“Somente o amor permite o gozo condescender ao desejo”. Eis o meu mantra de vida, eis tudo o que pude extrair até aqui da psicanálise, condensado em uma frase do Seminário 10 do Lacan.

 

O amor é um transformador de gozo em desejo. Não se transforma uma coisa em outra sem perda. É como diz o poema da Ana Martins Marques “este poema em outra língua seria outro poema”. E preciso perder um poema para encontrar outro, quando se traduz.

 

Assim como traduzir algo que foi dito numa língua para outra língua implica perda, também tem como condição a perda quando tentamos dizer algo que sentimos.

É impossível dizer todas as coisas.

 

A linguagem não dá conta de tudo: transformar em palavras é se ancorar em limites.

 

Assim, só se pode falar desde que se aceite a condição de não poder dizer exatamente aquilo que se queria dizer. Entre fala e falta há mais do que quatro letras em comum.

 

O amor é o motor da falta. É preciso que uma criança seja amada para que ela possa falar, visto que alcançar a linguagem implica alguma perda. Falar é perder gozo, pois, quando falamos, algo fica de fora …

 

Transformar gozo em desejo também implica necessariamente perda. É por isso que o amor é o melhor amigo da castração.

 

Mas se por um lado o amor nos arrasta para o campo da falta e da castração, isso não isenta ninguém de gozar.

 

Ao mesmo tempo que amar é perder, amar é também ser arrastado por aquilo que se sente pelo outro, para o campo do sem limite, do infinito, da loucura.

 

Então, de certo modo, o amor é uma espécie de loucura socialmente aceita, ainda que nem sempre seja politicamente correto.

 

O amor é aquele lugar em nós que tenta fazer o impossível – atender a dois senhores ao mesmo tempo: desejo e gozo.

 

Daí a importância da falta, da castração, da internalização da palavra não, da subjetivação da lei em cada um de nós. Só o desejo nos salva dos horrores que podem vir em nome do amor.

Por mais paradoxal que pareça, onde há excesso de amor, há, na realidade, a falta dele.

 

Imagem: “O Beijo”, de Pablo Picasso (1969).