Ele detestava estas frases de efeito, prontas e acabadas, que são tomadas inconsequentemente e postas como legendas em fotos nas redes sociais, por pessoas com baixa autoestima e abatumadas por dentro; pessoas que usam estas frases apenas para parecer inteligente e parecer que sabe das coisas. Essas frases que, sempre vazias de sentido, buscam impressionar mais pela métrica que pelo conteúdo propriamente dito. São péssimas, ele dizia, até porque… ninguém lê. Mas havia uma de que ele dizia gostar; uma frase que, no seu entendimento, encerrava uma compreensão pura daquilo que enunciava. Era só mais uma frase de efeito que masturbava o pensamento como todas as outras, mas que, se bem analisada, dizia algo, mesmo que algo débil; uma destas frases que ensimesmava o leitor, que fazia qualquer um se embotar e querer deitar no escuro, com alguma música melancólica, torpe, que não desanuviava o pensamento. “A vida é o que acontece enquanto você espera que ela comece”, era a frase que ele dizia gostar. Uma frase tosca, retirada do discurso de alguém que está prestes a morrer, e que levou uma vida triste e monótona; uma frase frouxa, que se desprendeu do texto da vida de alguém, de um alguém qualquer e sem importância, que trabalhou uma vida inteira até começar a perder a saúde e, tardiamente, resolveu viver, mas já era tarde, pois lhe restava pouco tempo para terminar a própria cova, e era necessário se apressar; uma frase que pareceu ser construída com ladrilhos, que formam um mosaico que, com alguma sorte, finalizarão um desenho torto, mal feito, desagradável e que ninguém se importa.

Ele, afinal, gostava de fazer parecer que não deixava a vida passar. “Vamos lá, vamos aproveitar a vida, meu caríssimo amigo; deixemos pra depois o que pode ser deixado para depois, e não percamos tempo; a vida já está acontecendo desde antes de nós”, dizia, enrolando o tempo, alisando o cabelo e esparramando as farpas da roupa, tingidas de branco, com penugens de roupa velha. Era, como sempre dizia para mim e para ele, um tolo; um tolo qualquer, que se ilude que a vida seja só uma aventura, uma trilha por onde o carro passa a toda velocidade, erguendo poeira e fazendo pedras estilhaçarem contra pedras; só mais um tolo que imaginava que a vida era um grande filme de ação, com morros de pedras que dão para precipícios, e que é necessário pular, se jogar, se arriscar. Uma criança, por certo.

Sempre o olhava com perplexidade; um misto de incredulidade e piedade, uma compaixão falsa, própria dos superiores, que olham com benevolência e dó, ao mesmo tempo. Pensava na sua infinita ingenuidade e na sua amabilidade inocente, e no quanto acreditava na força da vida. Sim, na força da vida, como ele mesmo dizia; “a vida nos carrega, meu amigo; é necessário deixar-se, soltar-se, plumar-se, pois ela sabe exatamente o início e o fim do trajeto; sabe do resultado de nossas vidas; nós só sabemos do processo, do caminhar, da ação, do ir e vir”.  Pensava sempre que era um iludido; um iludido, certamente, que pensava que a vida iria recompensá-lo pelas inúmeras travessuras desmedidas, pelos sorrisos fáceis e pela ingenuidade e facilidade com que amava. Amava e desamava, pois era tão inconstante que não sabia se ainda mantinha os projetos de meia-hora atrás; tão inconstante que parava para fumar e, após a primeira tragada, já estava pronto para partir.

Mas, ainda em se tratando das frases de efeito, parecia coerente que gostasse desta que falava sobre a dimensão da vida e do viver; afinal, ele não reservava roupas para o domingo, para uma ocasião especial, tampouco poupava seus perfumes. Usava tudo num dia só, como se fosse o último, de modo que não se arrependesse depois, caso tivesse engordado, de ter perdido uma calça ou uma camisa, ou caso já não gostasse mais daquela muda de roupa, que comprara com tanto esforço, a considerar seu baixo orçamento. Não deixava pra comer feijoada no sábado, caso sentisse vontade; comia feijão preto no domingo, se assim o quisesse; ligava para aquela pessoa distante, que quase morrera mês passado, no seu sentimento ou na sua lembrança, embora estivesse plena de saúde, vivendo pacatamente em lugares remotos, que não desejava visitar ou conhecer.

