O que é o futebol?

Há quem diga que o futebol é diversão. Há quem diga que o futebol é chato demais. Há quem diga que o futebol é a coisa mais importante do mundo. Há quem nem saiba o que é futebol.

Para mim, no entanto, se alguém me perguntasse o que é o futebol, eu responderia: “Futebol é sofrimento”. Não importa para que time você torça, ao fazê-lo, tenha consciência de que você irá, em maior ou menor escala, sofrer.

56“Mas o meu time só me traz alegrias”, vai contra-argumentar algum torcedor inocente de uma equipe multicampeã. Ilusão. Para cada brevíssimo instante de êxtase que o seu time lhe proporciona, para cada vitória comemorada, para cada campeonato conquistado, existem eternidades de agonia, dor e sofrimento. O transcorrer de cada partida é uma montanha-russa de emoções.

Adversário com a posse de bola, leve incômodo. Adversário no campo de ataque, frio no estômago. Falta para o adversário, desespero. Chute a gol do adversário, taquicardia. Expulsão de um jogador do meu time, raiva. Juiz ladrão, ira bíblica. O atacante perdeu um gol feito, incredulidade. Gol anulado, brochada. Pênalti para o adversário, socorro. Gol do adversário, morri. Gol contra, morri e não entendi como. “Frango” do goleiro, morri em posição fetal. Meu time perdeu, cabeça inchada.

O sofrimento é central no futebol. Tão central que o urro selvagem que soltamos com o gol é um grito de alívio, não apenas de alegria. O gol é o raro momento em que nos livramos da dor causada pelo jogo. Mas é um analgésico de efeito curto. Reiniciada a partida, as dores voltam e o martírio recomeça. Torcer é se contorcer de uma dor que sempre volta.

Qual a razão deste ímpeto masoquista que existe em cada torcedor? Por que não deixamos o futebol de lado e vamos viver a vida?

Porque a graça do futebol é justamente esta, sofrer. E sofrer faz parte da vida, e o que é o futebol senão uma grande metáfora da vida? Sofremos na vida, mas existem momentos que compensam tudo. No futebol é a mesma coisa, um gol, uma vitória fazem todo sofrimento valer a pena.

É como se resumíssemos a vida aos noventa minutos de uma partida. Nascemos com a suprema alegria do gol a favor, morremos com a tristeza profunda do gol tomado, nos enlutamos com a derrota, nos entediamos com um 0x0.

O futebol é como uma religião. Para os seus fiéis seguidores, torcer é sofrer. Para os infiéis, ou seja, aqueles que não creem nos mandamentos dos deuses do futebol, todo este sofrimento não passa de fanatismo, pura bobagem.

Tanto fiéis quanto infiéis estão certos. Os últimos porque nunca sofreram com o futebol, e os primeiros porque sofrem toda vez que seu time joga. É tudo uma questão de escolha, acreditar ou não acreditar. Só sofre com o futebol quem gosta de futebol; quem não sofre é porque não gosta de futebol.

Quanto a mim, sigo roendo minhas unhas, suando frio, xingando o vizinho, amaldiçoando a vida, gritando com a televisão, pulando na arquibancada, cantando, quase morrendo, amando o futebol e, inevitavelmente, sofrendo. Sofrendo demais.

Abençoado os que sofrem, pois serão consolados pela alegria do futebol.