Animais deixam rastros na natureza. Todos produzem marcas… Uma pata no barro. Uma bicada na fruta. Uma toca. Uma infecção. Um visgo. Uma carcaça comida. Um galho dobrado. Uma pena. Sangue numa trilha. Capim deitado. Um caroço. Uma colmeia abandonada. E também aqueles rastros da espécie para a qual todos os lugares já foram melhores: Entulho. Lata vazia. Água suja. Camisinha amarrotada, fralda cheia, litro de cachaça quebrado e embalagem de lasanha. Isto e muitos, muitos equívocos: ficam pelo caminho e constituem nosso refrão: todos os lugares já foram melhores!

Por onde passamos, entulho: de corações arrebentados a trajes que já não servem, de pneus velhos a malas rasgadas, de educações para a incompletude a noções incompletas de prosperidade, de sorrisos falsos a cidades inteiras desertificadas em nome de ambições elaboradas, deixamos nossas marcas sob intenções, consciências incipientes, cosméticas publicitárias, como é tão usual nesses dias em que qualidade de vida é tratada como mercadoria!

Nossa sociedade, seus empreendedores e consumidores drenam recursos e esparramam resíduos produzidos por toda sorte de idealizações econômicas, sufocando o futuro e soterrando vestígios de paisagens virgens.

Dizemos amar a natureza. E cada um a ama à sua maneira… Mas parece que este “amor” é condicionado ao formato “nós aqui, natureza lá” – é o valor da civilização hegemônica. Os valores urbanos, brancos, maçons, capEtalistas prescindem de interações orgânicas com o meio ambiente natural. Claro que o amor em questão é impermeável à vida e está condicionado à razão formatada por esta mesma civilização, na qual a maioria está abrigada ou é refém. Mas se isto a que chamamos “razão” está liquidando a natureza, talvez, seja tempo de questionarmos inteligências e aprendermos com os que vivem sem destruir, os que têm outras cosmovisões, os cientistas, as vanguardas, os ambientalistas, os ativistas — quem já vislumbrou algo mais que um livro-caixa — antes de continuarmos carimbando destruições com figurinos bem-intencionados.

Será que alguma tecnologia ou tragédia será capaz de tirar nossa espécie do posto de lanterninha da diversidade na arte de sobreviver sem destruir o que lhe garante a vida – e a de suas crias?

Aprendemos a ser descrentes da natureza e de sua abundância. A urbanidade respira, come, bebe e mora, mas seu valor é de que a natureza e aqueles que nela habitam são menores… Aprendemos que temos que “melhorar” a natureza. E aprendemos que não há ninguém superior ao ser urbano.

“Todos os lugares já foram melhores”, é o que a natureza responde… O massacre antropocêntrico não destruiu apenas a natureza, mas nossos vínculos mais sensatos com a vida. Dizemos que somos os seres mais inteligentes numa escala só nossa, baseada em nossa pretensa superioridade que reside, historicamente, em transtornar lugares, usufruir dos recursos naturais sem restrições.

Infinitas serão as justificativas… Mas aí estamos, repletos de “inteligências” e “confortos” e “seguranças”, negando nossa capacidade de mudar simples hábitos cotidianos para garantir a continuidade de um modelo econômico evidentemente insustentável… Mais parecemos um bando de resignados cultores do irreversível, mestres em confortos pífios e repetições inconsequentes…

Nada de novo quanto ao irreversível? Nada. Nem mesmo uma compreensãozinha de que o método de vida vigente está roubando o futuro de nossas narinas e mercantilizando tudo que possa ser sagrado para a sobrevivência de nossos descendentes…

As pessoas continuam acreditando que salvarão o mundo empreendendo – nos mesmos moldes do mercado que nos trouxe aqui… Não há contrassenso, não. São escolhas. Porque todo empreendimento demanda investimentos e investimentos são escolhas! Óbvio? Não para todxs…

Óbvio mesmo é que a mente empreendedora, infelizmente, destoa da mente ecológica. O ego é incompatível com a prosperidade coletiva. Ego é privilégio. Empreender é privilégio. Empreender dá status quando deveria dar humildade que a maioria esmagadora dos empreendedores não tem… Empreender, para os que estão a milhares de quilômetros de qualquer noção de sustentabilidade de fato – é uma questão focada na improvável liberdade de gerir um negócio privado deixando quase sempre reduzida a detalhe, adorno de marqueting, sua função coletiva, socioambiental!

