Sim, somos política, não políticos (pessoas em cargos de poder).

Proponho repensar a relação que fazemos entre o público e o privado, entre o íntimo e o aparente, entre o que somos e o que “performamos” ser.

Imagine que você é (se é que o verbo “ser” ainda tem algum sentido) apenas o que está em seu íntimo, dentro de você, seja lá o que “dentro” signifique.

Tudo que é apreensível pelo mundo, pelo outro, seu corpo, sua cor, suas ações, suas expressões, suas roupas, sua voz, seus intestinos, é, portanto,  a performatividade do seu ser no mundo.

E performar é diferente de ser (a realidade filosófica disso não importa, mas apenas o jogo mental que isso possibilita).

Qualquer parte sua que é apreensível pelo outro e se relaciona com ele é sua expressão pública, portanto, política.

Consideremos a mentira de que você tem uma alma, que seria seu âmbito privado, o seu íntimo. Seu pênis ou vagina, a tonalidade da sua pele, seus gestos, comportamentos, é tudo do âmbito público, justamente porque podem ser apreendidos e, portanto, são compartilháveis.

O que é de âmbito privado não pode ser compartilhado, pertence ao íntimo, à suposta alma.

Essa ideia de privado relacionada ao corpo (ou à casa, ou ao seu email) é uma tese imposta à nossa experiência da vida. Disseram a você que seu corpo é privado para que você o esconda, mas, de fato, ele é um fato social.

Oi? Então, meu corpo está à mercê da vontade alheia? Não faço dele o que eu quiser?

Faz e não faz. Faz, mas não está fazendo.

Para você fazer o que quiser com seu corpo, você depende de leis. Por exemplo: você não pode tirar um filho da sua barriga se a lei do seu país assim determinar, mesmo a barriga sendo sua. Você não pode arrancar sua orelha sem que seja internado (preso) num manicômio. Você não pode ir à qualquer lugar do mundo, ou andar nu pela rua. Você não pode tirar seu pênis e fazer dele uma vagina sem uma permissão legal para isso.

Para modificar seu corpo você precisa se adequar às leis, às normas. E leis são instrumentos de âmbito público. Seu corpo é público, está submetido a polis.

Uma moça nascida na Gâmbia antes de 2015 teria seu clitóris arrancado, independente da vontade dela. Foi necessária uma lei, que vigorou a partir dessa data, para que essa prática fosse criminalizada, já que a tradição assim permitia (outro tipo de lei).

Você pode argumentar que a luta pelos Direitos Humanos é justamente a de dar à vontade do indivíduo o poder sobre seu corpo (sua vontade não é o que você é, é apenas sua vontade). E mesmo que todas as leis do mundo permitam que cada pessoa decida por ter ou não um clitóris ou uma orelha (quem arranca a própria orelha sai da norma de sanidade), ainda assim essa possibilidade deve ser sustentada por uma legislação, ou seja, é definida pela polis, por isso se chama “direito”.

O corpo já é um ato político assim que você nasce. Você não pode existir sem que se relacione com o outro, com o mundo, com a polis. Aliás, essa é a condição inerente à existência.

Decidir quem manda nesse corpo, quais normas se impõem a ele (sejam jurídicas, religiosas ou científicas) é uma discussão pública, o que torna seu corpo política.

Já sobre sua alma, sobre o seu íntimo, ninguém consegue ou pode criar leis (embora a religião continue tentando!).

PS: se a alma é política ou não vou deixar pra outra reflexão, pois terei que me desfazer de todos os argumentos que vou sustentar agora.

Na verdade, não estou querendo diferenciar a alma do corpo, pois essa distinção é meramente fictícia e não real; ela só é realidade para as religiões. Mas servirá agora como linguagem (portanto ficção) para o entendimento entre algo que é íntimo em nós (tenha o nome que tiver: consciência, alma, espírito, psique, imanifesto, etc.) e algo que é acessível ao outro.

Mais importante do que tentar definir filosoficamente o que é alma ou corpo (tormento dos filósofos, não meu), é entendermos que nossa existência, em ato, é uma expressão política, aquilo que pertence ao âmbito da polis.

E por “ato” não estou me restringindo a ações e comportamentos, mas às expressões do ser que sejam apreensíveis pelo outro. O corpo é, portanto, um ato nesse sentido.

Tanto é assim, que nada em nosso corpo e na expressão dele está à margem do processo histórico.

Se você nasce com a pele de cor mais escura, dependendo da época e do país, sua vida será submetida a uma série de leis e comportamentos sociais.

Se você nascer com uma vagina na Idade Média, você terá uma vida diferente do que se você nascer com um pênis nessa mesma época.

Mas, independente da vagina ou do pênis, e da existência imposta a você em consequência disso, sua vida íntima não será regida por esses fatores. Será afetada, porém não regida, mesmo que você seja uma pessoa totalmente manipulável mentalmente.

Há controvérsias de várias ordens, mas elas não determinam o que você é. Determinam apenas o como você vive. (Como se houvesse distinção entre ser e existir, mas vamos fingir que haja).

O que você é? Não é nominável.

Só podemos nominar o que “performamos” ser.

Podemos dizer que você é homem, mulher, branco, preto, advogado, criança, idiota ou feliz.

Será que essas nominações não dizem acerca do que você realmente é? Ou dizem apenas sobre o que aparenta, sobre o que parece ser, sobre como você é “visto”, apreendido pelos outros, sobre a performatividade de sua existência no mundo?

Confundimos esses nomes, essas denominações, essa performatividade, com o que somos realmente.

