O Nordeste é referência em belezas naturais, principalmente as litorâneas, não à toa, o turismo ferve nas praias da região, movimentando a economia e o calor daquele povo. Essa informação já não é nenhuma novidade, a região já deixou bem claro que de encantamento ela entende muito bem, mas isso vai muito além do turismo de sol e sal. O interior nordestino guarda segredos repletos de emoções e singularidades, você perceberá em instantes o porquê de o turismo rural e o ecoturismo estarem com tudo por aquelas “bandas”. É hora de arrumar as malas e deliciar-se em um roteiro cheio de experiências culturais – e de amor, afinal, diferente do que muitos pensam, o nordestino tem, sim, orgulho de sua terra.

CEC_6516O destino indicado é Cabaceiras, onde monumentos naturais e a tradição da caprinocultura movimentam a economia local. O município é localizado no interior da Paraíba e de início já podemos adiantar: a viagem vai ser “massa”. A 180km da capital e com pouco mais de 5 mil habitantes, Cabaceiras esbanja surpresas em sua simplicidade, seja na entrada com o letreiro “Roliúde Nordestina”, título ganho sobre o qual falaremos mais adiante, nas inúmeras estátuas de bode espalhadas por toda cidade, animal majestoso na região, ou até mesmo nos seus habitantes, figuras típicas de uma terra fascinante.

Inclusa geograficamente no semiárido brasileiro, o município tem o menor índice pluviométrico do país, tendo esse título por seus longos períodos de estiagem. A irregularidade das chuvas e as altas temperaturas por muito tempo foram observadas apenas negativamente, afinal, se não há água a população inicia uma migração forçada para regiões mais favoráveis, o que anteriormente acontecia. Porém, desde 1998 o olhar para essas características transformou-se em orgulho para muitos cabaceirenses, isso porque foi nesse período que chegou a produção do Auto da Compadecida, aventura do escritor paraibano Ariano Suassuna. Foi então percebido cenário e luz propícia para produções cinematográficas, abrindo caminho para mais de 30 produções em Cabaceiras, tais como: Aspirina e os Urubus, O Auto da Compadecida, Romance e a novela Aquele Beijo, de Miguel Falabella, produzida pela Rede Globo.

O sucesso das produções ali feitas foi tanto que Cabaceiras ganhou o título de Roliúde Nordestina, acompanhado de um letreiro gigante com o tal apelido “aportuguesado”, fazendo referência a Hollywood norte-americana e dando as boas-vindas a quem chega. A certeza de céu limpo já não é mais motivo de tristeza para aquela população, mas sim mais uma oportunidade de viver em sua terra, junto de sua gente, fazendo o que há de melhor: mostrando a quem chega que o sertão é muito mais que seca.CEC_7685Adentrando a cidade teremos entre as atrações turísticas um memorial cinematográfico com matérias, fotos, cartazes e materiais dos filmes ali rodados, além de um Museu Histórico e Cultural do Cariri Paraibano. Passeando por entre as ruas você conhecerá também as belas praças inspiradas na cultura da região, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, local onde surgiu a cidade, e cenário da matança dos personagens do Auto da Compadecida – todo mundo vai lembrar. A Roliúde Nordestina é cheia de charme e seu centro histórico é marcado por suas fachadas coloridas, chamando a atenção com sua arquitetura neoclássica, erguida entre os séculos XX e XXI, ainda com um pouco da arte décor em prédios reformados nas décadas de 20 e 30.

CEC_6791Em meio a cultura e memórias, Cabaceiras se destaca com uma vegetação propícia para criação de caprinos, a caatinga, e, mais uma vez, o povo soube fazer da terra seca, abundância. Do animal é aproveitado o leite, a carne e o couro. Sua majestade é incontestável no Cariri e não à toa ele virou celebridade em Cabaceiras com uma festa anual dedicada a sua realeza, a festa do Bode Rei. Em sua 18ª edição, o festival que une exposições de animais, apresentações culturais, agronegócio e expofeira é sucesso em todo o país, ultrapassando até as fronteiras e recebendo turistas de diversas nacionalidades, todos envoltos nas tradições paraibanas. Para encerrar a visita na zona urbana, que tal um Xixi de Cabrita ou uma bodeoca?! A bebida com leite de cabra e a tapioca recheada com carne de bode foram criadas para as festividades do município, mas acabou virando paixão de quem chegava e é sucesso o ano inteiro.

