Uma parte de vocês sabe que sou casada com um homem negro (lindo, por sinal). Um homem cheio de talentos. Inteligente, sensível, disciplinado, persistente, estudioso. Características que levariam qualquer homem ao sucesso profissional sem dificuldades. Certo? Errado.

Sem querer fazer disso um lamento, ao contrário, quero, aqui, responder a um comentário que ouvi dele quando nos casamos: “Ah, nem sei bem o que pensar sobre esse seu engajamento. Eu não sinto essas coisas de racismo. Penso que nunca fui preterido pela minha cor. Não sei se tive sorte ou se não percebia, mas acho que racismo não existiu pra mim.”

Meu marido está cursando sua segunda faculdade e, até pouco tempo atrás, se dividia entre 2 empregos e seus estudos de música. Sim! Depois que nos conhecemos, influenciado pela musicalidade que encontrou na minha família, ele decidiu estudar saxofone e canto e, também nisso, vem se saindo muito bem.

Entretanto, apesar de tantas e irrefutáveis provas da sua inteligência, vira e mexe, vejo meu nego num esforço sobre-humano, varando madrugadas pra conseguir entender e resolver problemas matemáticos propostos em sala de aula. Algumas vezes ele me mostra: “Você sabe como resolver isso?” E eu digo que sim, que me lembro daquela matéria da minha época de escola. Ele fica abismado: “Você é muito inteligente, preta!! Lembra de coisas que não vê há mais de dez anos!”

Então, vamos escurecer umas coisas aqui. Será que eu sou mesmo um gênio?

Que tal falarmos sobre privilégios: Meu amor, eu não sou mais inteligente que você. Não, mesmo! E está exatamente aqui o abismo que nos separou. Um muro social tão alto, que, pra maior parte dos pretos e pobres deste país, se torna intransponível. E é disso que eu vivo falando!! A deseducação dos nossos jovens é a forma mais cruel e eficiente de segregar ricos e pobres. E, por aqui, isso é quase como dizer brancos e pretos.

Esse é o racismo velado. Institucionalizado. Há uma casta poderosa que acredita piamente que seu lugar é servindo. Por isso é tão mais difícil pra você. Pra mim foi muito fácil. Enquanto meu professor de matemática me ensinava, me cobrava e fazia questão de saber se eu tinha realmente aprendido, o seu… nem existia! Se você aprendia ou não, não importava. No final do ano, você era aprovado do mesmo jeito. Meus pais sentavam comigo pra estudar enquanto os seus trabalhavam de sol a sol para garantir sua sobrevivência. Eu fazia curso de inglês e espanhol enquanto você trabalhava. Você, e todos os brasileiros negros, pobres que cursaram uma faculdade nesse país venceram um exército de adversidades.

Não me esqueço do dia em que fomos juntos, eu e meu preto, entregar o convite de formatura dele para a minha sogra. A nega se ajoelhou no chão e disse chorando: “Meu filho, obrigada por me permitir viver esse momento. Isso aqui faz valer a pena todos os minutos que vivi a trabalhar por você. Você foi o primeiro da nossa família a ter um diploma. Essa sua luta há de inspirar seus sobrinhos e seus primos.”

Preto, eu tenho muito orgulho de ser a sua esposa. E se teve um momento nessa vida em que eu fui realmente inteligente foi quando eu te escolhi pra seguir ao meu lado nessa jornada. Te amo.