Depois de 6 meses acompanhando um paciente com Alzheimer, recebi um presente: conheci sua voz!

“Ei, Seu Milton, boa tarde! Tudo bão?” Sempre pergunto e nunca ouço resposta.

” Bão!” Um bão longo, rouco, arrastado, mas foi tão bão!

“Uai, sinhô tá falante hoje!!!”

“É…”

E falamos entre nós, dividindo sorrisos pelo ocorrido: sonda, ferida, secreção, hidratante, cabelo, boca, fralda, água, calor, colchão…

No quarto, ele, a esposa, a cuidadora, a agente de saúde e eu.

A esposa, de mãos dadas, fazia carinho. A cuidadora achava graça das caras e bocas do Seu Milton. Um ambiente de serenidade e de muito amor. Era uma casa simples, sem luxos. Seu Milton sempre muito perfumado, quarto limpo, arejado…

“E os meninos? Leda não tá aqui hoje?”

“Chegam à noite do serviço.”

“Deixa um abraço meu pra eles. Seu Milton, já vô, tá?… Viu?… Tchau pro sinhô… Tchau, Seu Milton (fiquei mal-acostumada, uai, quero resposta).”

E a agente de saúde me ensinou:

“Tem que falar: ficomdeus.”

“Ficomdeus, Seu Milton!”

“Comdeus!”

“Dotôra, acabei de assar bolo. Leva!”

“Nossinhora, gente!! Final do ano não vou passar na largura dessa porta!!”

“Ah leva, sô!”

“Levo.” Não só o bolo mas um tantinho desse amor.