“Eu era do grupo de jovens. Totalmente envolvido com tudo que a minha igreja pregava. Era um servo ali dentro. Varria o chão, cuidava das crianças para que as mães participassem do culto, ajudava na coleta das doações, fazia campanha para arrecadar comida para os mais pobres, visitava crianças doentes em hospitais. Era o braço direito de muita gente. Porém, quando eu chegava em casa, um pensamento me consumia. Desde muito cedo, com meus 11 ou 12 anos, eu percebi que eu era diferente. Que meu pensamento não era como deveria ser. Eu olhava para outros meninos com um afeto diferente. Sabia que aquilo era errado, mas eu não conseguia mudar. Eu passava madrugadas e madrugadas ajoelhado no chão do meu quarto pedindo a Deus que tirasse aquilo de mim. Eu arranhava meu corpo pra tentar tirar aqueles pensamentos de mim. Esfregava a minha cabeça com bucha durante o banho tentando limpar a minha mente daquela sujeira.

Passei anos me torturando e sendo torturado por pregações que diziam que tudo que eu sentia era errado, era pecado, era aberração. Tentei me relacionar com uma moça. Era impossível. Sentia que eu precisaria enganá-la pra seguir com aquela farsa. Eu não podia fazer outra pessoa infeliz por causa disso. Meus pais, muito religiosos, não podiam nem suspeitar do que se passava dentro da minha cabeça. Com o passar do tempo, eu fui lentamente aceitando que aquela era uma condição. Que eu era daquele jeito e isso não poderia mudar.

Decidi falar com meus pais, mas foi um erro. Meu pai foi um pouco mais compreensivo. Minha mãe acabou comigo. Me bateu, me amaldiçoou, contou para pessoas na Igreja pedindo ajuda, mandou que fossem lá em casa pra me curarem. Foi uma vergonha. O assunto dentro de casa passou a ser um tabu ainda maior. Contei para uma grande amiga e ela disse que já sabia e que me apoiava. Desde então ela tem sido minha ligação com o que eu sou verdadeiramente. Conheci algumas pessoas e me interessei, mas ainda não tive coragem de me relacionar com ninguém. Me vem todo o peso daquele discurso de pecado que eu sempre escutei. Vejo pessoas dando testemunho ‘que se curaram’, que saíram dessa vida, que se casaram e a única coisa que me vem à cabeça é ‘coitada dessa família!’ Uma vez, o homem que dizia ter sido ‘curado da homossexualidade’ era o namorado do meu amigo.”

Eu atendi este paciente numa crise de pânico durante um dos meus primeiros plantões noturnos. Ele vinha aguentando esta pressão desde o início da adolescência . Como era de se esperar, aos 19 anos, adoeceu. Foi medicado, se entupiu de remédio, mas a panela de pressão uma hora deixou o pânico escapar. E a gente segue tratando de “consertar” as vítimas, medicando os normais para que os monstros continuem a fazer suas monstruosidades por aí.