João é pedreiro. Negro. Pobre. Mora na favela do Cesarão. Pai de três filhas que ama profundamente. Foi pai adolescente, numa loucura de baile funk. Não fugiu, casou e ajudou a criar. Não foi para o crime só pelo medo de morrer e deixar desamparada a filha. Foi ser peão de obra. João está trabalhando agora numa obra no Leblon. Coisa de milionário. Ele nunca vai poder ficar parado na portaria depois de pronta, mas ele é quem vai construir. João acorda às quatro da manhã pra pegar um trem e dois ônibus e chegar ao seu trabalho. Ele só sabe ler direito mesmo números. Dá pra pegar os ônibus certos. Só consegue chegar em casa às nove da noite, porque é roubado na jornada de trabalho, roubado no transporte, roubado na vida. João é a negação da ideia econômica liberal de que o agente econômico busca maximizar o prazer. Não. João só busca hoje em dia um futuro melhor para as filhas. Agora é hora do almoço. João come seu único luxo na vida: a marmita.

Patrícia é estudante. Branca. Rica. Mora no Leblon. Filha de pais ricos que só conheceu da vida o amor e o conforto. Sigilosa detentora de uma coleção de mais de cinquenta Barbies que esconde embaixo da cama. É muito gostosa. Gostava de usar um mini short para andar na praia e ser olhada de cima a baixo. Mas aí entrou na PUC-Rio. Lá teve aulas com uma professora pós-moderna que lhe ensinou que o mundo era dividido em duas classes: a dos opressores e a dos oprimidos (não, não é marxismo cultural, caro leitor olavete). Os opressores são os omi. Pirocos. Estupradores por natureza, que se refastelam na cultura patriarcal onde reinam. Marxismo é só parte da ideologia falocêntrica que serve para mascarar a verdadeira relação de opressão de classe: a da classe dos homens sobre a classe das mulheres. É por isso que ela gostava de ser desejada sexualmente. Mas era tratada como objeto e não sabia.

Hoje as vidas de João e Patrícia vão se cruzar. Ela está voltando para seu apartamento de cinco quartos na Rua General Urqiza onde mora com o papai e a mamãe, quando passa pela obra do João. O João está comendo sua marmita, mas comete um erro fatal: embotado pelo tédio e pelo trabalho, segue seu impulso natural e olha hipnoticamente para a bunda ma-ra-vi-lho-sa da Patrícia. Patrícia percebe, fica indignada. Ela está sendo tratada como um objeto sexual por aquele opressor brutal. Ela discursa. Ela é tomada por um furor revolucionário. A confusão é tanta, que o João é demitido.

Daqui a sete anos, João vai estar doente, cheio de pó nos pulmões, por causa das obras onde terá trabalhado por quase trinta anos. A filha dele vai ter entrado numa universidade graças a políticas de ação afirmativa. Ela vai encontrar outra professora pós-moderna que vai lhe ensinar que seu pai é um opressor brutal, que a formou numa família patriarcal, que a gerou estuprando sua mãe então menor de idade. A filha vai questionar a opressão do pai, sua criação sob o regime do patriarcado. João não vai entender nada, mas, como a filha é estudada, inteligente, o orgulho de sua vida, ela deve estar certa. Ele deve ser uma merda de ser humano. Ele vai ficar tão triste que vai agravar sua condição física. Em alguns meses, João vai acabar morrendo numa fila de hospital. Bem, menos um opressor no mundo. Mas, caros leitores, o conto ainda não acabou.

Tem a Patrícia. Patrícia estará bem. Estará curiosamente morando no prédio que João ajudou a construir. Ela terá se formado e trabalhará na Globo, ou na Monsanto, ou no Bank of America. Nada disso, no entanto, tirará dela a certeza de que é uma revolucionária. Continuará se considerando uma heroína da justiça social, lutando contra a opressão da verdadeira classe dominante.

FIM (da esquerda).