Era um morto-vivo. Consumido pela droga, balançando entre a loucura e a fissura, insistia em permanecer de pé. Um amontoado de ossos recobertos por pele. Uma caveira. Cabelos ralos. Fraco como o quê…

PRIMEIRA CONSULTA:

“Oi Doutora Júlia, boa tarde. Senhora é médica da minha mãe e da minha filha – e sorri. Somos fãs da senhora cantando.”

“Obrigada, Carlos. Fico feliz. Mas me conta, como posso te ajudar?”

“Eu vim hoje pra ver se posso tomar um remédio pra engordar. Tipo uma vitamina.”

“Sim, remédio pra engordar. Você sempre foi assim magrinho?”

“Não! Eu era bonitão. Casei, tive filhos. Emagreci recentemente. Tem uns 2 anos. Mas agora to magro demais. Por isso que eu vim pegar a vitamina.”

“Qual vitamina você gostaria?”

“Todas que eu puder?”

“Mais alguma coisa além das vitaminas?”

“Uns exames… ou melhor: todos os exames.”

“Exames… beleza… E me conte uma coisa: tem 2 anos que você tá emagrecendo, né? Por que você decidiu vir agora? Tem alguma coisa que te motivou a vir?”

Abaixou a cabeça e esfregou as mãos. “Uso crack. Aí eu pensei que talvez, assim… se tivesse um tratamento pra tentar parar de usar…”

SEGUNDA CONSULTA:

“Ei Doutora Júlia, bom dia! Eu vim antes de pegar os resultados dos exames por que…”

“Espera. Vou fechar a porta.”

“Você sempre fecha a porta, né. Muito bom!”

“Não quero que ninguém escute a nossa conversa.”

“Então, eu to muito nervoso hoje. Muito nervoso. Vim aqui pra acalmar um pouco. Só pra você falar umas palavras pra eu acalmar.”

“O que houve? “

“Não fumei pedra nem ontem, nem hoje.”

“Espera, vou passar a chave na porta.”

“Posso deitar na maca igual aquele dia?”

“Pode.”

Deitou, fechou os olhos, respirou fundo… “Pode falar.”

“O que?”

“As coisas boas pra eu acalmar.”

Eu chorei. Mas ele não viu por que tava de olho fechado

TERCEIRA CONSULTA:

“Os exames.”

“O coisa boa! Chegaram.”

“Dez dias hoje, doutora. Dez dias.”

Eu sorri. E ele sorriu, também.

“Seus exames estão muito bons.”

“Sério?” Levantou da cadeira. Andou até a maca. “Sério, mesmo?”

“Sério!”

“Doutora, eu não tô com Aids?”

“Não. Nem Aids, nem nada. Está com saúde para dar a volta por cima!”

“Vou te dar um abraço!” Chorando e tentando disfarçar. Nos abraçamos.

“Eu to tão feliz por você, sabia?!”

“Gente, que felicidade! Dez dias! Dez dias! Mas doutora, tá difícil, viu. Quando passo um nervoso lá em casa, sobe aquela vontade de ir pra boca fumar. Tem hora que eu acho que nem vou conseguir.”

“Então vamos combinar uma coisa. Se você quiser, nessas horas que estiver prestes a perder o controle, você venha aqui. Você pode me esperar aqui na porta. Quando sair um paciente, você entra antes de chamar o outro. Aí, conversamos. Se precisar, usamos alguma medicação para ajudar.”

“Só conversar já melhora demais. Você não faz ideia.”

“Então, combinado.”

“Você viu que engordei 2 quilos e meio?”

“Eu vi!” “Foram as vitaminas.”

“Não. Foi você!”