“Dra. Júlia, eu gostaria de um encaminhamento para o ortopedista. Meu ombro tem doído muito. Já fiz cirurgia mas nunca melhorou.”

“Certo. E como é essa dor?… O que faz ela ficar pior?… O que faz ela melhorar?…    A senhora tem tomado algum remédio?… Já fez fisioterapia?… O que o ortopedista recomendou na última consulta? O que esta dor te impede de fazer?…”

Mil perguntas, mil respostas e eu não conseguia me satisfazer. Algo faltava para ser dito. Não sei explicar.

Foi quando me saiu da boca:

“Você está me parecendo tão triste. É só o ombro?”

“Não.” E seguiu-se um silêncio regado por muitas e muitas lágrimas. Outras tantas dores esperavam no corredor, mas eu decidi trancar a porta. Puxei minha cadeira, sentei ao lado daquela mulher, peguei nas suas mãos e disse:

“Quer falar?”

“Hoje tá fazendo 2 anos e 2 meses que perdi a minha filha. Ela foi queimada viva pelo marido.”

E alí estávamos nós duas. Sozinhas, dividindo uma dor sem tamanho.

“Eu não sei o que fazer. Não sei pra onde ir. Não consigo pensar em mais nada. Não tenho mais com quem falar. Ninguém conversa comigo. Eu preciso falar. Eu queria reencontrar com ela, queria ver, queria abraçar, queria dizer a ela o quanto ela é amada, contar que eu sinto muita saudade de abraçá-la, de beijá-la.”

Cheguei mais perto. Meu coração disparado. A essa altura eu já nem me preocupava se aquilo me faria chorar ou não (ando bastante sensível nos últimos dias e isso poderia comprometer o resultado da consulta).

“Se ela estivesse aqui, na frente da senhora, como eu estou, o que a senhora faria?”

Ela fechou os olhos, segurou meu rosto com suas mãos, sorriu e disse:

“Meu anjo, a mamãe te ama muito.” E me abraçou. “Tenho muita saudade das nossas conversas, das nossas risadas. Mamãe tem esperança de te reencontrar um dia. Está muito difícil a vida sem você, milha filha.”

“Eu também te amo, mãe. Quero te ver serena, novamente. Meu maior desejo é que você siga sem culpas e que continue cuidando da nossa família com o mesmo amor de sempre.”

Há explicações teóricas para tudo isso que aconteceu. Há treinamento para fazer o que eu fiz. Há livros, há artigos, há cursos… mas para a emoção que compartilhamos hoje não há medidas.

Fim da consulta: “Dra. Júlia, eu hoje deixei de ir ao túmulo da minha filha para vir a esta consulta. Saio daqui com a sensação de tê-la abraçado. A dor é gigantesca, mas há 15 minutos ela ficou mais tolerável. Hoje você foi meu anjo”

“Então, fomos o anjo, uma da outra.”

“Te usei como uma ponte. (e sorriu) Foi um alívio”

“Eu tô aqui pra isso.”