O Brasil é mesmo um país onde tudo pode. Tá certo isso, Arnaldo? Bem, vejamos: aqui pode-se matar pelo menos uma vez sem correr o risco de apodrecer na cadeia. O homicídio tem vários atenuantes, já o tráfico de animais silvestres não. Na prática, matar gente dá menos bronca do que negociar bichos. Embora seja abominável, os maus-tratos contra os animais mobilizam mais a sociedade do que o linchamento de um indivíduo, afinal de contas, quem foi morto mereceu o destino infeliz.

  Nunca me esqueci do dia no qual o homem que matou a esposa a facadas, na frente das filhas de 7 e 9 anos, saiu andando impunemente da delegacia de Polícia Civil. O cabra entregou-se depois de expirar o tempo do flagrante e, usando o direito de responder ao crime em liberdade, experimentou as benesses de uma lei que só funciona para pretos e pobres. Condenado em primeira instância, ele recorreu da sentença. Hoje, quase sete anos após o assassinato, continua usufruindo da liberdade dos culpados.

  Mas não precisamos comentar isso, não é Arnaldo? Que tal, então, falarmos do rompimento do ordenamento jurídico brasileiro e de um Supremo Tribunal Federal que amarelou diante do presidente do senado Renan Calheiros? Por seis votos a três, os ministros derrubaram a decisão liminar (provisória) do relator do caso, Marco Aurélio Mello, proferida na última segunda-feira, que havia determinado o afastamento de Calheiros do cargo. A ordem não foi cumprida pela Mesa do Senado. Mas a ordem serve para quê mesmo, Arnaldo? Sei lá. Essa gentinha teimosa ainda não se acostumou a ser filha do Brasil!

  No país onde tudo pode, vemos Michel Temer colocar em votação, sem nenhum compromisso social, uma reforma da previdência que obrigará os brasileiros a trabalharem até os últimos dias de sua existência. Para ter direito a esmola da aposentadoria, o sujeito terá que contribuir por 49 anos. De vida? Não, de trabalho, claro. Como na época da escravidão, o escravizado vai morrer na labuta e quando as forças lhe faltarem ele só fará fechar os olhos. Morte honrosa, afinal, o trabalho dignifica.

  Tá certo, isso, Arnaldo?