Consternada, Pitú me chama:

– papai, aconteceu uma coisa muito, mas muito triste!

– e o que foi, minha filha?

– a Rosinha quebrou… – e me mostra, desolada, a perna de sua boneca predileta separada do corpinho.

Usando minha prerrogativa de avô de dezenas de bonecas, emendei:

– mas que machucado feio! Ainda bem que eu sou enfermeiro…

– você?

– sim, eu. Mas não de gente, só de bonecas e de brinquedos; vou colocar um gesso caprichado nessa perna que vai ajudar bem até levarmos a Rosinha em um hospital de Beagá, certo?

– oba, vai consertar ela?

– sim; mas não se esqueça de dar o remedinho que vou receitar.

– posso fazer o remedinho com você?

E assim à Clara se refez o encanto das brincadeiras de boneca; um reparo reforçado de esparadrapo e  doses cavalares de água com pitadas imaginárias de remédios coloridos serviram a evitar o desconforto da Rosinha e a brindar minha derradeira redenção: a companhia de minha filha de cinco anos a reciclar comigo tragédias em sorrisos.

Até quando fingiremos não perceber que a única felicidade possível mora nas crianças?