Tem um pouco de mentira nas coisas que eu digo. Alguém me pergunta algo e, às vezes, eu minto um pouco, sem querer, mas sabendo, para ficar mais bonito ou mais rápido de responder. Esses dias, um colega de trabalho perguntou o que andava lendo. E eu disse: “Nada. Ler é com você, que está estudando. Eu estudei demais, agora só vou a Sambas, só coisas com o corpo”. Depois eu pensei que estava lendo várias coisas e até livros inteiros. Só que o mais importante naquele momento era o que eu não estava lendo. Uma mentira que saiu como se fosse uma verdade e que naquele momento era uma verdade mesmo não sendo. Toda vez que alguém me pergunta sobre religião eu invento uma nova ou finjo ser ateia. E se me perguntam de Saraus, digo que não gosto. Aí, em outro momento, eu penso que gosto, só que nem sempre, mas não sei por quê. Eu sempre digo que odeio lavar louça. E pensava por esses dias que é mentira. Eu ligo Omara Portuondo às seis da manhã, espero o cheiro do café tomar a cozinha, abro a máquina de lavar para que o cheiro da roupa limpa e seca tome a cozinha também. E entre um passinho e outro eu lavaria a louça de um restaurante inteiro. São sinceras as respostas.  São respostas meio-perguntas. Dentro de mim, são perguntas ou incógnitas. Daí, fora, saem como respostas fantasiadas. Um dia desses perguntavam qual era o meu trabalho. Na hora, deu um branco, era Carnaval, aquela pergunta ali, fora de lugar, eu esqueci o que eu era. Só consegui responder o que eu tinha na manga, para os momentos de filosofia de bar: “ah, eu sou desadestradora de Leões, ou alforriadora, tanto faz!”. A pessoa me olhou como se eu estivesse dizendo alguma barbaridade ou como se fosse alguma brincadeira, quando, por dentro, eu falava com muita seriedade.  “E qual o seu nome?”, perguntou ainda o rapaz, tentando me resgatar para um mundo real. “Colombina, hoje eu me chamo Colombina”. “Você é estrangeira?”. “Não sei te responder isso não. Nem sempre eu sei de onde sou”. E demorou uma meia hora para eu lembrar a resposta esperada, a resposta ao que ele realmente deve ter perguntado. Eu sempre respondo sentindo e isso é difícil de traduzir em muitos momentos. Eu acho que isso acontece porque devo mentir para mim um pouco também. Ou é uma verdade só que só dentro de mim. Quando sai, vira outra coisa.  Ou, com pressa em responder, eu jogo a ideia pelo meio, enquanto ainda tentava pensar algum inteiro. Eu nem sempre consigo acompanhar o tempo da fala. Ou a fala nem sempre acompanha o meu Tempo. Por isso, eu preciso tanto da escrita. Nela, tento registrar meus debates internos, minhas verdades temporárias, minhas incógnitas. Elas estão no que eu escrevo, embora não sejam. A fantasia é o único modo de me fazer sentido.