Encontro 1: No consultório, os pais com seus 70 anos, aproximadamente, e a filha de uns 40 e poucos, cuidadora de ambos. A mãe, saudável. O pai, hipertenso e diabético, muito bem cuidado, por sinal, pela filha, que parou de trabalhar para poder se dedicar a eles integralmente. “Mas seus pais estão bem, são independentes. Pq vc decidiu ficar por conta deles?” “Ai, doutora Júlia… um dia eu te conto.”

 

Encontro 2: mãe e filha. “Doutora, vc pode separar essas medicações em duas receitas, por favor? Consegui em duas farmácias diferentes.” “Claro. E como estão as coisas em casa?” “Ai doutora, difícil. Meu pai é difícil demais, sá! Mas é desde sempre. Pirracento, briguento, faz muita bagunça. Eu lavo roupa dele todo dia. Ele bagunça a casa toda… nossa, uma confusão.” “Ele é ruim, doutora. Mau mesmo. A família inteira não gosta dele pelas coisas que ele já fez comigo e com meus filhos.” Fiz a receita e, como naquele dia eu não teria tempo para escutar as histórias que elas tinham pra contar, marquei pra que voltassem.

 

Encontro 3: mãe e filha. “Ele é mau doutora, mau. Índole ruim. Já apanhei muito a vida toda. Agora ele não me bate mais pq meus filhos cresceram e ele não dá conta. Ele tem ciúme de mim com meus sobrinhos, com os filhos das minhas amigas, com todo mundo. Antes, quando eu saía para entregar encomentas do meu trabalho deixando a casa toda arrumada, ele chegava e jogava tudo no chão. Quebrava a casa toda, tirava tudo dos armários, bagunçava as camas, colocava minhas coisas de cozinha na lixeira da rua para os vizinhos pegarem.” Isso não está mais parecendo um caso de um marido ciumento… “Doutora, todo dia eu lavo toda a roupa de cama dele. Ele faz cocô em cima da cama.” “Ele usa fralda?” “Não. Ele faz pq quer. Mesmo quando ele usa o banheiro, ele faz no vaso, no chão, no box, no tapetinho… Faz como uma afronta! É ruindade.” Agora ficou claro. Esse senhor está doente. Ou alguém conhece outro senhor de 70 anos que faz cocô na cama e dentro do box do banheiro pra afrontar a filha? “Então, gente… eu não estou achando que isso seja ruindade, não. Vocês conhecem alguém que faz coisas parecidas?” “Ninguém!” “Vocês nunca pensaram que ele pode ser portador de um transtorno mental grave e que isso inclusive traga sofrimento pra ele mesmo?” Olhavam pra mim como quem acha graça. “Tô falando sério. Se vocês me autorizarem, vou discutir o caso com o psiquiatra e é provável que ele vá indicar um tratamento que amenize o comportamento dele e torne a vida de vocês um pouco mais fácil.”

 

Encontro 4: mãe e filha. Discutido o caso com o psiquiatra. Receita entregue, orientações feitas. Olhinhos de esperança me fitando… Não posso vender pra vocês um peixe que eu não tenho pra entregar. Seria irresponsável eu dizer que esses comprimidos vão transformá-lo em outra pessoa. O que eu espero é que o comportamento dele se torne um pouco mais adequado e que cuidar dele não seja tão sofrido pra vocês. Boa sorte pra nós!” Saíram segurando a receita e os comprimidos. Carregavam esperança de dias melhores! Que loucura é essa vida. Pedi notícias assim que possível, e elas vieram.

 

Encontro 5: “Doutora, eu vim aqui pra te falar que eu já perdi as contas de quantas vezes eu já contei essa história pra outros profissionais. Você foi a ùnica pessoa que realmente quis ouvir.” “A família toda mandou te agradecer. Meus irmãos voltaram a frequentar a nossa casa! Minha mãe já sai sem preocupação. Nossas noites de sono são tranquilas. Meu trabalho com a limpeza da casa reduziu em 90%.” “O comportamento dele melhorou uns 70%. Continua chato, né doutora, mas remédio pra chatice acho que ainda não inventaram! Se já existisse, a senhora ia ter uma fila de esposas na sua porta, dobrando o quarteirão!” Sorrimos e nos abraçamos! A sensação de ter feito a diferença na vida deste paciente e da sua família é uma das melhores que já senti.