O ser urbano acredita que lugar de natureza é longe de casa. Acredita na ideia involuída de que a cidade é uma bolha estéril, impermeável e isolada da natureza; dirigida ao comércio, à produção, à prestação de serviços, à disponibilidade de certa infraestrutura padronizada e às atividades institucionais de praxe… Acredita também que a cidade não é para a pobreza que a cerca. A cidade, como concebida e administrada por toda parte, é para as classes médias, as classes consumidoras de fato, o resto, a maioria miserável, é tratada como incômodo, exceto, quando abordá-la é útil e rentável. Quem quer sair de sua cidade para espairecer, descansar, desestressar, conhecer; segundo o padrão arcaico de turismo, não quer ver misérias! Ademais, quem produz demandas, quem as atende, quem as transforma, não é?

Não é notável que as pessoas – as que podem pagar — estejam fugindo das grandes cidades e buscando lugares menores, lazeres e entretenimentos de maior sentido? Não é notável que os desertos urbanizados não satisfaçam mais as pessoas que neles moram e que esta seja a mola principal do mercado de turismo – a busca alucinada por não lugares?

Se todos os lugares já foram melhores, procuremos outros. Mas não sem transportar os mimos, privilégios, hábitos, “confortos” urbanos que transtornam a natureza, certo? Não sem uma boa cosmética para higienizar a realidade social desagradável que a própria indústria da construção, em nome do turismo, semeia na maioria dos destinos turísticos.

Não é notável que, uma vez dependente de poder econômico, o acesso aos atrativos turísticos exclua automaticamente a natureza para implementar sucursais de privilégios emolduradas por paisagens?… Não é notável que tanto a parte da sociedade que não pode viajar como a maioria dos moradores dos locais de destino não seja bem-vindas aos destinos turísticos?

Quem conhece regiões de “vocação” turística sabe que poucos são os moradores que fazem turismo no quintal de casa, e sabe quão pouco isto é incentivado, uma vez que tanto gestão pública como empreendedores têm “alma” de caseiros e vivem de contentar veranistas, turistas, proprietários de imóveis, mais ninguém.

Simples assim, turismo não é coisa de pobre… E se a maioria do mundo é pobre, a dignidade de viajar é privilégio em todo o mundo, assim como as formas de turismo que perpetramos para manter a dinâmica de busca por lugares melhores, mesmo sabendo que todos os lugares já foram melhores…

Óbvio que nós, campeões dos falsos confortos, ainda vamos demorar para lutar coletivamente para devolver a vida natural às cidades e, quem sabe, entender que não se faz ecologia sem justiça social, e que o meio ambiente é uma grande luta social a ser travada, não alhures, não por esta ou aquela classe – mas no quintal de casa, coletivamente.

Também vamos demorar para lavar nossos olhos do equívoco dos não lugares turísticos que se deixam roubar em suas identidades, importam o olhar do luxo miserabilizante dos construtores e vendedores de paisagens, destruindo a qualidade de vida, a simplicidade, as tradições e a natureza local – em função de um padrão de bem-estar decadente para atender aos insustentáveis fujões de outras cidades.

Diante do crescente anseio das pessoas em conviverem com a natureza, muitos Municípios estão com os olhos quase saltando das órbitas com a possibilidade da “salvação” econômica através do turismo. E é bom que fique claro: não farão a sagrada pergunta: – Que turismo?

Os Corações de Cimento — como chamo os afeitos à indústria da construção civil e entusiastas do carimbo urbano devastador de vidas — beiram a alucinação de repetir, ainda, em pleno século XXI, o conceito vago de “turismo” de segundas residências… Obviamente, em nossos dias, trata-se de um conceito insustentável e caduco que já mostrou seu imenso potencial destrutivo, não apenas para a natureza, mas na potencial produção de miséria… É sobre esta terra arrasada que surge a messiânica “salvação” pelo turismo.

