Por volta da segunda metade da década passada em fóruns estrangeiros de internet, tornou-se convenção entre internautas aplicar a figura do troll (uma conhecida criatura do folclore escandinavo) a pessoas que, em ambientes virtuais, tinham por simples propósito arruiná-los. Em especial em qualquer tipo de discussão envolvendo algum tema sério ou debate formalizado por regras. E isso frequentemente por meio de insultos, indiretas, fotomontagens de pessoas, floods intermitentes de mensagens, formação de grupos (ou popularmente, panelinhas) com a intenção de ofender a outras pessoas e coisas do tipo.

Passou-se então a difundir o pensamento de que não se deve alimentar o troll, a fim de obviamente, manter um bom e pacífico nível de convívio entre pessoas num ambiente virtual e por conseguinte, a boa qualidade de debates e discussões.

 Subsequentemente, o troll também foi associado ao que é conhecido como politicamente incorreto. Um termo que serve basicamente para designar tendências e atitudes socialmente repulsivas que estão basicamente ligadas ao humor negro (https://pt.wikipedia.org/wiki/Humor_negro). Bem como a externalização de preconceitos contra minorias e pessoas histórica e socialmente oprimidas.

Muito se tem falado nos constantes entraves entre o politicamente incorreto e o politicamente correto. Este último seria, de acordo com o Wikipedia, uma suposta política que consiste em tornar neutra a linguagem em termos de discriminação e evitar que possa ser ofensiva para certas pessoas ou grupos sociais, como a linguagem e o imaginário racista ou sexista (https://pt.wikipedia.org/wiki/Politicamente_correto#politicamente_incorreto).

Parece que com o passar do tempo e a constante discussão entre esses pontos na internet, cada vez menos se tem falado a âmbito mundial na figura do troll. Que como já exposto acima, era associado ao politicamente incorreto. Os conflitos entre politicamente correto e incorreto parecem ter colocado os trolls e a trollagem no mainstream. Com uma consequente supressão dessas figuras ao passo que, há um policiamento cada vez maior do humor negro e, como consequência deste entrave emocional, um número cada vez maior de trolls no lado politicamente correto da história.

Os trolls da década passada, que eram muito mais afins ao politicamente incorreto e ao humor repulsivo e de mau gosto, parecem ter dado lugar a um tipo de trollagem e de trolls que têm sido cada vez mais abundantes nos últimos, talvez, cinco anos e no mundo inteiro: são os trolls politicamente corretos, e como corolário, onde antes os trolls politicamente incorretos estavam ligados ao humor negro, os novos trolls estão ligados à correção política. E o que é mais importante e tão importante quanto aberrante, é o fato de que esses trolls falam em nome de movimentos sociais legítimos como o movimento negro, o feminista e o LBGT. De forma mais ambiciosa e pasmante, alguns até mesmo dizem falar em nome dos Direitos Humanos (https://pt.wikipedia.org/wiki/Direitos_humanos).

Uma característica muito curiosa dos trolls politicamente corretos é a similaridade de modus operandi (htps://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_operandit) que era típica dos trolls politicamente incorretos de outrora. Mas com algumas características diferenciadas.

Nos debates em que se envolvem, os novos trolls desmantelam qualquer tipo de argumentação racional utilizando-se de insultos (normalmente em escrita vulgar e centrada em gírias como “omi” ou “palmiteiro” no caso do contexto da internet brasileira), linguagem rebuscada, humilhação aos interlocutores, exaltam as experiências próprias (subjetivas) em detrimento de qualquer análise objetiva, juntam-se em grupos fechados de modo a fazer linchamento moral de indivíduos (não raro fazendo-lhes falsas acusações que vão parar nos tribunais), exposições de fotos de pessoas sem o consentimento delas, de fotomontagens ou até mesmo informações pessoais (nome, endereço, CPF); e por fim, comentários racistas, sexistas e que se enquadram em discurso de ódio, que por sinal era até poucos anos atrás a acusação que era comum de ser feita aos trolls do politicamente incorreto.

Com a evolução constante das redes sociais, as mudanças cada vez mais rápidas na forma como as pessoas nelas interagem, bem como o crescente senso de individualização, de auto-importância, necessidade de fama e narcisismo que elas vêm promovendo em muitos de seus usuários; parece que a gourmetização da trollagem nos últimos anos tem colaborado para a rápida ascensão dos trolls politicamente corretos. Que, carentes em suas vidas reais, suprindo suas fraquezas e vícios passando horas conectados à internet, e buscando problematizar a tudo o que suas crenças politicamente corretivas, desfrutam do que de mais fútil as redes sociais podem oferecer. Tudo com a mera intenção, muitas vezes, de “causar”, “lacrar” ou ainda “mitar”. Assemelhando-se, inclusive em morbidez, aos antigos trolls sociopatas. O pior, ao fim de tudo, é que os novos trolls dizem representar a causas legítimas e humanitárias. Mas isto talvez seja tema para linhas posteriores, e envolvendo a outros assuntos.

Ao final de tudo, é bom perguntar: até que ponto os trolls politicamente corretos ajudam ou denigrem às causas que dizem defender? E quais são as implicações sociopolíticas e culturais que tais atitudes podem ter?