter ou não um filho (se pararmos para analisar, nem mesmo Maria escolheu ser mãe de Jesus, apesar de ter aceitado de bom grado tal condição. Quando da anunciação, a notícia é dada de modo imperativo, como algo já determinado, que não se pode contestar). O que acaba por legitimar a ferrenha oposição de religiosos conservadores em relação ao aborto, já que a concepção de que fetos originados do estupro fazem parte das intenções de Deus – o criador do bem e do mal – é absolutamente bíblica. O sexo forçado é considerado repreensível apenas quando ocorre fora dos acordos contratuais de um homem com outro homem. “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo ou serva, seu boi, ou jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.” (Êxodo 20:17). Ou seja, não cobiçarás a honra do teu próximo, e só e somente por isso não cobiçarás tua mulher.

A cultura do estupro não só existe como é a expressão da legitimidade desse sentimento de poder, domínio e superioridade. São séculos e mais séculos de institucionalidade; provavelmente serão necessários mais alguns para desconstruí-la. Ou não. Quem sabe?! O primeiro passo está dado: aumenta cada vez mais o número de pessoas capazes de compreender que a discussão acerca da igualdade de gêneros não se refere exclusivamente às mulheres, mas a todos nós.

Leia outros artigos da autora relacionados ao assunto:

Children as Chattel – The Common Root os Religious Child Abuse and the Pro-Life Movement (“Crianças como bens – A raiz comum do abuso infantil religioso e o movimento pela vida”)

Stop Saying that Raped Woman are Damaged for Life. Just Stop” (“Pare de dizer que mulheres violadas são danificadas pela vida. Apenas pare”)

15 Bible Texts Reveal Why ‘God´s Own Party’ Keeps Demeaning Women” (“15 textos bíblicos revelam porque o “próprio partido de Deus” mantém as mulheres humilhantes”)

The Silly Sexist Conceit of Fetal Personhood” (“O estúpido conceito sexista sobre a personalidade fetal”)

Uncoupling: Why the Right Feels Threatned by Consent, Queers, Contraceptives and Child Protection” (“Desacoplando: Porque a direita se sente ameaçada por consentimento, homossexuais, contraceptivos e proteção da criança”).