Dia de sala de espera lotada.

Era tanto paciente que ficava difícil saber por onde começar.

Entre uma consulta e outra, um homem me chama:

“Ei doutora. Júlia. Bom dia. A pomada de passar na ferida da minha mãe acabou e ela pediu que eu viesse aqui renovar a receita pra ela comprar mais.”

“Sim… e quem é sua mãe?”

“A Filó. A senhora ainda não conhece ela. Mas pode fazer a receita tranquila. Já tem 20 anos que ela passa esse remédio na ferida do pé dela! Não fica sem ele.”

“20 anos! Nossa… Não é melhor a Dona Filo vir aqui para uma consulta?”

“Ela não gosta de vir. Só vem arrastada. Começo do ano ela veio, fez uns exames e nem voltou pra mostrar.”

Nessas horas, nossas limitações de tempo e até de condição física para aguentar o volume de trabalho costumam falar bem alto. Lá dentro, uma voz que fala: “Renova logo e chama o próximo paciente se não você vai ser linchada na sala de espera daqui a pouco.” Por outro lado, nosso compromisso com a comunidade que atendemos e nosso senso de responsabilidade não deixam a gente fazer besteira. É quando escutamos a voz da sensatez: “Não. Você não vai fazer esse papel ridículo de renovar essa receita sem nem saber quem é a paciente. Ela passa a mesma pomada na ferida há 20 anos. Ainda não deu pra perceber que isso não tá funcionando?”

“Olha só… Fala pra sua mãe que sexta feira eu vou lá com a enfermeira. Queremos conhecê-la pra ver se esta pomada é realmente a melhor opção que temos para o caso dela, ok?”

“Mas e a receita?”

“Na sexta eu faço. Sem falta.”

Quarta, Quinta, Sexta feira. Chegou a hora e lá fomos nós. Por cima do muro baixo já espiei dentro da sala.

“Ei Dona Filó, boa tarde. Viemos pra ver a senhora.”

Era uma senhora de 76 anos, típica mulher mineira, recatada, cheia de cuidados com a roupa, com a casa, com as visitas. Foi um custo conseguir uma mínima aproximação. Contamos um caso e outro, falei da minha família, também do interior, puxei assunto… devagar Dona Filó foi confiando. Aos poucos, me contou seus casos e suas notícias de saúde. Entre tantas informações, três me chamaram atenção como médica. A primeira, ela contou despretensiosamente:

“Fiz um exame há 6 meses. Deu anemia. Tô tomando remédio.”

A segunda, me contou só quando eu perguntei e insisti:

“Meu intestino? Era muito preso. A vida toda eu passava dias sem fazer cocô, mas nos últimos meses ficou bom, menina! Soltou de vez.”

A terceira, após grande insistência do marido:

“Sim, eu emagreci bastante. Eu até tô tentando comer, mas não tá adiantando. Já perdi 8 quilos nos últimos meses.”

Senti vontade de chorar. Era grande a chance de que tudo aquilo estivesse sendo causado por um câncer de intestino. Fui tomada por uma sensação doída de impotência e de tristeza por não ter chegado antes… pra que ela tivesse alguma chance. Dona Filó é pobre, mora no interior do interior do interior de Minas Gerais. Câncer de intestino é doença detectável precocemente. Dona Filó vai morrer e irão dizer que era “por que já estava na hora”. “76 anos! Já viveu bastante, né!” Dona Filó nunca terá reparado o erro que provavelmente lhe custará a vida. Ela não há de buscar seus direitos. Ela nem sabe que os tem. Quando penso que políticos mesquinhos, tacanhos, que sugam como vermes os recursos que deveriam ser usados para que a Dona Filó, em pleno século XXI, não morra aos 76 anos de uma doença detectável em fases iniciais estão jantando em Brasília as nossas custas… Quando penso que meia dúzia de ricos deste país se agarram feito urubus aos seus privilégios impedindo que os milhões de pobres tenham acesso a assistência a saúde…

Dona Filó, perdão. Perdoe-nos pela nossa inércia ao assistirmos idiotas a esse assalto ao povo brasileiro. Eu, sinceramente, não acho que deveria ser essa a sua hora. Donas Filós ricas ou remediadas que pagam plano de saúde ou que encontram melhor acesso ao sistema público de saúde em seus municípios não morrem assim. Elas aproveitam seus netos e bisnetos. Elas não passam a mesma pomada em suas feridas por 20 anos sem que ninguém perceba que tá errado. Que não tá funcionando.

Perdão, Dona Filó.