Como eu havia prometido no texto passado, hoje tratarei sobre o último dos problemas relacionados ao processo de compreensão dos acontecimentos políticos recentes do Brasil: o autismo intelectual. É claro que essa dificuldade de entendimento vai muito além da seara citada. Envolve todo e qualquer tipo de compreensão do mundo.

Esse pensamento não é novo. Já falei dele em outros textos. No entanto, gostaria de trazer uma abordagem diferente para o tema.

No livro Obesidade mental, o antropólogo americano Andrew Oitke nos diz algo alarmante.  Um dos grandes problemas da população americana é o sobrepeso. A cada quatro americanos, um sofre de obesidade. No entanto, para o catedrático de Harvard, a maneira rasa como sua sociedade toca todos os assuntos gerais é muito mais preocupante.

Façamos um teste. Pegue um assunto universalmente conhecido e pergunte a qualquer pessoa que você conheça para que ela lhe forneça o máximo de informações a respeito do tema escolhido. Tente a segunda grande guerra, por exemplo. Eu garanto que em 99,9% dos casos a pessoa não dirá mais do que três informações – independente de serem verdadeiras ou não.

Se achar que a segunda guerra não é um fato tão relevante, escolha outro. Você também pode pegar nomes de personalidades impactantes, como Mandela, Kennedy ou Hitler. Evite subcelebridades históricas. Ainda assim, a maioria conseguirá catalogá-los como bons ou maus, ou, no máximo, papagaiar meia dúzia de obviedades que ouviram em algum lugar de que não se lembram.

Mas e por que isso é importante? Visualizar tanto o perfil intelectual da sociedade quanto o processo de construção do seu conhecimento nos ajuda a compreender o porquê de sua deficitária visão em relação a todos os demais assuntos.

De maneira geral, as pessoas se utilizam de um certo reducionismo para assimilar tudo que acontece a sua volta. Elas precisam reduzir todos os fenômenos até que eles caibam dentro de sua cabecinha.

Voltando à segunda guerra mundial. Não é simples entender o que aconteceu ali. Porém, não é impossível. Você precisa estudar a constituição da crise do país, relacioná-la com o que estava acontecendo na Europa e no resto mundo, ler autores que o façam conhecer melhor o perfil daquele povo, quais interesses estavam em jogo, os mecanismos usados para a manipulação da sociedade, entre outras coisas. Depois de um tempo, você terá condições de ter um pensamento mais crítico a respeito do fato.

E por que as pessoas não fazem? Exatamente por causa da limitação cognitiva. Nesse momento, associaremos o agravante que torna a burrice um problema ainda menor: a preguiça. A parte mais lamentável é saber que algumas pessoas – se não a maioria – não fazem qualquer esforço para compreender os fenômenos.

Eu conheço dezenas de pessoas assim, que nunca abriram um livro de sociologia, de economia, de ciências politicas, que sequer tinham hábito de ler um jornal minimamente confiável e que, nessa crise brasileira, discursaram como doutores sobre o tema. Evitarei entrar no problema da má-fé e da incompatibilidade ética de alguns.

Nesse sentido, é possível entender por que grande parte das pessoas se deixou mover por esse teatro porcamente encenado do país. O pior é que, mesmo diante de tudo que está acontecendo, existem os que continuam ratificando seu posicionamento. Mas agora o problema não é mais falta de entendimento. Agora se trata de não reconhecer que estava errado. O ego substituiu o lugar da preguiça e da burrice.

Há dez meses, quando comecei a escrever sobre o assunto, eu disse que uma parcela significativa do pequeno grupo de pessoas por trás do golpe queria empurrar a conta-Brasil para as classes menos favorecidas.

O novo governo está fazendo jus a isso: flexibilização da jornada de trabalho, diminuição dos direitos sociais e trabalhistas, aumento do tempo de contribuição previdenciária etc. Ele também congelou o investimento com gastos sociais por vinte anos. Uma estratégia para forçar a migração da sociedade para os planos privados. Em seguida, para a privatização dos demais setores em que o governo ainda atua.

Se a crise é de todos, e todos devem fazer sacrifícios para sair dela, por que ainda não vi nenhuma medida suspendendo, ou mesmo diminuindo, os privilégios do outro lado?

Em 1992, no impeachment do Collor, mesmo jovem para entender tudo que estava acontecendo, era possível perceber que os caras-pintadas estavam apenas representando um papel simbólico em toda aquela farsa. Vez ou outra, o sistema gosta de nos fazer acreditar que temos alguma relevância no processo democrático.

Vinte e quatro anos mais tarde, a mesma peça é encenada. Surpreendentemente, com boa parte do elenco passado.

Despeço-me parafraseando algumas linhas do poeta de nome Agenor, que, apesar de burguês, entendia muito sobre as pobres figuras com quem dividia o mesmo palco.

“Vamos cantar aos miseráveis, que vagam pelo mundo derrotados, para todos os que veem a luz no fim do túnel, mas não iluminam suas mini-certezas, nem mudam quando é lua cheia… vamos pedir piedade, apenas piedade, para essa gente careta e covarde.”