Há uma desarticulação radical entre aquilo que se pede e aquilo que se deseja. Por isso algumas perguntas sobre o amor, tais como “por que você me ama?” ou “o que preciso fazer para você me amar?” são impossíveis de serem respondidas. Quando alguém se poda para caber na demanda do outro, mal sabe a agressão que isso é consigo mesmo – e também com o desejo do outro. Isso porque o que se ama no outro é aquilo que escapa ao saber. Ama-se o outro por um modo de falar, de respirar, de olhar – traços que escapam à possibilidade de dizê-los – e escapam mais ainda de um esforço para ser aquilo que o outro amaria.

O desejo do outro está lá onde o sujeito não se esforça para ser, porque apenas é e não poderia deixar de ser. Toda a tentativa de caber numa forma que não nos acomoda é um modo imaginário de evitar lidar com a não complementaridade entre os sexos. Como nos diz Lacan, o desejo é desejo de desejo! Pelos caminhos do desejo, o que se ama, não é aquilo que nos completa, mas aquilo que nos fazer desejar ainda mais. É nesse sentido que o amor nos leva por trilhas-em-nós misteriosas, pois longe de tamponar as nossas faltas, o amor as exacerba. Assim, se por um lado, não somos amados por um esforço para ser isso ou aquilo, por outro lado não se trata de reduzirmos esse trabalho ao cínico “seja você mesmo” que os livros de autoajuda cospem por aí. Trata-se de uma posição perversa ou demasiadamente ignorante, afinal de contas, quem mesmo nós somos? Se soubéssemos bem quem somos, sequer poderíamos amar, visto que, no amor, encontramos no outro notícias de um desconhecido que mora em nós.

Se soubéssemos quem nós somos, sequer haveria público interessado em autoajuda. Assim, é preciso reconhecer que ser “si mesmo” não é uma decisão consciente, mas efeito do trabalho de um sujeito a partir da relação com seu desejo. Caminho fácil? Nem um pouco. De minha experiência, o que extraio, é que são anos e anos de trabalho de análise pra ter notícias de um “si mesmo” que não seja uma encomenda para o outro, mas que, também, não exclua o outro. Clarice Lispector escreveu: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.” Cada vez mais eu descubro que dona Lispector estava certíssima. A simplicidade é o que há de mais trabalhoso. Como é fácil dificultar.