Eu realmente ficava interessado na sua conduta, pois, enquanto vivia à luz do futuro, pensando nos meus projetos de médio e longo prazo, ele só se preocupava com a companhia para o hoje, no lugar em que beberia mais um café, ou se transaria mais tarde. É claro que levava sua vida profissional com normalidade; cuidava de suas responsabilidades, trabalhava e estudava, fazia por merecer o ridículo salário que ganhava, mas… mas não se preocupava com isto tudo. Dizia, cada vez que o interpelava sobre alguma questão importante do dia: “se seus problemas têm solução, então não se preocupe com eles; se seus problemas não têm solução, então não se preocupe com eles; é inútil, é perda de tempo, é desgastante, é mortificante”; soava tão clichê, tão repetitivo e tão pobre, que parecia ter saído de alguma música do Roberto Carlos, ou de algum livro oitocentista, ou mesmo de uma radionovela.

Trabalhava, sim; estudava também; mas parecia que isto não lhe pesava na existência. Fazia com esmero, com dedicação, com entusiasmo; “Hoje, farei o melhor trabalho dos meus dias! Estudarei de modo que nunca estudei antes! Amanhã, se tiver a sorte de ter um trabalho ou algo pra estudar, superarei o hoje”. Aquilo, definitivamente, me deixava encasquetado; “só por hoje”, respondia, ao fim do expediente, ou ao final de um relatório, quando balançava de um lado para o outro a xícara de café frio e sem açúcar, que bebia como se fosse o vinho de Olimpo.

Vivia no hoje, como ele mesmo dizia; vivia tão no hoje que chegava a ser enjoativo o seu otimismo, o quanto acreditava que a vida lhe proveria o amanhã. “Trabalho hoje para que o amanhã exista, afinal; não estou lá ainda”; confesso que fazia todo sentido, mas eu era tão ansioso, que não sabia não pensar no amanhã, no depois do amanhã, na semana que vem, nos meus próximos dez anos. Aliás, coisa que eu mal sabia fazer era pensar no hoje; viver o aqui-agora, como ele dizia fazer, era tão penoso e tão pesado, que acordava pensando já na hora de dormir; tomava meu café da manhã já pensando nos analgésicos que tomaria antes de deitar; ia para o trabalho já pensando nas pantufas que descalçaria dos pés ao me jogar na cama; vivia o hoje já pensando no dia de amanhã, pois tão sem sentido me parecia o dia de hoje, se há um amanhã com que se preocupar.

Era alguém evoluído, eu pensava; alguém que sabia que a vida logo teria fim; talvez soubesse quando iria morrer ou, talvez, soubesse o momento certo de pôr fim em tudo, para que parecesse ser minuciosamente arquitetado, para dar um tom magistral, uma coloração dourada e nova a toda carcaça carcomida e esculhambada que lhe parecia a própria vida. Alguém evoluído, sim, eu pensava, pois não se prendia às brevidades da vida, nem às coisas mais sólidas, mas se dedicava inteiramente às experiências, como sempre lhe percebera; mas que parecia um tolo, vivendo desmedidamente no hoje, isto parecia.

Ao bem da verdade, ele me impressionava ao mesmo tempo que me aborrecia; não sei dizer se por falta de habilidade, para conduzir minha existência tal como ele, assim, de forma tão emocionada, ou se por tamanha pieguice, que tinha som e sabor de ranço com melodrama de livro de autoajuda. Parecia não saber ao certo o que esperava da vida, ao mesmo tempo que soava tanta certeza nas suas escolhas, que me confundia pensar sua vida, ou a vida de modo geral, pois me punha em xeque toda vez que pensava sobre meus próprios projetos. Agia de modo inquieto e parcimonioso ao mesmo tempo; parecia um domo, saliente e invejado, admirável e distinto, tomado por uma soberba refinada, gentil e provocativa, que, ao passo que era um convite, era também desencanto; mas não um desencanto apaixonado, aquele frustrado que decepciona; um desencanto que desconvida, que descontinua, que descortina a simplicidade da coisa… um palco tão simples, tão toscamente aprontado, que mais parecia ser um chão batido.

