Recentemente, gerou muita repercussão o “trote” do Marista Champagnat, de Porto Alegre, “Se nada der certo”, no qual alunos foram à escola fantasiados de profissionais como faxineiro e atendente do McDonald’s. Desde que vi as fotos, estou a refletir.

Primeiro ponto: não se trata de um caso isolado; tal prática é comum em vários colégios pelo Brasil. Ou seja, trata-se de uma “cosmovisão” de grande parte da classe média brasileira.

Segundo ponto: é preciso discutir o que leva algumas profissões a serem desvalorizadas e outras supervalorizadas. Ah, mas a resposta é óbvia: ninguém que estuda quer ser gari. E por que tantos querem ser médicos? Por vocação em salvar vidas?

Terceiro ponto: quem afirma que há doutrinação da esquerda nas escolas particulares (por parte dos professores de “humanas”, sobretudo) deveria repensar ao ver estas cenas. Quem doutrina é o senso comum, o mercado, a mídia. E isso desde que o aluno é bebê. Se pensarmos com profundidade, o próprio vestibular, aos moldes que está estabelecido, é um instrumento de doutrinação. E de segregação. Um aluno meu, do terceiro ano, afirmou à sala que não queria cursar faculdade. “Sou músico, quero estudar por conta, montar um estúdio e uma banda”, disse o jovem. Os olhares dos amigos foram de reprovação. Creio que tais olhares são a metonímia da sociedade, a ilustração do pensamento da maioria da classe média.

Quarto ponto: uma das características mais marcantes da mediocridade é medir o mundo com a própria régua. Aos olhos de quem tais profissões são menos importantes? O que subjaz esta visão é uma das muitas falácias do sistema capitalista: a meritocracia. Segundo o senso comum, quem se esforça chega “lá”. Mas os que assim pensam não levam em consideração o contexto, o ponto de partida que é desigual entre quem nasce na favela e quem nasce no Alphaville.

Quinto ponto (e mais importante): para ser “alguém na vida” é preciso curso superior? O que significa ser alguém na vida? Significa ter dinheiro e prestígio, mesmo em detrimento da empatia e da felicidade? Pois prefiro ser ninguém, então. Prefiro ser ninguém como meu pai. Luiz Carlos, o Alemão, parou de estudar no quarto ano para ajudar os pais financeiramente. E é uma das pessoas mais sábias que conheço. Como funileiro, constituiu família e formou dois filhos. Suas palavras, seu modo de agir e seu modo de pensar não passam pela erudição dos diplomas ou da academia. Não passam por palavras como “sucesso” ou “status”. Este homem, semianalfabeto, é meu maior professor. É nele que me guio para ser uma pessoa melhor. Mais humana. E mais inteligente.