Mas se a incompreensão dos Corações de Cimento ainda causa espanto, mais espanto causa o fato de que os empreendedores do turismo genérico não têm ressalvas à implementação da velha infraestrutura urbana, dos processos de verticalização, da gentrificação, do crescimento desordenado, e o pior: precisam de eventos e atividades que pretendem como cultura, mas que raramente superam o entretenimento banal e, pior ainda: são excludentes quanto à diversidade cultural local e, por óbvio, à realidade da maioria dos cidadãos…

Esses varejistas das paisagens, usurpadores de boas-vindas e corretores de trilhas — sempre em detrimento dos que habitam os lugares que já foram melhores — fazem coro com a construção civil no jogo sujo do desenvolvimentismo… Para tanto, cobram do setor público melhorias que a maioria da sociedade não conhece e, de quebra,  investem na pauta ambiental para fazerem de conta que atuam dentro do contexto sustentável… Contam a mesma mentira dos construtores, sem nenhum pudor e, sim, aplaudem processos de higienização, elitização, gentrificação e especulação que deterioram identidades para fundir uma laje de alienação onde pulsa história, tradição, natureza. O que importa? Sua taxa de ocupação, nada além!

Então, como assim um setor que tem alergia a povo posar de salvação econômica? Promover o turismo imobiliário, ou mesmo o receptivo de concepção industrialista, classista e sem vínculos com a sociedade e o meio ambiente nativos – é sustentável, onde?

Vender o que não é seu é sustentável, onde?

Propor a salvação por um único setor da economia que só atende demandas de privilegiados é solução para quem?

Eles falam em ecoturismo sem a menor noção de ecologia; falam em turismo sustentável”, sem a menor noção de sustentabilidade; falam em turismo receptivo em contraponto à falida, mas ainda especulativa indústria das segundas residências e não se cansam de hospedar potenciais compradores de imóveis…Mas vá você falar em turismo social, turismo de base comunitária para ver a cara de limão dos esnobes empreendedores…

Que NÃO me perdoem os apaixonados pelas inegáveis maravilhas de viajar e aqueles que tratam o turismo convencional como panaceia – mas é preciso estar atento para não promover tudo que já sabemos que é predatório neste mercado de empreendedores e gestores públicos, comumente incapazes de propor atividades turísticas sem reproduzir o carimbo danoso do artifício urbano, sem privatizar o meio ambiente, sem excluir as sociedades locais. Simplesmente, porque atuam segundo um olhar a partir do qual precisam “atrair” presas com poder econômico para bancar o que idealizam, e não podem expor aqueles que escancaram a miséria dos destinos vendidos… Ou seja, não conseguem desenvolver seu mercado sem biombos de esconder o óbvio!

Aberrações de cimento e vidro pintadas de verde nada têm de ecológicas ou sustentáveis. Não importa se “viram” bem como negócio, mas se conseguem enxergar o calendário e perceber que neste século já não cabe a mente industrialista, classista e privatista sobre o turismo. Pelo menos, não sob o predicado de sustentável… E não adianta colocar lixeirinhas coloridas, aquecedor solar sobre a laje de concreto e posar de supra-sumo da sustentabilidade!

A salvação é empreender na área do turismo? Empreender para quem? E com quais consequências socioambientais?

E as Mudanças Climáticas foram postas na conta de padaria desta proposta?

E a sociedade, não faz parte do debate, por quê?

Quem investe sem questionar a importância do turismo como instrumento de cidadania, pertencimento e preservação deve retornar à segunda metade do século XX e dar uma espiada em uns tantos fatos. Quem investe precisa entender com urgência que o mercado de turismo, como o conhecemos, traz, em si mesmo, um motor de passivos como o das segundas residências porque, simples assim, vive de reproduzir nirvanas longe do estresse das cidades, mas faz questão de manter a infraestrutura desenvolvimentista, a pegada consumista, por si mesma, insustentável. Não bastasse, tem sido corriqueira em cidades de vocação turística a apropriação do acesso a áreas preservadas, oferecidas como quitutes de folheto para a clientela, a despeito do acesso das populações locais… Sim, os sorrisos e intenções parecem ótimos, mas produzir e manter desigualdades não é nada sustentável, senhorxs!

