– Com licença, Mademoiselle. Dar-me-ia o privilégio de sentar à sua companhia?

– Você Trabalha pro Temer?

– Como assim?

– A mesóclise.

– Não, não. Só estava tentando ser educado.

– Tudo bem. Pode sentar.

– Obrigado. Você viu o maître, por acaso?

– Métri?

– Não, maîtri. É francês, mon cherri. Desculpe-me. Quis dizer garçom.

– Aqui no tradutor do meu celular tá dizendo que esse tal maître quer dizer outra coisa… Não entendi muito bem, mas acho que não é garçom não… Na verdade sempre achei que garçom em francês fosse garçom mesmo.

– Whatever. Em alguns lugares da França essa palavra também é usada para designar a pessoa que atende em restaurante. Acho que podemos usá-la para esse botequim…

– Você é francês?

– Não.

– Morou na França?

– Não.

– Então, porque cargas d’água fica falando em francês?

– É por causa da minha profissão.

– E o que diabos o senhor faz? Aliás, acho que já está hora do senhor me que dizer quem é você. Não é mesmo?

– Bond…

– James Bond?

– Não. Josué Bond à sua disposição. Ou Dôbou Ôu Five.

– Como?

– 005.

– O senhor tem algum parentesco com o James Bond?

– Primo em décimo primeiro grau.

– E o senhor também é agente secreto?

– Exato. Por isso falo vários idiomas. Ah, o maître enfim apareceu. Olá, meu rapaz. Que cerveja você tem, por favor?

– Pro cliente ai sugiro uma skolzinha canela de pedreiro. Branquinha branquinha.

– E quanto custa essa belezura?

– Pro senhor eu faço pela merreca de doze reais?

– What a hell? Eu não sabia que isso aqui era um cabaré.

– E não é, doutor. No cabaré aqui do lado está dezoito reais no engradado. Se botá pra gelá é bem mais caro.

– Ok, ok. Você tem algo mais em conta?

– Tenho a Javali Selvagem.

– Não conheço. Quanto tá?

– Metade do preço.

– Metade do preço do quê?

– Da mais barata.

– Então, me veja uma, por obséquio. Traga um copo para moça e mande fazer meia porção de batata frita.

– É pra já, meu senhor.

– Achei que vocês agentes só bebiam Martini. Batido, não mexido. Ou seria o contrário?

– Não tenho a mínima ideia. Mas, onde paramos, minha querida? Ah, lembrei. Você me dizia que não conseguia parar de olhar para os meus olhos.

– Eu? Não tô lembrando disso não. Que eu saiba você estava falando que era agente secreto e tudo mais.

– Ah… Ainda estávamos nas preliminares…

– E tem mais. Eu nunca tinha ouvido falar de um agente secreto brasileiro não. Escuta, esse terno ai é de tergal?

– Qual o problema?

– Nenhum. É que achei que vocês agentes gostassem de roupas mais finas. O seu primo só usa Tom Ford. Não é mesmo?

– Não sei. Não nos damos muito bem. O problema é que aqui no Brasil as coisas são diferentes. Ficou muito pior com o novo governo. Só não acabaram com nossa agência de espionagem porquê existe uma ameaça dos venezuelanos invadirem o nosso país. Não queremos que nossa casa se torne uma ditatura comunista, não é mesmo?

– E é por isso que você tá aqui em Rio Branco?

– Parfaitement, mon amour. Eu vim investigar um jogo de Pif Paf. Temos fontes seguras que um agente do Daniel Ortega está no Acre para realizar uma grande venda de armas para os insurretos locais.

– O Daniel Ortega não é presidente da Nicarágua? Achei que você tivesse dito que a sua agência estava tentando nos proteger nos venezuelanos.

– It doesn’t matter. Estão todos juntos para levar o plano de Fidel às vias de fato. Todos querem invadir o Brasil.

– Fidel Castro? Ele não morreu?

– Fidel está mais vivo que nunca, Darling. Ele nunca esteve ruim. Sua doença sempre foi uma parte de uma estratégia nazista para que as forças armadas brasileiras abaixassem a guarda.

– Nossa, mas que confusão. Os nazistas também estão envolvidos nisso? Só falta você me dizer que Hitler está vivo e mora no Brasil.

– Psssiuuuuuu. Fale baixo. Você quer morrer? Como você descobriu isso? Você também é agente?

– Gente, tô beje. É claro que não agente, seu Bond. Sou cabeleireira. Você pode me dizer se estamos correndo algum perigo?

– Sim, evidente que sim. A segurança nacional está em jogo.

– Tem algum Josué Bond aqui no bar? Por acaso é o senhor?

– Por supuesto que si. Porque quieres saber?

– É que tem um recado pro senhor. Mandaram dizer que o jogo de Pif Paf que estava agendado pra hoje foi transferido para Toledo, no Paraná. Disseram que vão entrar em contato.

– Mierda. Eu estava com as duas mãos naquele canalha. Mas não tem problema. Em breve ele é todo meu. Você sabe qual o primeiro ônibus pra Toledo, honey?

– E o Aston Martin? Ou vai me dizer que também não tem carro?

– Brasil, minha filha. Brasil. Tem ônibus ou não tem?

– Tem, mas só na semana que vem. Se quiser pode pegar uma van de linha até Porto Velho. De lá deve ser fácil achar um transporte pro sul do país.

– Perfeito. Você poderia suspender a cerveja e embrulhar a batata pra viagem, meu rapaz?

– Eu já abri a cerveja, doutor. Já tava colocando na mesa agorinha mesmo.

– Oh, shit. Então pega uma garrafinha de agua mineral vazia e coloca dentro.

– Só tem de coca dois litros.

– Serve. Você vem comigo, amor? Estou na pensão aqui ao lado.

– Só se você gravar um Snapchat comigo. Minhas amigas vão morrer de inveja. Duvido que eles conheçam um agente secreto. Pode ser?

– Só se for pra ontem, love. Só se for pra ontem.