Se você nasceu em 1764, na Inglaterra, com um pênis, disseram a você que você era um homem. Sua experiência íntima da existência não estava limitada a essa nomenclatura, mas sua experiência pública sim. Não importa o que você sentisse a respeito de si mesmo, sua relação com o mundo estava restrita ao que cabe ao homem ser, sentir ou fazer.

Já se você nascer com esse mesmo pênis na França em 2016, apesar de ainda ser considerado homem, a amplitude da sua relação com o mundo será outra. Você, por exemplo, poderá afirmar que é uma mulher, poderá trocar seu pênis por uma vagina e, assim, ganhará a denominação de mulher trans.

Nomes. Normas. Denominações.

Nada disso designa sua alma, sua experiência íntima de si mesmo, apenas sua experiência pública, sua expressão social, os sentidos atribuídos ao que você é.

Os sentidos atribuídos ao que você é não são você.

A esses “sentidos atribuídos” vamos dar o nome de performatividade.

Um corpo perfeito e capaz é uma performatividade.

Se você não tiver os braços e ainda assim fizer belíssimas pinturas com os pés, você será considerado defeituoso, imperfeito e incapaz. Deficiente físico será sua performatividade. Porém se toda sua sociedade não tiver braços sua performatividade será a da perfeição.

E assim, a tudo se aplica.

No entanto, como apontado anteriormente, essas definições sobre o que você é (que não são você intimamente) são estabelecidas no mundo, pelo mundo. Públicas. Políticas.

Todas as definições a seu respeito variam conforme a época, o lugar, a sociedade nos quais você está inserido.

Peraí, mas a mulher e o homem sempre existiram, antes de serem chamados assim.

O que sempre existiu foram o ser com pênis, o ser com vagina, o ser com pênis e vagina, o ser sem pênis ou vagina, o ser com pênis e útero, o ser com vagina sem útero, e diversas outras possibilidades que não foram descritas porque não foram aceitas.

Em certo momento o ser com pênis foi chamado homem e o sem pênis foi chamado de desvio da natureza.

Depois, chamaram o ser com pênis de homem e o sem pênis de mulher.

Aí, então, chamaram o ser com vagina de mulher, o ser com pênis de homem, e todas outras variáveis foram chamadas de desvios da natureza.

E assim caminhou a humanidade, chamando e deschamando os seres.

O importante nesse processo todo é compreender que as designações que você recebe não determinam o que você é. Você não precisa delas para existir, você apenas existe.

O que essas designações importam é em como você vai se relacionar com os outros.

É aí que você se torna Política.

Ao perceber que seu íntimo, o que você é (para além dos nomes), não está ameaçado por essas designações, não será modificado por elas, você pode parar de sentir medo. Ninguém pode modificar sua alma, nem dizer como ela é ou não é, porque a alma é inominável. Até o termo “alma” não dá conta do que ela é (inclusive o verbo “ser” perde o sentido aqui).

Mais ainda: você pode se desidentificar desses rótulos e usá-los, reconhecê-los como ficções políticas (linguagem) criadas para a sua relação com o mundo.

É fundamental você tomar consciência de que a forma como se apresenta ao mundo, sua performatividade, é uma escolha.

Sua escolha?

Aí depende da sociedade em que você está inserido. Para cada organização social essa escolha será mais ou menos definida pela polis. O que torna essa escolha uma questão política.

Mas se essa escolha da sua performatividade é mais definida por você ou pela sociedade, ainda assim essa escolha é pública e não privada.

De novo. O fato de sua expressão no mundo ser uma escolha sua não torna essa escolha privada, no sentido que venho empregando. Não é porque foi você que escolheu que ela é privada. Essa é a distinção que pretendo fazer. Ela não é privada, apesar de ser uma escolha pessoal, porque o objeto da escolha (sua performatividade) é um fato público, uma ficção política (conforme tudo que sustentei anteriormente).

Se a organização social for mais definida por um poder centralizado, mais ditatorial, sua performatividade será restrita a um conjunto de normas externas a sua vontade (sua vontade não é o que você é, já afirmei).

Se for uma sociedade mais igualitária, democrática, sua vontade individual será menos normatizada. Em ambos os casos o fato é público e, portanto, político.

Seu ato político está muito mais implicado na sua vida pessoal do que querem que você perceba.

Você acredita que sua participação na vida pública, na vida coletiva, está restrita ao que acontece fora da sua casa, fora do seu corpo, fora das suas escolhas pessoais (o que te ensinaram a chamar de privado), mas esse é o seu engano. E esse engano está servindo para que o poder estabelecido imponha as normas que afetam sua casa, seu corpo e suas escolhas pessoais, porque são públicas.

Pra que todo esse blablablá?

Pra dizer que sua cor, seu gênero, seu sexo, suas roupas, sua profissão, sua idade, seus defeitos e suas qualidades, sua orientação sexual, sua classe social, seu nome, seus comportamentos, seus pensamentos, suas escolhas ou sua vontade NÃO SÃO VOCÊ.

São construções, são denominações, são ficções políticas.

E por isso não existem?

Ah, sim, existem e muito. Mas podem ser alteradas, modificadas, sem que você deixe de ser quem ou o que você é.

Portanto, pare de confundir o que você é com sua performatividade no mundo!

E passe a reconhecer que sua performatividade no mundo é um ato político.

Você é Política.

Quando nos reconhecermos como Política, não precisaremos mais dos políticos, pois seremos nossa própria representatividade.

Assim é se lhe parece.