Está naturalizado que a natureza – assim mesmo, naturalizado que a natureza — está aí para ser usurpada. É um método consagrado: tomar os recursos naturais – a começar pela paisagem — a custos mínimos e com eles lucrar, de preferência, socializando os impactos e negando obviedades como o acesso coletivo… É neste cenário que muitos acreditam que há algo de ecológico nas políticas públicas de incentivo ao turismo; mil aspas, sustentável, mil aspas; e empreendimentos turísticos predatórios como os conhecemos. O mínimo que se rouba em tais processos é a identidade local, a partir do confisco das paisagens e do privilégio no acesso a áreas naturais. Esta indústria, antes de se pretender salvação econômica, precisa rever, de duas, uma: a função social de seus investimentos ou seu conceitual de sustentabilidade.

Carimbar a lógica empreendedora consumista sobre o meio ambiente gerando – MAIS — passivos sociais e ambientais, atrair mais carros, mais estradas, mais pedágios, mais mercados, mais construções, mais resíduos e mais miséria em nome de estímulo ao “ecoturismo” ou ao “turismo sustentável” – mesmo que licenciado, porque a degradação não é obrigatória, não – , merece certo cuidado, sob pena de o empreendedor incorrer em dolo ou cair no ridículo de vender conceitos defasados para públicos defasados, ainda que potencialmente pagantes…

Se a prosperidade fundamentada na geração de misérias já faz parte de quase todos os lugares que já foram melhores, não será sob a visão de sustentabilidade mercantil tosca que corre no mercado que o turismo trará a tal “salvação”. O negócio da vez nunca é do povo e obviamente, não dará conta de gerar renda e trabalho na escala necessária para ser chamado de “salvação”.

O negócio da vez é do empreendedor metido a ecológico, do forasteiro aburguesado transformando o beabá de causas sagradas em material publicitário, do investidor da construção civil enfiando dinheiro em novos nichos enquanto a crise não passa; e esses aí, juntinhos, tomando posse de políticas públicas e pautas coletivas em nome de seus delírios privados…E se, de repente, a imagem melhora? E se, de repente, um cargo na prefeitura? E se, de repente, uma candidatura a vereança logo mais?

A natureza, essa que ceifamos de todos os lugares que já foram melhores, é fotogênica. Dá ótimas imagens para imprimir em couché e garantir uma cosmética sorridente que suma com os dentes do predadxr. Sob a máscara dócil de benfeitores, arrotando discursos recém-deglutidos de ambientalmente corretos, o que está acontecendo em inúmeras cidades de histórica “vocação” turística é o uso do drama da natureza e da invisibilização da miséria em nome  da salvação de uma economia que nunca foge à hegemonia da construção civil e, portanto, não tem como falar em sustentabilidade, exceto, quando é o caso dos livros- caixa de meia dúzia!

Tomar lugares que já foram melhores, construir espaços de alheamento para gerar uns raros empregos fixos, mais uns tantos sazonais e, de resto, estimular a mesma infraestrutura de alegrar políticos que destruiu a natureza local e  fomentar a indigência por bicos e formar novas gerações de mexedores de cimento, roçadores de capim, caiadores de guias e uns poucos privilegiados vestidos de guias turísticos para conduzir hóspedes em segurança no uso privado das matas e cachoeiras – é salvação?

Quando um capEtalista diz que ama a natureza, cuidado! Aí vem mais um cruzado com logomarca estampada na armadura para tomar para si o que a natureza oferece a todxs, e implementar “modelos” de negócios tão perigosos, tão nocivos, tão doentios que, ao contrário das Mudanças Climáticas, fazem o coração das pessoas resfriar a cada metro de chão impermeabilizado…

Por que será que todos os lugares já foram melhores?