Imagine que a cada ano desaparecem cerca de 250 mil pessoas em todo o país, quase 70 pessoas por dia. Considere que esses números são inferiores à realidade, já que nem todos os casos são conhecidos. São Paulo lidera o ranking estadual (cerca de 60 casos/dia), seguido pelo Rio de Janeiro, embora haja ocorrências em todas as regiões do país.

Destas, 40 mil são de menores de 18 anos.

Os motivos desses desaparecimentos são muitos. Fugas voluntárias, problemas de saúde mental e morte são bastante comuns, porém o tráfico de seres humanos é a causa mais grave e mais recorrente.

Esse texto não pretende dar conta da problemática do tráfico de seres humanos, uma vez que o assunto é extenso e as informações escassas.

A intenção é trazer alguns dados do que é considerado o comércio mais lucrativo na indústria do crime: o tráfico de seres humanos. Sim, embora menos famoso do que todos os outros tipos de crime, o tráfico humano é reconhecido como o mais lucrativo, gerando bilhões de dólares por todo o mundo, através de centenas de rotas. No Brasil, são oficialmente reconhecidas 241 rotas, mas há quem diga que já são 350.

Os objetivos desse tipo de crime são diversos: venda de crianças e adolescentes para o mercado nacional e internacional de adoções (crianças-mercadoria têm preços variados conforme características físicas), venda de órgãos, turismo sexual (causa de 43% do tráfico brasileiro), escravagismo, pornografia infantil, pedofilia, casamentos forçados, entre outros.

No Brasil, a falta de rigor na legislação permite que sejamos o país com o maior índice de tráfico internacional de crianças e adolescentes na América Latina. O mercado principal é a Europa Ocidental, EUA, Japão e Israel.

Muitos países sofrem com esse tipo de criminalidade, mas o Brasil é um dos piores no combate ao problema.

Muitos instrumentos de combate a esse crime são testados em diversos países. Na Guatemala, por exemplo, leis obrigam a mãe a comprovar vínculo genético antes de entregar um filho para a adoção, medida que resultou numa significativa diminuição do número de crianças disponibilizadas para isso, dificultando o tráfico.

No Brasil, nunca houve uma atuação consistente, por parte do poder público, para reduzir o problema. Sequer o poder legislativo debate a questão.

Não existem delegacias especializadas no desaparecimento de pessoas, mesmo sendo esse um crime de alta frequência.

E aí vem o retrato cruel dessa realidade: é mais importante encontrar um carro roubado no país do que uma pessoa desaparecida.

Quando um automóvel é furtado, existe um sistema de rede de informações no país, que é imediatamente acionado em todos os Estados.

Não há um cadastro nacional de pessoas desaparecidas!

Quer dizer, há. Tem umas 400 pessoas, dentre elas muitas já encontradas. Nem é atualizado e é totalmente inútil.

Se uma criança sequestrada for levada para um estado diferente do de sua origem, não há cruzamento de informações entre os estados. No famoso “caso Pedrinho”, por exemplo, a criança foi sequestrada numa maternidade em Brasília e viveu por 16 anos com a sequestradora em Goiânia, tão próximo do local de seu nascimento.

Claro que a maior parte do problema recai sobre pessoas menos protegidas pelo dinheiro e, por isso, raramente somos informados de um assunto tão corriqueiro.

Não há interesse em investir no combate a esse crime tão hediondo.

A ONG MÃES DA SÉ (uma das organizações voltadas para o assunto) foi criada por uma mãe que teve sua filha desaparecida (nunca encontrada) e, diante do sofrimento que passou com a falta de ajuda em todos os sentidos, percebeu a necessidade em atender a essa demanda. A cada 15 dias, a ONG convoca os parentes dos desaparecidos para se sentarem na escadaria da Praça da Sé, em São Paulo, segurando os cartazes de seus procurados. Além disso, ela colabora no apoio a famílias e na divulgação dos desaparecimentos, através de trabalhos voluntários e doações.

A sociedade precisa conhecer a realidade desse problema para pressionar por políticas públicas nesse setor e colaborar nos trabalhos assistenciais de busca.

Não podemos aceitar que seres humanos continuem tendo menos valor e importância do que automóveis!!!