Até onde eu sei, existiram dois Trajanos famosos na História. O primeiro foi o imperador romano César Marco Úlpio Nerva Trajano Augusto, que governou Roma entre os anos de 98 e 117 e que levou o Império a sua maior extensão territorial. “Felicior Augustus, melior Traianus” (mais sortudo que Augusto, melhor que Trajano) é o que desejavam os senadores romanos aos césares  que vieram depois dele, tamanha a grandeza do seu legado. O outro Trajano não foi imperador, nem tem frases em latim em sua homenagem e, em vez de carregar no nome o título de Augustus (Divino), traz à frente um brasileiríssimo José. Este é o Trajano da Tijuca, do Cartão Verde, brizolista, admirador de Darcy Ribeiro, mas principalmente da ESPN e do América.

  Sei que sou apenas mais um, e o menos ilustre, a prestar reverência nesta semana ao segundo Trajano. Semana cheia de manifestações de apoio a ele, por conta de sua demissão pra lá de injusta da ESPN. Mas antes de tudo eu sou um fã dele.

Para quem não acompanha futebol ou qualquer outro esporte no Brasil durante os últimos 20 anos, deve estar se perguntando o porquê de tanta comoção por conta da demissão de um jornalista esportivo. Explico. Trajano praticamente fundou a ESPN Brasil, foi seu diretor e com isso, de certa forma, trouxe credibilidade para o jornalismo esportivo na TV, algo até então muito raro, na medida em que as coberturas esportivas eram recheadas de personagens folclóricos muito mais preocupados em provocar polêmicas vazias do que em fazer um jornalismo sério; além da fama negativa de alienados que os jornalistas da área esportiva possuíam. Trajano lutou para quebrar estes paradigmas. Tanto que durante muito tempo, enquanto ele foi diretor de jornalismo da emissora, o slogan da ESPN Brasil era “Informação é o nosso esporte”.

À parte seus méritos profissionais, outra característica marcante de Trajano é que ele não tem medo de falar o que pensa. E fala mesmo, não importa nem onde, nem quando. Várias vezes durante os programas ao vivo, ele expressou claramente suas opiniões políticas. Manifestou-se claramente contra o golpe de 2016, criticou a presença de Danilo Gentili em um programa do canal, justamente na semana em que ocorreu aquele estupro coletivo no Rio de Janeiro. E foi muito por conta de seus posicionamentos que ele foi demitido da ESPN.

Em tempos de Fla-Flu ideológico, parece que não é visto com muito bons olhos pelos grandes veículos de comunicação o fato de seus funcionários terem uma opinião. Principalmente se não for a mesma opinião dos donos destes meios de comunicação, resultando assim, em pleno século XXI, no renascer de um certo macarthismo, que persegue todos aqueles com opiniões mais à esquerda. Trajano foi uma vítima deste macarthismo.

Confesso que, quando fiquei sabendo da notícia de sua demissão na quinta-feira (29/09), fiquei bastante chateado, e vi isso, primeiro, como mais um sinal de como está chato ser brasileiro nos últimos tempos, e, segundo, como uma premonição nada animadora para as eleições municipais que ocorreram no domingo.

Encerradas as apurações no mesmo domingo à noite, de fato os resultados não foram nada animadores. A grande exceção ficou por conta das eleições no Rio. E qual não foi minha alegria, quando assistia pelo facebook à comemoração pela ida de Freixo para o segundo turno, escutar uma voz conhecida no vídeo. Era o Trajano discursando e comemorando junto com a galera.  Pensei, o cara é fogo na jaca mesmo. Acabou de ser demitido de uma empresa que ele criou e onde trabalhou por mais de 20 anos somente por ter opinião, e já esta aí, de cabeça erguida, lutando pelo que acredita.

Isso me faz traçar um paralelo com o outro Trajano, o imperador romano. O Trajano de Roma ficou também conhecido como um dos melhores césares da história de Roma, tanto que, durante a Idade Média, teólogos como Tomás de Aquino o definiram como exemplo de um pagão virtuoso. Talvez seja apenas coincidência, ou apenas a fala de um admirador, mas tenho plena certeza de que o nosso Trajano, o do América, também é um pagão virtuoso, não nos mesmos moldes definidos por Tomás de Aquino, mas com virtudes pra lá de essenciais no Brasil de hoje: honestidade, justiça e coragem.

Obrigado, Trajano! No aguardo, ansioso para ver suas próximas “espinafradas”.

P.S.: Por se tratar de um texto em homenagem ao Trajano, a imagem obrigatoriamente tinha que ser relacionada à sua grande paixão, o América. No caso, Pompeia, o “Constellation”.