joelho estourado, decido almoçar no restaurante mais pertinho de casa, um self.

me sirvo, tomo assento.

chega um casal.
como eu, ambos apoiando-se em suas bengalas, e quem vê de fora pode acreditar tratar-se de um almoço de confraternização dos amigos e dependentes das bengalas…

têm idade indefenida, mas, com certeza, naquela faixa em que já podem se referir ao agnaldo rayol como “aquele moço”.

ela: vai, serve primeiro, que quero descansar um pouquinho.
ele: tá.
ela: lava a mão.
ele: tá bem, tá bem…

ele se vai, garçom se chega:

– tomar algo, senhora?
– vou esperar o marido, de repente tomo o mesmo que ele.

prato feito, volta o marido, ela se vai, pouquinho depois se chega, de novo, o garçom:

– tomar algo, senhor?
– vou esperar Dulcinha [panhei amor de infância na hora] pra ver o que vamos tomar.

ela volta.
começam a comer.
tempo bom depois, ela pergunta:

– lavou a mão?
– não. eu tinha sujado elas?
pausa grave e curta, ela responde:
– não lembro mais.

e riram gostoso até começarem as tosses.

acabaram de comer.
nada beberam.
garçom se esqueceu de voltar e eles, de pedir, mas, com alguma poesia, pode-se dizer que tomaram o nada juntos, e isso é mais uma forma de cumplicidade – tortinha, mas é.

o doce das relações podem até ser as memórias, mas a saúde delas, os esquecimentos.