Saindo um pouco da cidade, a rota agora segue para histórias de desenvolvimento, vamos conhecer o Distrito de Ribeira. Ao chegar você pensa que a comunidade está abandonada, apenas o sol iluminando o chão – enganamos a nós mesmos. Logo após começamos a ouvir o barulho do martelo, da máquina de costura, do rádio ligado. Logo, logo seu Messias vai até sua porta ver quem está chegando, Jandinho e seu irmão Bruno abrem o sorriso para uma nova visita, as moças das sandálias alegram-se em receber os turistas. E sabe o que eles estão fazendo? Arte. Uma arte que é tradição centenária na comunidade, o artesanato em couro, couro do majestoso bode.

Passado de pai para filho há mais de 100 anos, o artesanato em couro hoje é uma das principais fontes de renda de seus habitantes, fazendo com que o processo de migração reverta; agora vários nativos retornaram à sua origem graças ao artesanato. Na Ribeira você pode vivenciar o cotidiano dos artesãos, entrar em suas oficinas, participar da montagem das peças, conhecer o tratamento do couro no curtume, além de estar em contato com um povo hospitaleiro e fraterno, onde o sorriso destaca-se dentre os galhos secos.

Tendo conhecido o Distrito, que tal agora seguirmos para o maior lajedo do mundo?! Isso mesmo, o lajedo de maior extensão do mundo fica na Paraíba, e no interior. Com mais de 10 km de expansão desde seu afloramento, o Lajedo de Pai Mateus situa-se em uma área particular, onde antes havia atividade de fazenda. Hoje, a sede da antiga propriedade é base do Hotel Fazenda Pai Mateus e recebe todos os anos mais de 8 mil visitantes, tendo o turismo como renda principal.

O acesso à fazenda é fácil, mas se você é “arretado” não vai perder a oportunidade de chegar até lá através de uma trilha ou de bike – nesse caso é preciso agendar o passeio -, sabendo que o trecho chega a aproximadamente 8 km; então é necessário preparação física para tal atividade, já que para subir no lajedo vai ser necessário também esforço. A grande rocha de granito fica em uma Área de Proteção Ambiental (APA), as formações arredondadas são exclusivas do território do lajedo, podendo encontrar semelhantes apenas na África e na Austrália, mas nada que se compare à beleza e grandeza da arte feita pela natureza em pleno Cariri paraibano.

Estudos dizem que o processo geológico de erosão e variação climática vem de milhões de anos, presenteando a região com uma beleza peculiar e de fácil encantamento. O nome do lajedo originou-se de uma lenda do século XVIII, que diz que um ermitão curandeiro viveu naquela região. Muito solicitado pela população da época, que o procurava para se consultar, ele não cobrava dinheiro, apenas alimento, sendo lembrado até hoje e homenageado com o nome do lajedo.

Também viveram ali os índios Cariris e suas marcas foram deixadas em pinturas em algumas pedras, dando ainda mais emoção em estar naquele cenário. Na verdade, a visita ao ponto turístico é emocionante do começo ao fim, desde estar à beira daquela enorme construção natural, observando sua estrutura e imaginando como tudo chegou àquele ponto, ouvir a história de cada pedacinho dali, até subir lá no alto e assistir a um pôr do sol mais sereno possível. Hoje Cabaceiras é rota certa dos amantes do ecoturismo no Brasil.

A paz que é encontrada no lajedo de Pai Mateus é um de seus destaques, há grupos de visitantes que chegam ao local direcionados exclusivamente a se purificarem, tendo o espaço como referência, sossego, desapego, controle espiritual. É inegável que a sensação de estar ali seja essa, o barulho de buzinas não se ouve, os “bips” dos celulares silenciam e é possível enxergar a leveza de quem ali está.

Vizinho ao lajedo há outra formação rochosa bem interessante, a Saca de Lã. Com aproximadamente 600 milhões de anos, ela vem sofrendo um processo erosivo, o efeito dessa erosão causou o formato de empilhamento, porém, ela surgiu de uma só rocha, desenhada ao longo do tempo. O nome Saca de Lã vem de sacos de algodão que os nativos comparavam a  caminhões carregados de algodão.

Realmente, o Nordeste é encantador e esconde singelas surpresas que só um povo com uma identidade tão forte teria. Quem visita Cabaceiras quer voltar e com certeza encontrará sempre algo novo, afinal, a natureza se reinventa e se mostra no reavivamento.

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Mariana Castro é formada em Comunicação Social com habilitação ao jornalismo pela Universidade Estadual da Paraíba e apaixonada pelo povo e cultura nordestina.