Em decorrência desta frase, desta solene e intrigante, mas simples frase, sua perspectiva sobre o amor e o amar era sóbria e madura; aliás, qualifico desta forma, pois não me ocorrem outras palavras. Sóbria, pois pensava e sentia o amor e o amar de forma nada romântica; sabia que o amor não superava tudo, quando muito, superava alguma coisa. Sabia que viver o aqui-agora implica não romantizar as relações, e que elas devem acontecer cimentadas num misto de sorria-e-acene; sóbria, porquanto não era um mise-en-scéne. Madura, pois que sabia ser o amor uma forma de se relacionar, apenas exacerbada em alguns pontos; não compreendia a relação entre amor e posse; entre amor e ciúme; entre amor e submissão; entre amor e autoridade; entre amor e prepotência; entre amor e mesquinharias quaisquer que existam entre duas pessoas que dizem se amar. Sóbrio e maduro, pois ele apenas gostava de estar perto e junto, mas não cria ter qualquer relação de necessidade entre ambos, uma vez que, caso um dos dois quisesse partir, poder-lhe-ia ocorrer de partir imediatamente. Para nunca mais voltar.

Era exatamente este ponto que me atormentava: como era possível um amor que permitia partir; aliás, como era possível um amor que convidava à partida? “As pessoas são do mundo, antes de serem umas das outras”, respondia aos meus questionamentos inseguros e incessantes. “Elas não devem ficar, caso não o desejem; aliás, insisto, elas não devem ficar, pois elas não são de ficar; ficam os inseguros”, arrematava-me, como uma marretada que esfacela, que destrói e que finaliza, arregimentando todas as justificativas pelas quais insistia em não se indispor a relacionamentos… nunca mais. Sobre o amor raro, que sempre questionava a mim sobre sua existência, o qual me pegava sempre de calças curtas, dizia ser este o amor que buscava: um amor que, tão raro, seria difícil encontrar; um amor que lhe permitisse viver como se fosse só; só que não.

Ao mesmo tempo que parecia ter um coração de pedra, parecia ter um pedaço de algodão-doce, que se desfaz imediatamente caso lhe pinguem uma gota; viver enquanto a vida acontece, segundo suas crenças, significava não se fixar em lugar algum. Por outro lado – eu pensava – isto parecia justamente o contrário; parecia exatamente que ele estava buscando, de lugar a lugar, onde estava o início da sua vida, para que pudesse dar o play e começar, finalmente, a viver algo que, até o momento, ainda não sabia o que seria. Era o que me fazia olhá-lo com admiração e desprezo; não era alguém em quem se podia confiar, afinal; partiria tão logo amanhecesse, ou talvez nem esperasse anoitecer para se ir. Em contrapartida, era alguém com quem, definitivamente, se podia contar; “a lealdade é própria daqueles que vivem; não se vive sem poder contar com o outro; não se vive sozinho, afinal, e sozinho não se vai ao longe, quando muito se sai do lugar; a lealdade, meu querido, é própria daqueles que amam o ‘nós’, antes de amar o ‘outro’, e amar o ‘nós’ significa amar todos, sem se prender a um”. Encerrava seu discurso assim, batendo nos bolsos, procurando algo na calça ou na bolsa, parecendo ansioso por acender o cigarro e, após a primeira tragada, dispensá-lo para acender o próximo.

E eu… eu ficava pensativo, apenas. Olhava para meus pensamentos de soslaio, tentando não os encarar, mas tentando não os perder de vista; apenas olhava, não refletia muito, para que não me confundisse se olhava ou se pensava, apenas olhava. Tal como fazia com ele: olhava, apenas, pensava pouco, mas olhava muito, tentando decidir o que, afinal, separava-o de um sujeitinho pacato e desequilibrado, e um sujeito sábio e conhecedor da vida; não conseguia precisar qual era, afinal, a linha que o dividia entre a sapiência e a insanidade, mas confessava para mim mesmo que admirava… admirava seu “saber viver.